Uma mulher de hábitos (ou fingindo costume)

“Eu sou uma mulher de hábitos”, foi sua forma de me dizer não, e fui ao restaurante sozinha.

A gente almoçava todo dia num restaurante acolhedor perto da escola, apesar da comida ser cara e mal temperada (cedo ou tarde, todos nós criamos carinho por aquilo que às vezes só era o melhor dos piores). Estávamos no centro-rico da cidade e aquele molho de tomate insosso não fazia o menor sentido, mas era o que tínhamos, e íamos todos os dias.

Lembro quando almoçamos com uma colega que deu para elogiar eloquentemente a comida, e rimos muito, não era possível! Foi a primeira vez que eu soube que você também sabia que aquele restaurante não era grandes coisas. Eu era fresca demais com comida para ter coragem de criticar. Ainda bem que você riu.

Foi lá que comi lentilha pela primeira vez e te disse que gostei, apesar de hoje saber que lentilha pode ser bem melhor que aquilo. Muita coisa ali eu comi pela primeira vez e não te contei, para fingir costume. Muita coisa ali eu nunca mais comi, pois perdi o costume.

Um dia te convidei para almoçar em outro restaurante, também perto da escola, para variar. Você, uma mulher de hábitos, não foi.

Fazia tempo que eu não comia em um lugar novo. Ar condicionado, piso de madeira, serviço à la carte, uma dezena de jovens com camisetas iguais à minha, eu sozinha, numa mesa com mais três cadeiras vazias — liberdade ou solidão? eu chamaria de ensino médio.

Aquilo não era bem o que eu tinha planejado, mas é só um almoço e tudo bem, eu dizia para mim mesma. Tudo bem, porque a única coisa vegetariana que tem aqui é uma tapioca sem graça com legumes em cubinhos e você não ia gostar. Tudo bem, porque eu queria mesmo um lugar artificialmente refrigerado e comidas que eu não precisasse servir. Tudo bem porque é só mais uma terça-feira, outras virão, e agora estamos onde queremos estar, sem receios.

Até cheguei a forçar uma referência cinematográfica: é como naquele monólogo de Frances Ha, sabe? sobre enxergar de longe outra pessoa no meio da multidão e saber que existe ali um mundinho entre vocês que ninguém mais vê, e que está tudo bem – mas a verdade é que nenhum daqueles adolescentes do restaurante conseguia ver isso na minha mesa vazia. Sendo sincera, aquela situação era muito estranha para mim, mas eu estava fingindo costume.

Seja madura e engula: terei que lidar com isso como tive que lidar com as lentilhas, e pode ser que eu goste. Crescer talvez seja um pouco sobre aumentar o cardápio e encarar os pequenos momentos de solidão, fingir que é normal até que se torne um hábito.

Mesmo sentindo que preciso largar meu plano, e ir, mais uma vez, ao restaurante da comida cara e mal temperada, você me inspira a fazer o que eu quero, a ser uma mulher com os meus próprios hábitos, ainda que isso signifique segui-los sozinha.  

Em seus hábitos, tudo me foi desesperadamente novo, e para te acompanhar até tive que abrir mão da sua companhia às vezes. Eu sei que não há nada de tão grandioso assim em cada uma seguir seus planos, sem concessões…mas você me faz crer que talvez eu consiga também, não seguir a companhia, por mais que me reste um receio no fundo do peito.

Depois de anos de amizade, frequentemente ainda me pego fingindo costume, engolindo em seco nossas liberdades. É engraçado, né? ter que se acostumar com um hábito. É que “ser uma mulher de hábitos” é uma forma de dizer não, e esse “não” às vezes é para mim. Estou aprendendo a usá-lo.

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