Como o capitalismo de vigilância se apropria das tecnologias da informação e comunicação
Quando acessamos um site pela primeira vez, é comum encontrarmos um alerta nos oferecendo cookies. Com a pressa do dia a dia, acabamos apenas aceitando, ainda que não saibamos direito o que significam os tais cookies.
Longe de se referirem aos famosos biscoitos com gotas de chocolate, esses cookies são pequenos arquivos que são gravados em seu computador quando você acessa um site na internet e que são reenviados a estes mesmos sites quando novamente visitados1. São usados para manter informações sobre você, como o carrinho de compras e preferências de navegação2.
Assim, usualmente os alertas vêm acompanhados de mensagens como: “os cookies nos permitem oferecer nossos serviços” ou “utilizamos cookies para prover uma melhor navegação para você”. Contudo, o que os avisos não revelam é que esses programas coletam informações-chave para a publicidade online, especialmente no que diz respeito aos anúncios exibidos de forma personalizada3.
Desse modo, os cookies relatam às marcas nosso comportamento online, de modo a direcionarem a propaganda de acordo com nossos gostos e interesses4. Segundo um relatório da União Europeia, sobre proteção de dados, que analisou 500 sites, 70% dos cookies são de terceiros e rastreiam nossa atividade para nos oferecer publicidade personalizada5.
O modo de funcionamento dos cookies é diretamente relacionado ao capitalismo de vigilância, conceito criado por Shoshana Zuboff. O termo denota uma nova fase do capitalismo, iniciada pelas grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício, que monetiza dados obtidos através dos serviços os quais, aparentemente, são gratuitos6.
Para a autora, esse tipo de capitalismo aproveita-se das tecnologias de informação e comunicação para expropriar a experiência humana, que se torna matéria-prima mercantilizada. A condição para a emergência do capitalismo de vigilância foi a expansão das tecnologias digitais na vida cotidiana, tendo em vista o sucesso dos produtos da Apple no início dos anos 2000, o estouro da bolha da internet em 2000 e os ataques terroristas do 11 de setembro. Com o estouro, houve retração dos investimentos nas startups, o que levou à exploração comercial de dados dos usuários e, para se prevenir contra novos ataques, autoridades norte-americanas passaram a focar em programas de monitoramento dos usuários da internet7.
O Google, que antes somente extraia dados comportamentais para melhoria dos seus serviços, criou o Google AdSense e passou, também, a utilizar essas informações para a análise e produção de algoritmos cada vez mais precisos, que podem deduzir os desejos e necessidades dos usuários a fim de enviar anúncios direcionados que correspondiam a esses interesses8.
A iniciativa mostrou rapidamente seus frutos: em 2006, o Google faturou US$ 10 bilhões em receita publicitária, tornando-se um gigante da publicidade. O faturamento influenciou outras companhias, expandindo a economia da vigilância no ramo tecnológico9.
Alguns exemplos mais dramáticos do capitalismo de vigilância são os gadgets que monitoram nossos processos fisiológicos, assistentes pessoais que registram comportamentos dos usuários e fábricas automatizadas que criam relações nas quais os humanos se tornam meramente acessórios monitorados por elas10.
Outro exemplo bastante famoso é o aplicativo Pokémon Go, experiência que proporciona interação entre o mundo real e virtual, provendo lucros reais para as empresas que o contrataram. Afinal, estas possuíam a oportunidade de pagar por um “PokéStop” - pontos onde eram colocados para os jogadores - perto de seus estabelecimentos comerciais11.
Cabe citar, ainda, a manipulação dos usuários, como durante as eleições norte-americanas de 2016. Os dados obtidos por meio do Facebook foram decisivos para o direcionamento de eleitores indecisos, uma vez que, por meio de cruzamentos de informações de diferentes reações disponibilizadas pela plataforma, traçou-se um perfil de cada eleitor.
Desse modo, o capitalismo de vigilância surge no contexto de Big Data, em que os usuários de tecnologias se veem obrigados a alimentar a rede para fazer uso de determinadas funcionalidades. Em diversos contratos, é possível encontrar cláusulas que informam que os dados serão enviados para terceiros ad infinitum. Além disso, a utilização de mecanismos de análise indecifráveis e a rede criada através da venda faz com que a responsabilização por qualquer ação indevida seja complexa.
Zuboff considera que, para a manutenção do sistema, faz-se essencial a ignorância do usuário, para que o mesmo continue o alimentando e o capitalismo possa continuar acumulando dados e, por consequência, riqueza12. É essa obscuridade, por criar assimetrias tão extremas, que torna o capitalismo de vigilância tão perigoso13.
O capitalismo de vigilância é um fenômeno inédito e que ainda não conta com formas de proteção em massa, expondo a privacidade e os vínculos de intimidade de cada um dos usuários. Para buscar combater um mecanismo tão complexo e repleto de especificidades técnicas, um primeiro passo, bastante promissor, é entender e refletir sobre o modo como usamos essas redes.
Enfim, agora que chegamos ao final do texto, aceita cookies?
FONTES
[1] https://cartilha.cert.br/riscos/
[2] Ibidem.
[3] https://www.bbc.com/portuguese/geral-40730996
[4] Ibidem
[5] Ibidem
[6] https://periodicos.ufes.br/peteconomia/article/view/33792
[7] KOERNER, Andrei. Capitalismo e vigilância digital na sociedade democrática. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 36, n. 105, e3610514, 2021. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092021000100702&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 de maio de 2021. Epub 15 de janeiro de 2021. http://dx.doi.org/10.1590/3610514/2020.
[8] Ibidem
[9] Ibidem
[10] KOERNER, Andrei. Capitalismo e vigilância digital na sociedade democrática. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 36, n. 105, e3610514, 2021. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092021000100702&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 de maio de 2021. Epub 15 de janeiro de 2021. http://dx.doi.org/10.1590/3610514/2020.
[12] CRUZ, Leonardo Ribeiro da; SARAIVA, Felipe de Oliveira; AMIEL, Tel. Coletando dados sobre o Capitalismo de Vigilância nas instituições públicas do ensino superior do Brasil. Simpósio Internacional LAVITS, [s. l.], 2019. Disponível em: https://lavits.org/wp-content/uploads/2019/12/Cruz_Saraiva_Amiel-2019-LAVITS-1.pdf.
[13] Ibidem

