Saudades de tudo aquilo que ainda não vivemos? Mais de um ano depois de passarmos “só 15 dias em casa”, é lançado o livro “O Porão” da antiga aluna franciscana Luiza Berthoud. Confira mais detalhes sobre a obra na matéria.
Não importa se você é veterano, formado ou calouro, em algum momento você parou para ouvir as histórias da Faculdade. Agora, em meio à quarentena-quase-eterna, nosso saudosismo implora por um gostinho das Arcadas e é assim que saciamos nossa fome: O Porão de Luiza Berthoud.
A antiga franciscana da turma 181 é autora do livro que conta as histórias da nossa Faculdade com um toque de ficção, como algum veterano bom de papo faria numa tarde qualquer de dia da semana. Confira, abaixo, a sinopse da editora sobre o lançamento d’O Porão, já disponível para pré-venda (compre aqui).
“’O Porão’ é o primeiro romance ambientado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a instituição que iniciou a formação de burocratas e políticos brasileiros, consolidando a independência e o autogoverno da nova nação. Entrando no Pátio das Arcadas e descendo ao Porão, a trama costura fatos históricos com uma ficção franca e sem moralismos, retratando a iniciação ao fazer político no XI e às tradições franciscanas: as trovas e os debates calorosos, as eleições do XI e as Assembléias Gerais e, claro, a Peruada. Escrito por Luiza Berthoud, antiga aluna da Velha Academia, o livro conecta a vida dos jovens acadêmicos à história conturbada da política brasileira.”

Aos que sentem saudade, uma nostalgia; aos que nunca puderam conviver na Faculdade, uma história das tradições. Conversamos com a autora e tivemos acesso ao primeiro capítulo do livro, chamado de “Arcadas”. Leia a seguir:
“Conta-se que no fim do século XIX um aluno do Largo de São Francisco, perturbado com a expectativa de publicação de algumas notas de provas que lhe seriam desfavoráveis, tacou fogo no prédio todo. A construção original do antigo convento, baixa e de taipa, ruiu-se ao pó. Durante a reconstrução, os trabalhadores encontraram diversos cadáveres presos dentro das paredes, supostamente frades que eram assim costumeiramente enterrados. Retiradas as ossadas dos velhos religiosos, o pó e o que sobrou dos livros e da madeira, mas não encontrado, por sorte, nenhum boletim de notas que perturbasse ainda mais o nosso criminoso, ergueu-se no local um prédio sob a concepção modernista de antropofagia, que engoliu o passado imperialista português para regurgitar um projeto arquitetônico neocolonial. Lustres ornamentais, piso de madeira vermelha e de ladrilhos, pedras claras e colunas gregas, vitrais que deliram uma história da nascença da pátria. No centro, o pièce de résistance, um pátio rodeado por arcadas, cópia fiel da Faculdade de Direito de Coimbra. Em uma dessas arcadas há uma placa, que reproduzo aqui, letra por letra: “Relembrando os dias incertos aqui vividos, a turma de 1946, com orgulho e emoção, reverencia estas arcadas, irmanando-se aos que, hoje, lhes guardam a alma imortal. Dezembro de 1996”.
Esse tipo de homenagem está presente em várias outras placas acopladas às paredes, em tábuas de bronze fincadas no chão e em esculturas de maior ou menor sucesso estético. Cada turma de formandos faz campanha para criar a sua própria homenagem-objeto, proclamando um ou outro mérito que justifique o merecimento de registrar sua existência na história das pedras daquele prédio. A mim, as arcadas ofereciam sombras misericordiosas durante o verão e apoio às costas em dias longos, algum momento para respirar fora do porão e para conversar com alunos fora do círculo hipnótico do partido. Mas, estando nessa arquitetura, não fui imune ao florescimento de um outro sentimento, alguma outra coisa mais difícil de descrever, algo como a ideia de que as arcadas testemunhavam a mim. Uma testemunha que conferia e assegurava importância ao que fazíamos naquele pátio, ligando-nos aos outros estudantes que por ali passaram, que lideraram o movimento republicano e as Diretas Já, que lutaram contra a Ditadura Militar e que morreram em 1932 o que, automaticamente, por transferência direta e não reembolsável, nos conferia glória. Estar ali era se imaginar ombro a ombro dessa história. O problema era que não nos era exigido, por nós mesmos ou por mais ninguém, algum mérito, ou esforço, ou mesmo a crença nas ideologias que levaram àqueles momentos de coragem e revolução. Nós possuíamos o convite para habitar essas arcadas e isso era o suficiente para mim e para muitos outros, talvez para a maioria dos apoiadores do Salve. Infelizmente, tantos outros recebiam outro chamado, o chamado à luta, e infortunavam a maioria de nós que apenas queria uma existência de paz e contemplação, talvez um singelo prestígio, uma promessa de nirvana.
Também não fui imune ao florescer de outro sentimento: a vontade de tacar fogo em tudo, de sentir o calor escaldante e, depois, com o nascer do sol, observar as ruínas junto aos passantes. Deixar que outros, melhores, reconstruíssem algo novo sobre os escombros, algo pós-modernista ou futurista, ou talvez melhor, que decidissem, finalmente, não reconstruir nada. Por que as pedras haviam de sobreviver quando nenhum de nós sairia intacto?”

