Na série literária de hoje, conheça a história de Luzia Freire (nome fictício), uma professora de 38 anos, que leciona História para alunos do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio em escolas públicas do interior do Estado de São Paulo.
É interessante me recordar que eu sonhava em ser uma policial, mas, devido a um problema grave de coluna, não havia possibilidade de ser aprovada no teste físico. Por isso, quando terminei o ensino médio, me senti indecisa, não sabia exatamente o que escolher ou qual caminho seguir. Depois de um ano sem perspectivas, meu pai me incentivou a cursar História na faculdade particular, onde ele era professor do departamento, pois acreditava que eu precisava tomar um rumo na vida. Encurralada por tal atitude, parei para pensar na facilidade que sempre tive nessa disciplina e logo brinquei com ele, dizendo que se eu não precisava estudar matemática, então era isso o que eu faria.
Hoje, sou professora há 16 anos e não me vejo em outra profissão, apesar de todos os desafios presentes corriqueiramente na educação.
Lecionar no nosso país não é uma tarefa fácil, visto que o Estado não oferece um suporte adequado e, meus alunos, por exemplo, possuem estruturas familiares disfuncionais, o que torna as circunstâncias do ensino ainda mais complexas. Por isso, mesmo tentando me manter tranquila, as crises de ansiedade, muitas vezes, são inevitáveis, em razão das frustrações constantes causadas por acreditar demais na possibilidade de mudança da nossa educação.
A educação pública exige que parta do aluno o interesse em aprender, mas vários não possuem vontade estudar, inclusive, alguns me confessam estarem indo apenas pela merenda. Isso é realmente triste de se ouvir!
Com a pandemia, o desestímulo ao estudo aumentou. Somente 40% dos meus alunos têm feito as atividades desde a interrupção das aulas presenciais em março.
Eu sou cobrada pela coordenação a fazer semanalmente um roteiro com questões para ser contabilizada minha presença. Para isso, me baseio em aulas disponibilizadas aos discentes e docentes no aplicativo Centro de Mídias SP, que é uma ferramenta fornecida pelo Estado de São Paulo para auxiliar no ensino à distância.
E ainda me coloco a disposição para os alunos de uma maneira que habitualmente não faria, criando grupos de WhatsApp para cada sala e recebendo mensagens deles no privado a qualquer dia e horário.
Mesmo assim, a maioria dos estudantes não responde às perguntas e nem visualiza os vídeos, poucos são aqueles que me procuram para tirar dúvidas e uma única aluna, me pede para fazer chamada de vídeo, pois ela quer entender melhor o conteúdo da semana.
Penso que o acesso à internet não seja o verdadeiro impeditivo, pelo menos, para os meus alunos, porque em sala de aula usavam frequentemente o celular, o que demonstra que eles possuem aparelho e crédito para usar a rede. Eu não quero dizer com isso que não existam exceções, pois há, como o caso da Maria, que precisa emprestar o celular de sua mãe.
Se esse não é problema, então qual seria o real motivo para pessoas, antes participativas, terem mudado de conduta? Perguntei para mim mesma. E, ao conversar com algumas delas, descobri que, depois da suspensão das aulas presenciais, começaram a trabalhar em supermercados ou como babás e, no final do dia, se sentem exaustas, não conseguem estudar.
Vejo que essa situação piorou quando uma nota foi emitida pelo secretário da educação, comunicando que os alunos não deveriam ser reprovados neste ano, em razão das dificuldades causadas pelo momento pandêmico.
Mas, a inatividade dos alunos não recai sobre essas situações. Somos nós professores os responsabilizados e cobrados por nossos superiores como se não estivéssemos fazendo nada para que haja adesão a essa nova realidade.
Negligenciam todo nosso esforço e o fato de que usamos, na maior parte das vezes, recursos próprios. Não estamos tendo nenhum amparo nessa nova forma de ensino. Eu, por exemplo, tive que pegar emprestado do meu pai um computador bem antigo dele, enquanto, outros colegas de trabalho têm usado o celular dos filhos.
Fico indignada ao pensar que, depois de tanto tempo, apenas agora o Estado prometeu dar um auxílio de 2 mil reais para os professores comprarem um notebook. Isso, porém, em 24 parcelas e sob a condição de ser feito um curso de informática para receber esse apoio financeiro.
Além de tudo, eu sou mãe de duas crianças pequenas, de 5 e de 7 anos, que também estão tendo aula por meios virtuais. Então, preciso ficar sempre em cima para elas assistirem as aulas e fazerem suas tarefas, fora os horários de refeição e os cuidados básicos.
Enfim, acho que em termos de conteúdo, infelizmente, o ano já está perdido. Se houvesse um retorno às aulas presenciais agora, o aluno acabaria indo uma vez por semana por, no máximo, três horas para evitar aglomeração. Não compensa.
Antes da pandemia, os meus alunos já possuíam uma dificuldade muito grande de aprendizagem, de interpretação e de analisar imagem, além da falta de interesse pela leitura. Tudo isso ficou ainda mais latente, pois o Estado cria propagandas idealizadas, que camuflam a verdadeira situação para quem não está inserido na unidade escolar.
Então, acredito que, diante dessas circunstâncias, a aplicação do vestibular este ano só se torna mais injusta, sendo que até o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) foi cancelado. Mas, caso ocorra, sei que tenho alunos capazes de enfrentar essa adversidade, porque eu, enquanto professora, preciso crer no potencial deles, senão minha profissão não faz sentido.
VENHA CONHECER OS DIFERENTES ENSINOS NA PANDEMIA!
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Introdução - Link
Relato: Professor de Cursinho Popular - Link
Relato: Aluno de Cursinho Popular - Link
Relato: Aluno de Cursinho Privado - Link
Relato: Aluna de Ensino Médio Privado - Link
Relato: Professora de Ensino Médio Privado - Link
Relato: Professora de Ensino Médio Público - Link
Relato: Aluna de Ensino Médio Público - Link
Conclusão - Link
