Tempo de Leitura: 10 minutos

Na série literária de hoje, conheça a história de Regina Aldo (nome fictício), 32 anos,  professora de colégio de elite e ex-professora de colégio de rede educacional privada e da rede pública de ensino.

Manhã:

-Bom dia, Fê. Hoje você fica na sala? 

-Ah… Bom dia…  Pode ficar, vou aplicar prova – fala ele sonolento enquanto saio da cama.

O dia começou melhor que a média. Acordar cedo não é lá minha atividade favorita, mas pelo menos hoje dou aula na sala, é lá que está o computador de mesa e uma cadeira melhor, é mais agradável do que o quarto, que foi preparado no improviso e na correria de adequar dois professores em um apartamento do centro.

O sortudo do meu marido só começa no segundo horário, já pra mim, é o dia mais cheio. 

Primeiramente, dou aula de redação, não sei como meus alunos aguentam uma matéria assim às 7:30 da manhã. Talvez seja o espírito batalhador do vestibulando, ou talvez só não aguentem, e durmam durante a aula mesmo, afinal, não consigo ver se estão lá. Não gosto de pensar assim, fica muito solitário.

Longe de ser uma sala ruim, na realidade, adoro eles! Fizeram uma surpresa no meu aniversário e ligaram todos as câmeras, isso mesmo, todos. Morram de inveja, professores da pandemia.

Na verdade, nem reclamo dessa sala. Meus alunos do terceiro ano compraram a ideia de abrir as câmeras, principalmente depois da campanha “ligue uma câmera”, que fizeram pelo facebook da instituição, e também deve ajudar a lidar com toda a situação da distância. O que é uma bênção, já que primeiros e segundos anos dificilmente “dão as caras” nas aulas.

Mais tarde, já dando aula…

- […] nunca se esqueçam de indicar de onde vocês tiraram os dados para a sua redação. Não precisa de uma sabedoria absurda, estilo Sherlock Holmes, calma, vestibulando, é o suficiente apontar o órgão, a mídia ou o livro, tudo bem?… Turma?

- Turma?

Droga. Acho que caiu a conexão.

- Ô Fê!!??

- Sim, caiu… – ecoando pelo apartamento, chega a triste confirmação.

Cinco minutos depois, minha conexão ressurge das cinzas.

-Perdão, turma, minha conexão caiu.

Logo leio no chat que o monitor da sala passou um exercício de sintaxe nesse meio tempo. E sim, minhas turmas têm monitores pagos para organizar a sala e cuidar de problemas técnicos. É bem conveniente, mas não é como se eu tivesse muitos problemas atualmente, já estou acostumada e o colégio nos deu cursos sobre as ferramentas online, antes mesmo de ser decretada a quarentena. Sentia ser uma “digital influencer” quando comecei a gravar video aulas para as turmas. Na verdade, ainda me sinto, mas agora com uma pitada de atendente de telemarketing.

Bem, não é de se admirar que, um colégio dessa magnitude, com filhos de pessoas tão ricas, não iria parar na quarentena, até porque os pais não pararam. Enquanto no colégio de elite as aulas estavam canceladas e ele nos dava cursos sobre edição de vídeo. No meu outro colégio, de uma grande rede de ensino massificada (dezenas de milhares de alunos pelo país), eu tomava café na sala dos professores, sem que ninguém soubesse o que estava por vir. Pobres de nós, professores, não sabíamos de nada, inocentes. O resultado foi uma diferença de um mês de aula, entre os colégios, sem contar o período de transição, necessário para o colégio mais despreparado.

O clima na grande rede ficou pesado, aconteceram ameaças de demissão, caso os professores não cumprissem o estipulado pelas coordenadorias, haviam problemas de infraestrutura, e claro, a mesma repressão de sempre, mas com 200% a mais de caos. Era difícil ser feliz assim. Então saí de lá. Sinto que abandonei meus colegas e uma causa, só que não tinham mais condições de ficar.

Uma aluna me chama e minha mente volta pra aula, que preciso continuar.

- Oi professora! Está de volta?

- Ah sim, Camila, – adoro essa menina – podemos retomar a aula? Em que momento eu caí pra vocês?

Minha conexão não caiu novamente.

Ao fim da aula, tenho que satisfazer minha curiosidade, vou aproveitar o intervalo deles e ficar esperando pra ver quem se desconecta da sala na hora. Meu amigo e colega comentou outro dia que se o aluno realmente está na aula, ele sai assim que a gente finaliza. Ele tinha que me dar a ideia, não?

Espero 5 minutos, na sala de aula virtual ficam eu e seis alunos. Vendo isso, saio da sala também.

Bem, foi melhor do que eu esperava, digo, não mais do que eu esperava, só seis de quarenta ficaram mais tempo do que o razoável. Acho que não estou tão sozinha assim. Três devem ter esquecido de sair, os outros três eu sei que dormiram. Entendo, faria o mesmo. Talvez quatro dormiram.

Olhando, talvez pense que estou insegura com a minha popularidade didática, porém, não estou, só me preocupo com eles. Por exemplo, não baixei nenhum aplicativo de plágio, sei que não são tempos fáceis, mas por outro lado sei que eles têm uma equipe de coordenadores e psicólogos à disposição, e espero que aproveitem esse privilégio. 

Além disso, eu sei que eles eventualmente vão passar no vestibular, alguns não são muito ambiciosos, outros tem muito potencial, contudo, nenhum deles não tem recursos para um cursinho ou grandes dificuldades em seguir uma vida sem faculdade, então, quanto a isso, estou tranquila. Só fico meio indignada quando esse meu aluno, que tem seu próprio computador, próprio quarto de estudos, ar condicionado e ele sequer entrega uma… 

Esqueci de cobrar as redações, droga, vou ter que pedir pela plataforma.

Tarde:

-Boa tarde, Manoela! Fez a redação? – é hora das aulas particulares, tenho uma atrás da outra até 19:30, o dia mais cheio mandou um abraço. Ao menos essas aulas são mais pessoais. O que não afasta a impessoalidade da tela fria do computador.

-Acredita que me inspirei e fiz duas, professora?! - ela diz, animada.

Meus alunos estão levando muito a sério os estudos, nunca vi nada igual em doze anos de docência. Quem diria que trancar jovens em casa faria com que estudassem por conta própria? Claro que estou brincando, mas de fato estão aplicados. Parece que estão desenvolvendo uma independência, como a que se desenvolve na universidade, raro acontecer tão cedo. Autonomia, essa é a palavra. Se for realmente isso, quer dizer que estão amadurecendo… Como faz falta poder olhar nos olhos do aluno, antes eu sabia de tudo só de observar, como se sentia, se entendia ou não, se estava viajando ou só apaixonado, agora não sei nem se estão acordados, que decadência.

A Manoela é um caso especial, abri uma exceção no meu horário e agora dou aulas particulares de redação. Cheia de garra, ela, diferentemente do aluno de colégio, e tem uma história poderosa, veio do ensino público e engravidou na adolescência. Hoje, quer medicina, diz que quer obstetrícia, vamos ver se ela continua assim na graduação. Porém, o fato é que ela acabou de começar, e faltam cinco meses para o vestibular. Nesses momentos gostaria de viver num romance de Guimarães.

Noite:

-Bem, é isso. - penso alto assim que envio uma mensagem.

Às 8:00 tirei a última dúvida do dia, pelo próprio whatsapp, uma bela ponte quando tudo do lado de fora está caindo. Inclusive, alunos que nunca tiravam dúvidas passaram a tirar, curioso, o fato, mas também o aluno. 

Só que meu dia ainda não acabou, mas chegamos na  segunda fase. Agora preparo aulas e reflito sobre meus alunos, noite adentro.

O vestibular, que já era injusto, e cruel o suficiente, veio no mais novo modelo 2020, agora com mais insegurança e o triplo da desigualdade! Tudo isso pela preço da imodesta taxa de inscrição! A injustiça é tamanha que realmente acredito que ele deveria ser adiado, que deixassem os particulares acontecerem, mas que os públicos não perpetuem as sequelas desse ano tão… difícil.

Eu sei que a pandemia será a desculpa para muitos não passarem, inclusive muitos dos meus, mas eu realmente não durmo quando não é uma desculpa, é realidade.

VENHA CONHECER OS DIFERENTES ENSINOS NA PANDEMIA!

Mais do nosso projeto, postagens às quartas e sábados, até a conclusão! Acesse e compartilhe!

Introdução - Link

Relato: Professor de Cursinho Popular - Link

Relato: Aluno de Cursinho Popular - Link

Relato: Aluno de Cursinho Privado - Link

Relato: Aluna de Ensino Médio Privado - Link

Relato: Professora de Ensino Médio Privado - Link

Relato: Professora de Ensino Médio Público - Link

Relato: Aluna de Ensino Médio Público - Link

Conclusão - Link

Share via
Copy link
Powered by Social Snap