Tempo de Leitura: 8 minutos

Na série literária de hoje, conheça a história de Paulo Neves (nome fictício), 20 anos, aluno da Faculdade de Direito da USP e professor-plantonista do cursinho popular pré-vestibular Arcadas.

Após uma noite virado terminando um dos trabalhos acumulados da Faculdade, estou deitado, imóvel, ouvindo uma voz calma que sai do computador: ““[…] Mas os transtornos da pandemia não podem ser utilizados como justificativa por devedores inadimplentes, desempregados e hipossuficientes; afinal o ordenamento jurídico não pode ser reinterpretado para se fazer ‘política social’ […]”. . O alarme do meu celular toca, mostrando que a monitoria – que deveria acabar às 17h45 – se estende mais uma vez até às 17h55, sem dar qualquer indicativo de estar se encaminhando para o fim. Depois de pensar um pouco, decido apertar Enter na mensagem já pronta: “Fernando, desculpa, mas tenho compromisso às 18h! Preciso sair. Mto obrigado pela monitoria!”. Ouço um “tudo bem” seco enquanto vou ao banheiro jogar uma água na cara.

Engraçado pensar que, agora, em um ou dois minutos você está em um outro lugar – uma outra reunião – sem muita pausa ou intervalo de deslocamento – não que eu tenha saudade do trânsito. Sem muito tempo para essas reflexões típicas de Twitter sobre o “novo normal”, entro no servidor do Discord – um programa que comecei a usar em 2015 para jogar online. Desde junho deste ano, porém, com a retomada das atividades à distância do cursinho popular de que eu faço parte, o Arcadas, tenho dado um outro fim – certamente mais nobre – para o Discord: por meio dele, passei a dar meus plantões para tirar as dúvidas de Matemática trazidas pelos vestibulandos.

O plantão do Arcadas sempre foi um momento importante da minha semana. Eu gosto dessa transição de papéis: deixar de assistir uma aula e passar a dá-la, ter passado o estresse do vestibular e poder, agora, dar conselhos aos alunos que enfrentam essa fase etc. Acontece que tudo isso ficou bem mais complicado com a pandemia, né? Às vezes penso no quanto essa “transição” foi complicada, principalmente para os alunos.

Enquanto os cursos da Faculdade tiveram continuidade logo de início – sem a realização de discussões necessárias sobre acessibilidade, é bem verdade –, as mudanças no Arcadas levaram mais tempo. No início, pegos de surpresa e sem experiência pedagógica à distância, foram enfrentadas grandes dificuldades. Eu e outros colegas nos disponibilizamos para respondermos dúvidas por WhatsApp, mas a procura acabou sendo baixa, principalmente por muitos alunos não se sentirem confortáveis com esse novo modelo. Por cerca de dois meses tive, então, um contato bem baixo com os estudantes e a minha maior preocupação era justamente por saber a diferença que todo esse tempo faz em uma preparação pré-vestibular.

Minha digressão é interrompida por um bipe, que sinaliza a entrada de Alicia, aluna do Arcadas, no canal de voz. Pergunto como ela está e conversamos um pouco sobre a nova dinâmica de plantões online – com a qual tivemos que nos acostumar, principalmente a partir do avanço descontrolado da pandemia e a subsequente certeza de que um retorno presencial minimamente seguro seria impossível neste ano. Normalmente passaríamos mais tempo falando da pressão do vestibular ou mesmo de assuntos diversos, como forma de descontrair um pouco e tornar um pouco menos cansativa a resolução de problemas de Matemática. A pressa com que tudo acontece no ambiente digital, porém, parece ter diminuído ao mínimo os contatos pessoais e, assim, eu e Alicia passamos logo à dúvida que ela tinha em meio a uma das listas de exercícios.

Alicia já introduz a pergunta se desculpando por se tratar de uma dúvida “muito básica”, simplesmente de aplicação de conceito. Tal ressalva dos alunos é recorrentemente feita nos meus plantões e me incomoda, pois percebo que os estudantes têm se culpado muito por não conseguirem absorver determinados conteúdos. Respondo que se trata de uma questão totalmente pertinente e passo a compartilhar minha tela para explicar o desenvolvimento necessário para responder o exercício. Na falta de recurso mais adequado, tenho usado o Paint mesmo – um programa que, digamos, é bastante tosco – para que os alunos visualizem minimamente o raciocínio.

Ocorre que, muitas vezes, a conexão instável de muitos alunos sofre com a combinação do áudio ao vídeo, causando uma série de interrupções, congelamentos de tela e comentários como “travou um pouco quando você começou a explicar o item b”. Entre repetições e novas tentativas, os alunos acabam absorvendo alguma coisa, mas certamente não tudo que seria necessário. Ao fim do contato com cada aluno, fica a sensação ambígua de que, por um lado, estamos e persistiremos fazendo o possível para viabilizar o aprendizado no contexto da pandemia, mas, por outro, há grandes prejuízos ao ensino, que atingem desproporcionalmente os alunos de cursinhos populares justamente pela falta de recursos tecnológicos e preparação pedagógica específica para a modalidade de ensino à distância.

Encerro o plantão e volto à minha rotina como estudante – marcada por horas de aulas atrasadas a serem assistidas e grandes montantes de tarefas a serem entregues. Acho que o que mais resume o EAD é o esgotamento – meu e dos alunos do Arcadas –, decorrente de uma exaustão em permanecer o dia inteiro na frente de uma tela de computador, realizando inúmeras atividades e com pouquíssimo contato humano.

De toda forma, essa situação, ainda que tenha dificultado imensamente a atuação dos professores de cursinhos populares, também fortalece a consciência acerca da importância de defender e valorizar a educação popular. Cientes da ampliação das desigualdades no contexto da pandemia, temos ainda mais motivos para nos dedicar e lutar para a concretização do acesso ao ensino superior. Obviamente, enfrentando uma série de adversidades, como o próprio modelo de vestibular, que, para muitos, “não deve ser utilizado para fazer política social”. Assim, a luta por um vestibular que não olhe apenas para a linha de chegada, mas para toda a trajetória dos estudantes faz parte também da minha missão como professor de cursinho popular, especialmente no contexto da pandemia. Afinal, em um sistema que se diz pautado no mérito, o ingresso de estudantes na universidade não pode se basear na velocidade da Internet e no modelo de computador que o vestibulando tem em casa.

VENHA CONHECER OS DIFERENTES ENSINOS NA PANDEMIA!

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