Antes de qualquer consideração sobre os temas a serem tratados nesta coluna, cabe um breve comentário que, talvez, esteja mais para uma confissão. Tratar do tema da liberdade e da expressão humana não é uma tarefa simples para um estudante no meio da graduação. Nos últimos meses, procurei expandir algumas das ideias que tinha sobre como geralmente a fala e a linguagem são utilizadas para reprimir pessoas e, ainda que a pedra fundamental do curso das minhas leituras seja a humildade de Descartes, pareceu-me necessário introduzir dois grandes pensamentos antagônicos já de início.
A doutrina liberal que apresentei é a fundada nas defesas de Mill. No debate acadêmico atual, acredito que não existem muitas objeções sobre a importância da liberdade. Procurei demonstrá-la como algo decorrente de um direito natural, de uma característica da própria vida, do próprio ser. Procurei fazer uma defesa do benefício gerado ao não se impor o anonimato, ao deixar o preconceito dar suas caras, para que soubéssemos com o que e quem realmente estamos lidando. Mas, assim como qualquer princípio, suas defesas irrestritas podem gerar danos e contradições.
Por isso, apesar de já ter feito muitas ressalvas, era necessário falar para o outro público, nos seus próprios termos. Esse público, que assim como um fiel liberal, também peca pela falta (mas às vezes pelo excesso) de ressalvas, acreditei ser ligado à escola marxista. Parti dessa assunção para escolher Djamila Ribeiro, uma autora com bagagem teórica materialista que faz seu ativismo chamando nossa atenção ao problema convenientemente esquecido do pensamento comum: o de que só se faz uma dialética, só se faz um silogismo verdadeiro, se realmente considerarmos o outro. O lugar de fala apresentado pela autora também sofre dos mesmos preconceitos que as defesas liberais mais contundentes – ambos se tornaram espantalhos.
Então, qual seria o próximo passo desta série ainda incipiente? Continuei na filosofia, na esperança de logo encontrar algum argumento incontestável, alguma defesa comum aos dois lados. Como era de se esperar, não cheguei nem sequer a uma pista. Os vários argumentos que realmente tomaram corpo no debate popular estão relacionados ao problema da intensidade da importância do indivíduo: de um lado, numa doutrina hegeliana, vemos argumentos na defesa de um indivíduo cuja completude se dá na sociedade; de outro, numa doutrina cientificista que encontrou grandes defensores como Karl Popper, vemos argumentos na defesa de um indivíduo autossuficiente, manifestado no responsabilizar-se, no ceticismo em relação ao universal.
Mas existe um ponto de partida em comum às mais variadas vertentes populares hoje. Ele nos direciona ao argumento de que o indivíduo é bom em si, de que o problema está lá fora. Às vezes o problema é o fetiche pelo dinheiro e a desigualdade provocada pelo capitalismo, às vezes é a consequência desastrosa da própria busca pela mitigação das desigualdades que regimes alternativos como o socialismo almejam – não faltam interpretações.
E aqui chegamos ao próximo passo, que é a discussão das próprias expressões. Ao buscar uma filosofia que esteja para além do bem e do mal, Nietzsche pontuou que não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos. Esse autor, generoso por ver a mediocridade em tudo e em todos, manifesta uma característica muito comum nas pessoas que sentem que têm algo para dizer: a exaltação da própria inteligência, a crença de que se entrega um presente ao mundo em forma de discurso, a fé na própria convicção. Ele pode não ter acertado, mas pelo menos foi honesto. Existe uma cegueira autoimposta na manifestação da humildade e da compaixão – é claro que você já sabe disso…
O que veremos nos próximos meses será a abertura do tema da Expressão, mas sem encerrar o tema da Liberdade. Cabe ainda uma última ressalva: a escolha por poucos autores e grandes saltos temporais é uma escolha pessoal, procurando ser o mais autêntico possível e me afastar do vício do erudito, que quando não repete o que leu, condiciona sua concordância a uma crítica conhecida.
Para antecipar, a próxima obra a ser discutida é uma coletânea de estudos de diversos doutorandos do curso de Psicologia Social da PUC-SP (do livro Psicologia social e pessoalidade, organizado por Mary Jane P. Spink, Pedro Figueiredo e Jullyane Brasilino).
Nos vemos lá!
