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Na série literária de hoje, conheça a história de Alexandre (nome fictício), 20 anos, aluno de cursinho da rede privada, formado no ensino médio em 2019, que agora tenta, pela segunda vez, prestar ENEM para faculdade pública de direito.

Minha história, na verdade, não tem nada de excepcional, ela é bem comum no final das contas, por isso, talvez, descrever um pouquinho do que eu estou passando reflita a realidade de muitos outros jovens na mesma situação que eu. Estudei a maior parte da minha vida em escolas públicas, exceto nos meus segundo e terceiro anos do ensino médio, que concluí em instituição privada.

A verdade é que essa mudança nas minhas séries finais não se deu porque eu achava que estudar em uma escola particular me faria ter mais chances de passar no ENEM, como muitos pensariam, mas foi mais uma questão de disponibilidade mesmo: na minha cidade só existem três escolas que oferecem o ensino médio, sendo duas públicas e uma privada. Uma das públicas tinha uma professora de inglês que realmente não falava inglês, na outra, digamos que havia um alto nível de comercialização de drogas ilícitas entre os estudantes dentro do próprio ambiente escolar e, bom, a última, a escola particular, foi a única “normal” que restou. Ok, talvez eu tenha mudado para a escola privada porque, indiretamente, acabei percebendo que a estrutura das públicas era muito ruim.

Mas voltando um pouco para a minha história: eu concluí o ensino médio em 2019, mas, infelizmente, não passei no ENEM naquele ano. Meu sonho sempre foi fazer direito: sempre fui muito apaixonado pelas leis e pelas matérias de humanas de forma geral, especialmente história, para a qual eu dedico muitas horas livres do meu dia para ler sobre. Meu passatempo favorito (e também o assunto do qual mais gosto de falar) definitivamente é me informar sobre a história antiga, que vai desde Sócrates, na Grécia, até Napoleão, na França. Gosto, particularmente, desse período histórico e visito museus sempre que tenho a oportunidade.

Pessoalmente, eu me encanto pelas armaduras de guerreiros medievais, gosto de ficar olhando por horas para uma no museu quando eu tenho oportunidade. Mas isso é outro ponto, onde estávamos? Ah sim, estava falando da minha paixão que combina lei, história e leitura no tempo livre. Essa é uma das razões pelas quais eu acho que o direito é perfeito para mim: acho que meu gosto combina com a grade do curso. E por amar tanto direito, mesmo não tendo passado “de primeira” no ano passado, não pretendia considerar nenhuma outra opção que fosse menos concorrida, apenas para entrar em uma “Federal”. Definitivamente achei que seria melhor me dedicar mais um ano e insistir no meu sonho, ao invés de simplesmente desistir dele para agradar às expectativas externas.

Enfim, terminei o ensino médio ano passado e já me matriculei em um cursinho de pré-vestibular no início do ano, também em instituição privada (até mesmo me mudei de cidade para fazê-lo). Antes da quarentena, estava morando com o meu primo, que também era vestibulando e fazia o mesmo cursinho que eu. Estava indo tudo bem: eu estava me preparando para um novo ENEM, conhecendo os meus colegas de classe etc. quando, de repente, veio a pandemia. E tudo mudou. Tive que voltar para a casa dos meus pais na minha cidade natal e o cursinho se tornou EAD em pouco mais de uma semana depois.

Porém, essa transição do ensino presencial para o remoto, foi relativamente tranquila se comparada a de outros alunos do Brasil, porque minha realidade econômica sempre foi muito confortável: nunca tive dificuldades para me manter, minha educação básica foi muito boa, meu cursinho tem uma estrutura excelente e se adaptou bem na plataforma on-line, além do que tenho internet e computador em casa disponíveis para estudo. Nunca precisei trabalhar e meus pais sempre apoiaram meus estudos.

Então, meu ensino durante a pandemia acabou refletindo essa realidade estrutural que me acompanhou desde sempre: não senti nenhuma perda de qualidade e continuei tendo as aulas normalmente, todas nos mesmos horários (segunda a sexta, das 13 às 18 horas), com uma boa distribuição entre todas as disciplinas, plantão de dúvidas pela parte da manhã e WhatsApp dos professores disponibilizados para termos um contato mais direto etc. Além disso, continuei com simulados semanais e redações corrigidas como sempre.

Além disso, sinto, inclusive, que o sistema de aulas remotas melhorou a minha qualidade de estudos, porque o material extra disponibilizado pelos professores ficou maior: eles postam mais exercícios, temas de redação e slides explicativos do que antes. Também não há cobrança em relação às entregas, o que não me deixa sobrecarregado: faço os exercícios no meu ritmo e conforme acho que será melhor para o meu aprendizado. Parte-se do pressuposto de que nós, alunos do cursinho, já estamos interessados nesse estudo direcionado para o ENEM e sabemos regular a quantidade de dedicação necessária para cada matéria, de acordo nossos objetivos e facilidades para passar na universidade.

A minha transição para o EAD, com certeza, foi a mais confortável possível materialmente falando: a internet da minha casa não é tão boa (2Mb), mas minha família é super compreensiva e, enquanto estou tendo aulas, eles evitam se conectar para que eu possa assisti-las tranquilamente. Nunca tive problemas com o acesso à internet. No entanto, dentro de casa, sinto uma pressão familiar maior do que antes, o que por um lado é positivo, pois me obriga a estudar mais, mas de outro lado, me deixa com uma sensação um pouco conflitante: sinto que, no fundo, meus pais não acreditam que vou conseguir passar em uma universidade federal esse ano para cursar direito, o que sempre foi o meu objetivo. Mas a ansiedade de estar prestando a prova pela segunda vez (e de além disso ela ter sido adiada esse ano) já é tão alta que costumo dizer que estou “anestesiado” por dentro: não sinto mais nada, apenas continuo estudando, apesar do estresse, torcendo para que este período acabe logo. Em relação a mim, já me sinto bem confiante e preparado para prestar o exame.

Minha rotina varia de acordo com as aulas que vou ter ao longo do dia. Mantenho sempre uma carga horária de estudo extra de duas horas pela parte da manhã, além dos simulados e redações. Durante a tarde, assisto às aulas de exatas, na qual tenho mais dificuldade (química e matemática sobretudo), mas falto na maioria das aulas de humanas, como as de português, filosofia etc.. Biologia, um meio termo entre o norte de humanas e exatas, eu costumo assistir, já que também não tenho tanta facilidade. Falto às aulas cujos temas já sei que domino para me dedicar àqueles que ainda estão faltando para fazer uma prova de qualidade. Como a carga horária entre humanas e exatas é muito bem dividida, e meus dias mais e menos atarefados também são bem distribuídos ao longo da semana: os mais difíceis são quinta e sexta-feira, e os menos, segunda e terça (quarta-feira é um meio termo). É uma rotina, em geral, bem tranquila, no entanto, porque agora, como estou morando com os meus pais e estudando em casa, não tenho mais que me preocupar com faxina, cozinha ou transporte público. Além disso, minha casa é um ambiente de estudos bem tranquilo: moro apenas com minha mãe, meu pai e meu irmão e todos eles fazem silêncio enquanto assisto às aulas.

Em relação ao ensino do nosso país, vejo, em geral, uma situação muito complicada e triste, porque sei que sou privilegiado e há inúmeras pessoas que durante a pandemia não estão tendo a mesma oportunidade de acesso à internet e ao ensino que eu. As escolas públicas, sobretudo, são as que mais estão sofrendo nesse período. Acho que o melhor investimento do governo está nas instituições de ensino superior, e não nas de fundamental e básico. Sei também que muitos colégios não possuíram a infraestrutura necessária para retornar às aulas presenciais agora, por não conterem um nível mínimo de espaçamento entre as carteiras para os estudantes, álcool gel suficiente, e até mesmo recursos básicos para qualquer situação, como água, pias etc. Inclusive, se as aulas presenciais retornassem hoje, me sentiria inseguro até mesmo dentro do meu próprio cursinho, que é privado, porque há muitos alunos para salas pequenas, um espaço propício para o contágio do coronavírus. Não vejo uma situação ideal para o ENEM dentro do contexto da pandemia. Penso que a prova, de forma geral, já não era muito justa com os estudantes que tinham acesso ao ensino regular, já que ele cobra de forma uniforme e muito genérica todas as matérias, independentemente do curso de escolha da pessoa (preferia que ele fosse feito nos moldes de alguns vestibulares, como a FUVEST, por exemplo, em que há uma parte geral e outra específica), quem dirá agora que muitos, que já enfrentavam graves problemas de estrutura, não concluíram nem o terceiro ano.

No entanto, para todos os efeitos, meu processo de aprendizado continua sendo muito prazeroso de forma geral e tenho dedicado ainda mais horas livres para leituras externas sobre história, como tinha dito anteriormente. Não tenho tido muito contato com meus antigos colegas de classe durante o EAD, mas não me sinto desconfortável com isso, porque tive muito pouco tempo para conhecê-los antes do distanciamento social, então não criei vínculos de amizade fortes (para falar a verdade, não criei vínculo nenhum, demoro um pouco para fazer amizades), mas imagino que para as pessoas que já tinham um grupo de amigos formados, deva estar sendo difícil essa ausência. Meu contato com os professores aumentou pela maior disposição para nos prestar assistência nesse momento e, por fim, sinto-me apenas ansioso e um pouco frustrado com a nova data do ENEM (quanto mais cedo melhor para acabar logo com a minha ansiedade). Mas sei que se não passar esse ano também ficará tudo bem, porque estudarei em uma faculdade privada próxima à minha cidade e prestarei direito de qualquer forma, mesmo que não seja na minha primeira opção.

VENHA CONHECER OS DIFERENTES ENSINOS NA PANDEMIA!

Mais do nosso projeto, postagens às quartas e sábados, até a conclusão! Acesse e compartilhe!

Introdução - Link

Relato: Professor de Cursinho Popular - Link

Relato: Aluno de Cursinho Popular - Link

Relato: Aluno de Cursinho Privado - Link

Relato: Aluna de Ensino Médio Privado - Em breve

Relato: Professora de Ensino Médio Privado - Em breve

Relato: Professora de Ensino Médio Público - Em breve

Relato: Aluna de Ensino Médio Público - Em breve

Conclusão - Em breve

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