“Escolha sua realidade” – são as palavras que aparecem no visor de seu celular e diante de seus olhos estão duas pílulas que só se diferenciam pelas cores: azul e vermelha. Escolha qual a cor que dará a sua realidade e, talvez a tela se apague, você ouvirá de longe um zumbido agudo e verá se materializar no visor letras e números de um brilhante verde neon. Você estará em um momento muito especial: prestes a assistir ao trailer de Matrix Resurrections, o quarto filme da série que até hoje faz as pessoas jurarem que presenciaram os famosos erros na Matrix.
O primeiro filme da série, lançado em 1999, foi marcante por trazer um incômodo ainda hoje não resolvido, toda a estranheza diante das mudanças globais percebidas no virar do milênio, as pessoas já sentiam no começo dos anos 2000 que os impactos dos avanços tecnológicos e programas de computadores estavam rapidamente mudando os parâmetros do chamado “normal”. Matrix é uma ficção científica e uma distopia por essência, trazendo à tela todos os estigmas da Inteligência Artificial e do universo invisível dos dados e códigos tão naturalizados nas primeiras décadas do século XXI. Por isso, o melhor elogio a ser atribuído ao filme é, com certeza, o de ter envelhecido muito bem.
No trailer do novo filme, Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie-Anne Moss) reaparecem dentro da Matrix, aparentemente sem nenhuma lembrança dos acontecimentos dos filmes anteriores, nos quais Neo descobre viver em um programa de computador chamado Matrix, travado no tempo passado para que os humanos tenham uma “vida normal” enquanto seus verdadeiros corpos estão presos em uma rede cibernética gigante, responsável por sugar seus impulsos elétricos para sobrevivência das máquinas. Neo é uma espécie de “messias da Era Digital”, o escolhido para libertar a humanidade da Matrix, percorrendo caminhos vacilantes entre o artificial programado e a escolha livre, que o leva ao seu destino, o qual não é necessariamente o esperado.


Wachowski, que não estará acompanhada de sua irmã dessa vez, resolveu dar continuidade à história, trazendo-a, ao que tudo indica, para os tempos atuais, uma vez que Neo aparece em uma cena dentro de um elevador, cercado por pessoas olhando nas telas de seus Smartphones. Se a “Resistência” (nome dado para o grupo de humanos que conseguiram sair da Matrix e passaram a lutar contra ela, construindo uma cidade chamada Zion) conseguiu sobreviver, do outro lado a Matrix não foi destruída e as expectativas são altas para saber como vai retornar. O filme chega às salas de cinema brasileiras, no dia 23 de dezembro de 2021, com cenas de ação e luta dentro dessa realidade digital, favorecida pelos avanços tecnológicos dentro e fora das telas.
Os olhos críticos daqueles apegados ao enredo verossímil não permitem passar desapercebida certa incoerência trazida pelo trailer de Matrix Resurrections, uma vez que Neo e Trinity não sobrevivem à batalha final do terceiro filme. Muitas explicações racionais podem ser levantadas, principalmente considerando que a Matrix apenas existe nas mentes dos humanos, mas Lana Wachowski nos traz indícios em suas entrevistas de que a ressurreição dos personagens pode ser atribuída somente à magia da arte, cujas irracionalidades também nos servem de conforto, principalmente nesses meses difíceis de pandemia:
Meu pai morreu, então um amigo morreu e minha mãe morreu. Eu realmente não sabia como processar esse tipo de luto, eu nunca tinha experimentado isso tão de perto. Nós sabemos que a vida deles irá acabar [em algum momento], mas ainda assim é muito difícil. Em uma noite eu estava chorando e não conseguia dormir, e meu cérebro explodiu toda a história [do filme]. Eu não poderia ter minha mãe e meu pai, mas de repente eu tinha Neo e Trinity, sem dúvidas os dois personagens mais importantes da minha vida. Foi imediatamente reconfortante ter esses dois personagens vivos novamente. Você pode olhar para isso e pensar ‘ok, essas duas pessoas morreram e, ok, você trouxe esses dois personagens de volta e isso não é bom’. Mas funcionou. É simples, é isso o que a arte e as histórias fazem, elas nos confortam
Lana Wachowski durante painel no Festival Internacional de Literatura de Berlim, tradução por: Camila Souza, Jovem Nerd; fonte: https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/matrix-resurrections-lana-wachowski-decisao-neo-trinity-de-volta/
Há certa megalomania nos cenários de Matrix, que demonstram toda a habilidade das Irmãs Wachowski com o cinema digital, as cores exuberantes e as construções futuristas são de tirar o fôlego, criando cenas de batalha ímpares, algo que muitos filmes de ação atuais deixam a desejar. Assim, o grande paradoxo do filme, entre os humanos e as máquinas, está presente tanto no conteúdo quanto na forma, a todo instante somos recordados do esplendor das tecnologias que nós mesmo criamos, sem deixar de questionar o quanto o mundo pode realmente ser traduzido em plena liberdade de escolhermos o nosso próprio destino.
Em um contexto apocalíptico de extrema simbiose entre as Inteligências Artificiais e os seres humanos, um precisando do outro para sobreviver, a busca pela liberdade possui traços mitológicos, cujas crenças devem superar a racionalidade instantânea, seja pela fé ou pela filosofia. A humanidade se perde, afinal, em seu dilema de ser simultaneamente criadora e criatura, e não há uma única resposta que resolva as questões existenciais. Entretanto, há um caminho, o traçado por Neo ao longo dos três filmes da série: a saída da Caverna como o filósofo de Platão; conhecendo a ti mesmo, como sugeriu Sócrates; e tropeçando na toca do coelho branco para cair no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.


Matrix nos fala sobre uma identidade fluida e antropofágica, e como toda obra que lança seus artistas para a eternidade, não é possível dissociá-la da figura e da biografia de suas autoras. Os três filmes, disponíveis no streaming HBO Max, são creditados aos Irmãos Wachowski e, portanto, refletem toda a jornada de transição de gênero das diretoras. A própria Lilly já declarou em entrevistas como Matrix é construído a partir de uma fúria interna, que é causada também por toda a opressão identitária de uma sociedade patriarcal e capitalista.
[Matrix] nasceu de muita raiva e muita fúria, e é raiva do capitalismo e da estrutura corporativa e das formas de opressão. A raiva fervendo dentro de mim era sobre minha própria opressão, que eu [estava me forçando a permanecer no armário.
Lilly Wachowski em entrevista para The Hollywood Reporter, tradução: Robinson Samulak Alves, TecMundo; fonte: https://www.tecmundo.com.br/cultura-geek/153864-lilly-wachowski-diz-matrix-reflete-luta-mulher-trans.htm
Claramente o sucesso de Matrix não se resume ao fato de suas diretoras serem mulheres trans. Antes, é um reconhecimento merecido de duas artistas que utilizam as tecnologias digitais no cinema como ninguém, o que também pode ser visto em outros filme magníficos da dupla, como Speed Racer (2008). Entretanto, as questões da identidade e da liberdade em Matrix são centrais, e muito nos faz refletir sobre as barreiras internas e externas que impomos ou são impostas às nossas personalidades e sexualidades, tão ricas e diversas.
A cena de explosão dessa liberdade que nem sabemos nomear ocorre no início do segundo filme, o qual é injustamente criticado em comparações com o primeiro, até porque nele estão as sequências de ação mais impressionantes da série toda, apesar de sua melhor cena não ser de guerra, mas de dança. A população de Zion dança freneticamente ao ritmo dos tambores, em preparação para a guerra, mas desfrutando da vida com a maior intensidade possível. Nesse momento, são todos humanos extravasando seus sentimentos e sua sexualidade. Durante todo o enredo dos filmes muito se fala de liberdade, mas dela pouco se vê. Nessa cena, ser livre assume um significado que mal pode ser descrito com palavras, as imagens falam por si mesmas.
Link do trailer: https://thechoiceisyours.whatisthematrix.com/br/

