Tema de exposição no Instituto Moreira Salles, autora com mais de um milhão de livros vendidos, um álbum musical e peças de teatro, além de várias obras em sua homenagem, desde livros, peças e curtas. Nos últimos anos, um resgate de Carolina Maria de Jesus busca dar o tratamento às suas obras, condizente à sua autoria e importância, colocando esta multiartista no patamar merecido.
Italo Calvino, escritor e teórico italiano, ao abordar os clássicos da literatura aponta que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”
Poucos livros na história tem o privilégio de serem lembrados por várias gerações, muitos são esquecidos. A obra de Carolina experencia os dois lados dessa moeda. Suas obras foram sucessos estrondosos, mas em diferentes momentos. Relançadas ao longo do tempo, tiveram momentos de sucesso e esquecimento, suscitando sempre grandes debates.
Para quem não a conhece, Carolina Maria de Jesus é uma das maiores escritoras brasileiras do séc. XX, tendo seu livro de estreia sido um enorme sucesso editorial no Brasil e no mundo. “Quarto de Despejo”, de 1960, é um compilado de trechos de seus diários narrando a vida na extinta favela do Canindé, em São Paulo, nos anos 50, é ainda um dos grandes êxitos literários do Brasil em matéria de sucesso. A realidade de mulher negra, mãe solteira, pobre, buscando sobreviver como catadora de papel, surge nesse relato potente, a partir da perspectiva individual que traz consigo a dimensão coletiva da segregação entre os pobres e ricos, negros e brancos.

Embora, atualmente seja um tanto desconhecida do grande público, Carolina Maria de Jesus foi um fenômeno em seu tempo. Seu sucesso a fez ser reconhecida por grandes da literatura de sua época, entre encontros e elogios, uma delas, Clarice Lispector.

Durante a realização de uma reportagem do jornal Folha da Noite, na favela do Canindé, o jornalista Audálio Dantas conheceu Carolina e seus diários, origem da publicação do seu primeiro livro Quarto de Despejo, Diários de uma Favelada. Sucesso absoluto, com sua primeira edição de dez mil exemplares esgotada em uma semana, tendo atualmente atingido a marca de um milhão de exemplares vendidos e traduções para 14 países, sempre com sucesso onde publicado.


A curiosidade e necessidade de ouvir a voz marginal, foi saciada por esse livro, documental, sobre as mazelas e as opiniões ignoradas de um país que buscava se modernizar, à custa da miséria e do abismo de classe. O subtítulo de “Diário de uma Favelada”, é na verdade uma vontade editorial, colocado como um chamado sensacionalista; duas constantes em sua carreira como escritora, marcada por mudança de títulos, hipercorreção, edições de seus textos que priorizavam uma escrita crua e monotemática, escondendo uma Carolina muito mais potente.
Aqui uma curiosidade dá conta da recepção, ao ser publicada na Alemanha, então dividida entre oriental-comunista e ocidental-capitalista, recebeu duas traduções diversas, cada uma focando aspectos diferentes, ao interesse de cada público.
O sucesso permitiu que ela pudesse explorar suas outras capacidades como artista; lançou um álbum de canções, realizando um dos seus grandes sonhos, ser cantora. Viu a adaptação de sua obra para o teatro, tendo como protagonista Ruth de Souza, uma das maiores atrizes do Brasil, e uma das fundadoras do TEN (teatro experimental do negro). Abaixo, confira o álbum completo de suas canções:
Ao Quarto de Despejo, seguiram-se outros livros, como Casa de Alvenaria: Diário de uma ex-Favelada (1961), Pedaços de Fome (1963), Provérbios (1963), Diário de Bitita (1977), e outras, que não gozaram do mesmo sucesso. As obras seguintes eram mais líricas e plurais, retratam as mudanças de bairro e de condição financeira, a experiência com a fama e com as classes ricas do país.


O aniversário de 50 anos do lançamento de Quarto de Despejo, em 2010, também gerou novas edições dos livros de Carolina, mas o mais importante: encontrou uma São Paulo, um Brasil já bem diferente.
Novos debates acerca da visibilidade da população negra, sua participação e voz na construção do país, o questionamento dos currículos e cânones artísticos, a crítica ao silenciamento de uma grande parcela da população, a inserção cada vez maior de pessoas negras e periféricas nas instituições de pesquisa e conhecimento do país; tudo isso resultou em um resgate não somente das obras de Carolina, mas de uma abordagem que fosse digna de sua produção e importância.
Inclusive, a própria filha de Carolina Maria de Jesus, Vera Eunice de Jesus, já era exemplar desta mudança, é professora na rede municipal de ensino de São Paulo, rompeu barreiras.
Quando as obras de Carolina se tornaram mais poéticas e menos documentais, fugindo de um retrato da miséria, o interesse tanto do público quanto das editoras diminuiu. Revelou-se uma escritora que tinha a favela, como um de seus temas, não sua marca maior, pecha de um mercado editorial que explorou sua imagem e sua riqueza, com denúncias de lucros nunca recebidos, motivo este pelo qual voltou a uma vida sem riquezas, mas sem a miséria.
Carolina Maria de Jesus deixou de ser retratada apenas em uma fase de sua vida, e passou a ser compreendida a partir de toda a sua trajetória de vida: mineira de Sacramento, formada com forte influência de uma cultura oral banto, proverbial; com formação escolar, ainda que breve, em uma escola modelo, onde nasceu seu amor pelos clássicos da literatura. Carolina foi alguém, conhecidamente, que sempre esteve em busca de conhecimento, motivo que sempre lhe trouxe problemas, algo que chegou a lhe levar para a prisão na sua cidade natal, acusada de bruxaria e ser leitora de São Cipriano, ou já em São Paulo, quando seus vizinhos encrencavam com ela pelos relatos de seus diários.
É a morte da mãe e a ida para São Paulo, onde vive com um salário de doméstica que não garante o seu sustento e de seus filhos, que lhe condicionam a viver na favela do Canindé e a trabalhar como catadora de material reciclável. Recentemente as periferias buscaram inverter o estigma negativo de pertencimento para uma identidade plural e potente. Assim as obras e a vida de Carolina Maria de Jesus passaram a ser vistas sob outra perspectiva, mostrando uma autora ainda mais brilhante.
Os últimos anos são um marco para uma nova fase de Carolina e suas obras, com o lançamento de inéditos e novas edições, e uma exposição a ser inaugurada este ano. A Companhia das Letras iniciou o lançamento de um projeto de novas edições e inéditos como escritos memorialísticos, romances, poesia, música, teatro e narrativas curtas. Buscando respeitar a obra da escritora, os livros tomam como base os cadernos originais onde Carolina, passando por um corpo editorial que inclui sua filha Vera Eunice de Jesus, a escritora Conceição Evaristo e as pesquisadoras Amanda Crispim, Fernanda Felisberto, Fernanda Miranda e Raffaella Fernandez. Esse marco editorial no tratamento das obras de Carolina Maria de Jesus, que já havia iniciado com o lançamento do livro de contos e escritos inéditos, “Meu sonho é escrever” (2018,) agora toma volume maior com as novas edições de Casa de Alvenaria (vol. 1 - Osasco, e Vol. 2 Santana), pela Companhia das Letras. Esses livros buscam trazer a público toda a sua potência, respeitando a escritora e sua escrita. Podemos, agora, ler uma das grandes escritoras da literatura brasileira, sem o ruído de outras vozes.


Essa desconhecida Carolina Maria de Jesus, multifacetada e artista de muitas produções, é revelada ao grande público através de outra grande e cuidadosa empreitada que busca fazer jus ao seu nome, a exposição Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros, programada para começar dia 25 de setembro, e terminar dia 30 de janeiro de 2022, no IMS - Paulista (para mais informações, clique aqui)
Título potente, que nomeia também um de seus manuscritos, revela uma de suas grandes capacidades, uma cronista crítica de seu país. A exposição promete mostrar uma estrela literária que cresceu também para além do meio pelo qual ficou famosa.
Carolina é incontestavelmente um marco literário nacional, que não deve a ninguém o título de uma das grandes escritoras do nosso país. É um clássico! Que agora poderemos ter contato em toda a sua extensão, e que devemos agradecer ao trabalho das mulheres negras que nos possibilitaram isto.
“Não, senhor, ninguém pode apagar as palavras que eu escrevi.”
Carolina Maria de Jesus
“Não, senhor, ninguém pode apagar as palavras que eu escrevi.”
Carolina Maria de Jesus
Suas obras disponíveis atualmente são, Quarto de despejo - Edição comemorativa (Editora Ática), Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos (Editora Ciclo Contínuo), Casa de Alvenaria - Volume 1: Osasco e Casa de Alvenaria - Volume 2: Santana (Comp. das Letras), Diário de Bitita (Editora SESI-SP).

