O gato dos JJE

Já é Jogos. Olímpicos. Os Jurídicos ainda terão que esperar um pouco mais. A questão é que estamos oficialmente no espírito esportivo. E fazem parte desse espírito as polêmicas envolvendo regras, atletas e todo tipo de organização envolvida nas competições. Nessa edição das Olimpíadas, então, já tivemos de tudo: esportistas banidos por testarem positivo para substâncias proibidas, uma delegação que não pode carregar a bandeira da própria nação e competidores impedidos de participar por conta do COVID. Ou melhor, já tivemos quase de tudo.

Imagine o que aconteceria se um comitê olímpico levasse consigo um atleta que não é daquele país. Nem tem a cidadania. Ou mora lá. Ou sequer tem qualquer ligação oficial com a nação. Ou seja, não poderia competir com essa delegação. Pois foi algo muito parecido que aconteceu na 34ª edição dos Jogos Jurídicos Estaduais. 

Saiamos de Tóquio e voltemos alguns anos. O caso aqui contado aconteceu no ano de 2010, em Americana, São Paulo. 

As principais faculdades de direito do estado estavam reunidas para os JJE, com representantes nas mais diversas modalidades, tentando levar para casa o tão desejado título de vencedor. A São Francisco, maior vencedora dos Jurídicos, obviamente não tinha ficado de fora. 

Era um dos primeiros dias dos Jogos, e a Gloriosa havia acabado de perder uma partida de futsal. Um jogo disputado e até mesmo engraçado, uma vez que o técnico dos dois times era o mesmo. Assim decorreu a disputa, com tentativas de gol até os últimos minutos e muita vibração da torcida na arquibancada. Infelizmente, mesmo com toda a raça dos jogadores, o resultado final foi uma derrota difícil para os franciscanos.  

Pouco tempo após o fim do jogo, uma notícia começou a se espalhar entre os estudantes. Foi sendo contada de um para outro, depois outro e, em algumas horas, grande parte da cidade já tinha sido informada. O alvo de toda essa inquietação era um dos jogadores da equipe que tinha vencido o tal jogo de futsal. Segundo os boatos, ele não cursava direito, apesar de ter jogado uma partida dos Jogos Jurídicos, com o time representante do curso de direito daquela. Rapidamente, ficou claro que se tratava de um caso de atleta irregular ou, como é mais conhecido, gato. 

No meio das fofocas, certas pessoas alegaram saber uma coisa ou outra sobre o atleta, afirmando que ele realmente não era estudante de direito. Alguns ainda disseram que ele estudava naquela faculdade, porém em outro curso. As especulações acerca da história e do que seria feito continuaram. Quando a notícia chegou aos membros das diretorias, uma Reunião Extraordinária foi convocada. Caso fosse confirmado, o gato poderia trazer grandes problemas para a atlética da faculdade. A diretoria da nossa Atlética XI de Agosto apresentou as informações, com direito a testemunhas e evidências retiradas da internet. 

Antes que qualquer defesa pudesse ser feita, um ilustre indivíduo entra na sala de reuniões das diretorias. Todos se viram e se deparam com ele. Sim, o próprio, o gato. Iniciou um breve discurso, em tom um pouco sem graça. Sem muita demora, veio a confissão. O jogador admitiu não ser estudante de direito, condição primordial para participar dos Jogos Jurídicos. Pediu desculpas pelo ocorrido. Então, alegou ser amigo dos atletas que cursavam direito, sempre treinar com o time, se sentir parte da equipe e continuou apresentando uma série de outros argumentos, tentando justificar a sua presença na competição esportiva das faculdades de direito do estado de São Paulo. 

Com essa importantíssima intervenção, as diretorias resolveram retomar as discussões mais tarde, na reunião que sempre acontecia ao final de cada dia dos Jogos. Afinal, os fatos já haviam sido apresentados e o gato já havia admitido sua participação irregular. 

Ao enoitecer, a questão foi levada para o recentemente implementado Tribunal Administrativo Esportivo. Uma novidade daquela edição dos Jogos, o Tribunal era composto por três pessoas sem ligação com as atléticas, envolvidas com jogos universitários ou direito esportivo. Esse novo órgão servia para analisar e julgar questões disciplinares e estipular as punições aplicáveis ou ações necessárias, de acordo com o Estatuto e o Código Disciplinar do evento, funções antes exercidas pelas próprias diretorias das atléticas. Assim, era esperado que as deliberações fossem mais neutras e imparciais, além de fazer jus ao “Jurídico” dos Jogos.

Frente ao Tribunal, a São Francisco, seguindo o protocolo, apresentou a denúncia do caso de gato por parte da outra faculdade. Com a confissão e todas as provas, não foi muito difícil convencer o Tribunal da irregularidade. Tendo em mente a gravidade do ato, considerado uma forma de trapaça do ponto de vista esportivo, a punição para essa situação era a maior prevista no Código: a expulsão da faculdade.

O momento foi de grandes tensões, mas não havia muito que poderia ser feito nessa situação. O resultado não foi surpreendente para ninguém e a decisão foi unânime, tanto entre os membros do Tribunal, quando das próprias atléticas. A pena máxima foi aplicada e a faculdade foi eliminada dos Jogos Jurídicos. Porém, a festa não poderia acabar assim tão abruptamente para os alunos da faculdade expulsa. Os torcedores e atletas continuaram assistindo às disputas e aproveitaram o resto dos dias de Jogos Jurídicos, porém com seus jogos cancelados. As disputas das quais essa faculdade ainda participaria foram considerados WO e a diretoria da atlética parou de fazer parte da organização do evento. 

Algumas questões acerca dessa expulsão permanecem sem respostas. Quem sabia do gato e quem não fazia ideia? Como ele chegou a participar dos Jogos? Como a informação começou a se espalhar por Americana? Será que eles voltarão? Fato é que, até hoje, essa faculdade não competiu em nenhuma das edições subsequentes. Pelo menos, os seus alunos continuam a frequentar e aproveitar os Jogos, mesmo sem participarem das competições esportivas. Quem sabe, um dia, eles voltem… 

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