O Surgimento do Território Livre

“Em São Paulo, os estudantes da Faculdade de Direito,  

depois de um comício realizado ao pé da estátua de José  

Bonifácio, inflamados pelos violentos discursos que se  

tinham feito ouvir, decidem fazer uma passeata pelo centro  

da cidade, em plena hora de trabalho, quando o tráfego era  

intenso. (…)A confusão que se estabeleceu foi indescritível.  

Correrias, atropelos, gritos, protestos. Os inspetores  

continuaram descarregando suas armas. Houve numerosos  

feridos. (…) Empunhando os fuzis, voltam os estudantes ao  

Largo de São Francisco, fazendo vários disparos. A  

situação torna-se extremamente tensa. A polícia recebe  

reforços e ocupa todas as saídas da praça. Outros  

estudantes, que não haviam conseguido armas, quebram os  

bancos e mesas da escola e, com seus pedaços, saem para  

a rua para enfrentar a polícia. A situação é de pânico.” [1] 

Encontrei esses trechos, por acaso, em um livro da década de 1960 que comprei em um sebo há alguns anos. Fiquei surpresa ao descobrir que tais acontecimentos  violentos narrados pelo autor retratavam a história pouco lembrada da criação do  “território livre” no nosso querido Largo de São Francisco. 

Em meados da década de 1920, surgiu um novo partido no cenário político paulista, o Partido Democrático, defensor do voto secreto e regras eleitorais mais rígidas,  que não demorou a ter adeptos dentre os acadêmicos de Direito. Opositor ao Partido  Republicano Paulista, hegemônico na República Velha, o PD apoiou o gaúcho Getúlio  Vargas nas eleições presidenciais de 1930 contra o paulista Júlio Prestes, que saiu  vencedor da disputa. 

Finda a disputa eleitoral, um marcante acontecimento mudaria os rumos da política nacional pelas próximas duas décadas: João Pessoa, candidato à vice presidência  na chapa de Vargas, foi assassinado. Apesar de sua morte ser resultante de disputas locais,  provocou reações imediatas em todo país, inclusive entre os estudantes da Velha  Academia.

Em 7 de agosto daquele ano, foram realizados inúmeros discursos pelos alunos da  Faculdade em protesto à morte de João Pessoa, reunindo cerca de 200 pessoas próximas  ao redor da estátua de José Bonifácio, o Moço, na entrada da Faculdade. Pouco depois,  parte considerável dos estudantes saiu em protesto pelas ruas do Centro, carregando  consigo a bandeira da Faculdade. A reação da polícia foi violenta e diversos estudantes,  muitos deles feridos, procuraram abrigo nas Arcadas. 

Para revidar aos ataques policiais, os alunos invadiram a Sala do Tiro de Guerra da Faculdade, onde eram guardadas armas, como fuzis e baionetas, bem como cartuchos  com balas de festim para treinamento. Por mais que não pudessem ser usadas para o  ataque, os tiros de festim, acompanhados de pedras atiradas por parte dos estudantes,  foram eficientes para garantir que a polícia recuasse, permitindo aos acadêmicos a  retomada de algumas ruas ao redor da Faculdade. No entanto, com a chegada dos reforços  policiais e a cavalaria, os alunos ficaram novamente cercados no prédio da Faculdade,  reiniciando o confronto. 

À época, como a Faculdade pertencia ao governo federal, foi solicitado auxílio  militar pelo Diretor para controlar o conflito e evitar maiores danos às dependências da  Faculdade. Entretanto, ao contrário do esperado, o confronto entre estudantes e policiais  tornou-se ainda mais violento, pois muitos alunos conseguiriam munições verdadeiras  para seus fuzis, o que resultou em alguns mortos e inúmeros feridos, entre estudantes e  policiais. 

Ao final do dia, com o apaziguamento da situação, foi organizada uma reunião  pelo Centro Acadêmico XI de Agosto para deliberar sobre os trágicos acontecimentos daquela tarde. Decidiu-se, então, pela criação de um “território livre” no Largo de São  Francisco, visando permitir, não só aos estudantes, mas à população um local para a  manifestação de ideias sem a censura ou repressão do Estado ou das forças policiais. 

BIBLIOGRAFIA 

[1] Henriques, Affonso. Vargas, o maquiavélico. São Paulo: Palácio do Livro, 1961. 

Cavalcanti, Pedro; Delion, Luciano. São Paulo: A Juventude do Centro. São Paulo: Grifo  Projetos Históricos e Editoriais, 2004. 

Dulles, John W. F. A Faculdade de Direito de São Paulo e a resistência anti-Vargas.  São Paulo: 1984.

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