Na última segunda-feira, dia 24, Robert Allen Zimmerman completou 80 anos. Você talvez o conheça pelo seu outro nome: Bob Dylan. Nascido em Duluth, Minnesota, no seio de uma família judia, Dylan tem uma carreira de mais de 60 anos na qual canalizou como poucos as mudanças sociais e culturais de seus tempos. Misterioso e teatral, Dylan é muitos em um só, e na sua carreira, fatos e lendas se misturam a tal ponto que nem mesmo ele próprio deve saber mais onde um termina e começa o outro.
Como homenagem à data e à carreira deste músico fundamental para a anatomia do pop contemporâneo, farei aqui uma espécie de linha do tempo da sua trajetória musical, passando pelas muitas transformações que Dylan viveu e indicando, para cada fase, uma música que resume bem o momento que o Bardo do Greenwich Village experimentava.
A chegada a Nova York (1961-62)
Bob Dylan só chegou a Nova York com 20 anos de idade, em 1961, mas para todos os efeitos é lá que sua carreira começa. Nascido no interior do estado do Minnesota, numa família de judeus, Dylan apaixonou-se pela música desde cedo e teve no country a sua primeira fixação. Posteriormente, como quase todo adolescente dos anos 1950, caiu de amores pelo rock, que dava seus primeiros passos nos anos 1950, com Elvis Presley, Chuck Berry e Buddy Holly.
No final dos anos 1950, ele vai para a capital do seu estado, Minneapolis, para estudar na Universidade do Minnesota. É lá que ele se apaixona pela música folk, que nessa época vinha sendo redescoberta pela juventude universitária dos EUA e pelos beatniks. Da mesma forma que, no Brasil dos anos 1960, nós temos uma tentativa de alguns artistas mais intelectualizados de se aproximar das raízes da música brasileira, algo muito sintetizado pela redescoberta de Cartola e toda a cena que se estabelece em torno dele no Rio, os jovens universitários e artistas dos EUA enxergavam no folk uma tradução mais fidedigna e pura da voz da América.
Nesse sentido, Woody Guthrie, um folkman lendário, nascido em 1912 e que ao longo dos anos 1930 e 1940 cruzou os EUA, tocando seu violão com a mensagem “Esta arma mata fascistas“, foi redescoberto pela cena artística de Nova York e em torno dele toda uma nova comunidade do folk se estabeleceu, na região do Greenwich Village. Foi para conhecer Guthrie, que em 1961 já estava acometido por uma doença terminal, que Dylan se mudou para Nova York e por lá ficou.

Nessa época, o jovem perambulava pelos bares do Greenwich onde se apresentava quase todas as noites, bem naquela lógica de músico iniciante, vendendo o almoço para pagar a janta. Com o tempo começa a chamar a atenção de críticos musicais e a colaborar em estúdio com outros artistas. Em 1962, consegue descolar um contrato com a Columbia Records, com quem grava seu primeiro álbum.
A música Song for Woody, de 1962, sintetiza bem esse início de carreira, tanto por ser a única gravação autoral de Dylan em seu primeiro álbum, quanto por homenagear Guthrie, seu maior ídolo e maior influência.
Ascensão ao estrelato e o movimento por direitos civis (1963-64)
A chegada de Dylan ao pináculo da música pop se deu num momento de ebulição dos Estados Unidos. O início dos anos 1960 é o período de florescimento da luta do movimento negro pelos direitos civis no país, com as históricas lideranças de Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Muito influenciado pelo espírito politizado da cena folk da época, Dylan participa do movimento e tem esse primeiro momento da sua carreira bastante marcado por composições de tom mais político. Na histórica Marcha de Washington de 1963, na qual o Dr. King proferiu o histórico discurso do “I have a dream”, Dylan estava lá e apresentou a música Only a pawn in their game para os manifestantes no evento, ao lado da rainha do folk e à época, sua namorada, Joan Baez.
Inclusive, uma curiosidade a respeito da cantora e então companheira de Dylan é que ela já cantou no Largo de São Francisco, a convite de Eduardo Suplicy, em sua passagem pelo Brasil nos anos 1980 que terminou em um show proibido pela censura em que Joan cantou Geraldo Vandré com o público a próprios pulmões. Suplicy, que já cantou ele próprio canções de Dylan publicamente, narra emocionado o encontro de Baez com os estudantes ao ar livre nas Arcadas em um pronunciamento feito no Senado em 2010.

Esteticamente, a pegada dessas primeiras composições era a mais folk possível. Violão, gaita e aquela voz rasgada. Só isso bastou para algumas das mais icônicas canções da história nascerem e para levar Dylan ao estrelato também. Em 1963, ele lança seu segundo álbum de estúdio, The Freewheelin’ Bob Dylan, um dos mais icônicos e influentes de sua carreira. Inteiramente constituído de composições próprias, o disco mesclava canções de amor com outras tantas políticas num mix absolutamente arrebatador.
Ao final de 1963, com apenas 22 anos, Bob Dylan era o jovem músico mais influente dos EUA, o maior nome do folk americano e um ícone cultural por si próprio.
Para representar esse momento pivotal da carreira de Dylan, a música escolhida não poderia ser outra que não Blowin’ in the Wind, uma das maiores canções da história da música popular, clássico belíssimo e incontestável, que permanece inspirador até hoje, quase 60 anos após seu lançamento (o nosso querido Suplicy que o diga).
Sexo, drogas e rock and roll (1964-66)
O começo de 1964, nos EUA, é marcado por um dos acontecimentos mais importantes da história da cultura pop: a primeira apresentação dos Beatles deste lado do Atlântico, no programa de auditório de Ed Sullivan. O sucesso arrasador dos garotos de Liverpool na América não apenas ressuscita o à época decadente rock and roll, como também abre as portas para uma nova cultura de massas, feita por e para jovens, refletindo suas paixões, sonhos e atitudes. Se os anos 1960 guardam uma imagem romântica de terem sido a década do poder jovem, da liberação sexual, dos cabelos compridos e das drogas recreativas, muito desse caldo cultural teve início com aquela histórica apresentação dos Beatles.
Ainda que já fosse um dos músicos mais respeitados dos EUA, idolatrado inclusive pelos próprios Beatles, Dylan não passa incólume pelo rolo compressor britânico e se deixa, ele próprio, ser influenciado pela mudança de ares. Aliás, apenas a título de anedota, o primeiro encontro de Dylan com os Beatles, que ocorre em agosto de 1964, marca a primeira vez que o fab four fuma um baseado de maconha, sob influência do próprio Dylan. De qualquer forma, a volta do rock and roll ao centro do cenário pop, faz com que Dylan se aproxime da paixão juvenil e incorpore elementos rockeiros para sua música folk, sendo a guitarra o principal exemplo.
Seu disco de 1965, Bringing it all back home, tinha o lado A “elétrico”, com acompanhamento de guitarra em todas as canções, e o lado B com o folkzão que já era sua marca. O movimento pode parecer hoje natural, mas na época provocou um verdadeiro terremoto. Os fãs mais puristas de Dylan, apegados ao folk tradicional, se sentiram traídos por aquela profanação da música tradicional americana. Numa antológica apresentação do cantor no tradicional festival de Folk de Newport, em 1965, Dylan foi vaiado durante todo o show, e chamado de Judas pela platéia. Sua imagem inabalável no palco, pedindo para a banda tocar mais alto para acompanhá-lo em meio às vaias, cimenta a imagem de Dylan como um poeta de si próprio, um artista sem compromisso com nada e com ninguém.

A música símbolo dessa fase de Bob Dylan é Like a Rolling Stone, outro de seus maiores clássicos e uma das mais influentes canções de rock de todos os tempos. Outra pérola dessa fase, que é pessoalmente a minha predileta, e que eu não poderia deixar de recomendar, é todo o disco Blonde on Blonde, de 1966, uma obra-prima em forma de álbum duplo, repleta de letras enigmáticas e arranjos viajantes e criativos. É o melhor disco de Dylan, no auge de seus poderes criativos e de composição, um daqueles momentos da música em que tudo se encaixa e a História é feita.
Acidente e reclusão (1967-75)
No final de 1966, Bob Dylan sofre um acidente de moto gravíssimo que o deixa entre a vida e a morte, com uma lesão no pescoço. O traumático evento afeta profundamente o Bardo, fazendo-o se isolar em sua casa de campo em Woodstock (sim, a mesma do festival), diminuir o ritmo de produção musical e fazer raríssimas aparições públicas nos anos subsequentes. No ápice de sua carreira e em plena juventude, Dylan vira uma espécie de exilado em sua casa. Isso significa que o músico passa ao largo de toda a efervescência cultural do final dos anos 1960. Para vocês terem uma ideia, reza a lenda que durante o festival de Woodstock, em 1969, Dylan, que morava na vizinhança, teria ficado irado com a quantidade de hippies circulando pela sua propriedade e atrapalhando seu sossego. Nada menos rockstar do que isso, não?
De todo modo, essa reclusão não significa que ele não tenha feito nada de bom no período. Flertando com o Country, ele grava os álbuns John Wesley Harding e Nashville Skyline, em 1967 e 1969, respectivamente. Este último, inclusive, contém a maravilhosa Girl from the North Country, gravada em conjunto com o inigualável Johnny Cash, que fica como recomendação do período.
Entre apresentações esporádicas como no Festival da Ilha de Whight, em 1969, e no Concerto para Bangladesh de George Harrison, em 1971, Dylan lança alguns álbuns irregulares no começo dos anos 1970, pouquíssimo memoráveis, que pareciam levar à indelével conclusão de que a mágica havia se esgotado e nada de bom sairia do Bardo nunca mais.
Retorno triunfal para o último vôo (1975-80)
Quando o mundo menos esperava, Dylan lança em 1975 o disco Blood on the Tracks, uma reaproximação visceral com o folk mais tradicional, do começo da sua carreira, e sucesso absoluto de público e de crítica. Trata-se de um álbum monumental, recheado de clássicos e de composições memoráveis, que dão todo um novo frescor para sua carreira.
Inspirado pelo sucesso do álbum, Dylan inicia em 1976 sua primeira turnê desde o acidente nos anos 60. Chamada de Rolling Thunder Revue, a série de shows tinha uma temática circense e foi pensada como um retorno em grande estilo. O bardo excursionou acompanhado de uma trupe de artistas que incluía gente como Joan Baez, Patti Smith e até o poeta Allen Ginsberg. Sobre a turnê, Martin Scorsese dirigiu em 2019 um excelente documentário para a Netflix, que mistura fatos e lorotas num retrato bastante caótico e delicioso da turnê de retorno de Dylan.

Para sintetizar esse período de sucesso renovado, minha dica é a icônica canção Hurricane, uma obra-prima de protesto de 8 minutos, lançada em 1976, que conta a trágica história de Rubin Carter, o boxeador negro que quase foi campeão mundial mas teve a carreira encurtada por uma condenação injusta por três assassinatos que não cometeu. Carter passaria 15 anos preso, e a canção de Dylan sobre toda a podridão racista e seletividade do sistema de justiça norte-americano ecoa até hoje com uma contemporaneidade dolorosa.
Decadência (Décadas de 1980 e 1990)
Os anos 1980 e 90 não são generosos com Bob Dylan. Como outros artistas da Velha Guarda que passam por uma franca decadência no período (os Rolling Stones, por exemplo), Dylan emenda discos ruins, com shows piores ainda, além de uma série de gafes e parcerias questionáveis que minam e muito a sua imagem e credibilidade.
Não há nada de muito memorável nessa época, mas destaco aqui a bela canção Jokerman, de 1983, que inclusive tem um ótimo cover de Caetano Veloso.
Velhice e consolidação do status de gênio (Década de 2000-presente)
A chegada à terceira idade parece levar Dylan à conclusão, que invariavelmente chegamos, de que tudo tem seu tempo, e uma hora aquele ímpeto de energia da juventude chega ao fim. Ao invés de tentar manter o mesmo ritmo de lançamentos e turnês, com resultados sofríveis, o músico vai gradativamente se retirando de cena e aceitando o status de artista idoso.
Isso não quer dizer que ele tenha deixado de trabalhar. Pelo contrário, Dylan já começa os anos 2000 vencendo um Oscar, pela canção Things Have Changed, composta para o filme Garotos Incríveis. Alternando aventuras literárias (ele lança um livro de memórias), com álbuns mais esporádicos e até mesmo um programa de rádio, Dylan vai lentamente consolidando seu status de lenda perante os olhos da cultura pop do Século XXI. Ele ganha filmes a seu respeito, discos de tributo e recebe a Medalha Presidencial da Liberdade, das mãos de Barack Obama, em 2012.
A honra maior e definitiva chegaria em 2016: O Prêmio Nobel de Literatura, o primeiro concedido a um músico na história. A escolha de Dylan para a láurea foi por ter: “criado novas expressões poéticas na grande tradição do cancioneiro popular americano”. Fiel a seu espírito marrento, o Bardo não foi receber o prêmio alegando que estava ocupado na ocasião. Desfeitas à parte, a láurea de Dylan pelo Nobel consolida seu status não apenas de um grande músico ou poeta, mas de ícone cultural perene, um intérprete da voz da América, que seguirá sendo interpretado para sempre, como um Faulkner ou um Hemingway.
Para simbolizar esse Dylan maduro e já lendário, a melhor pedida é seu álbum mais recente, Rough and Roudy Ways, lançado em 2020, que tem toda a cara de uma despedida. É seu melhor álbum desde os anos 70, possivelmente.

