Relatos Selvagens Franciscanos

Estátuas roubadas, chapas irônicas, passagens secretas, gorilas gigantes, alunos que adivinham futuros presidentes e constituições de salas. As histórias que ficam famosas todos conhecemos; porém, em uma faculdade com tanta gente, é esperado e até estatístico que nem todas as boas histórias recebam a atenção da venenosa mídia franciscana. Seja por falta de oportunidade ou pelo simples prazer discricionário, existem inúmeras histórias que nascem e morrem sem nunca serem compartilhadas com aqueles que não foram por elas agraciados. E é por meio deste texto que venho tentar fazer algum tipo de justiça social. 

A apresentação 

Nós que crescemos vendo filmes somos cinematograficamente anestesiados; achamos que os atores só existem nas telas e nos palcos; em séries e filmes, peças e performances. O fato que muita gente esquece é que os melhores atores não estão na frente das câmeras, e sim nas redes sociais, nos campeonatos de truco e, algumas vezes, entre um certo Largo e a Rua Riachuelo. 

Não é segredo que são várias as situações da faculdade em que gostaríamos de dizer algo que não é totalmente verdade, mas queríamos que fosse. Fez o caso? Já acabou seu TCC? Os calouros gostam mesmo do tanto de mensagem que mandamos nos grupos? Bem, o problema é quando agimos nessa inverdade. Longe de mim ser taxado de sociopata, só estou dizendo que se o Brasil nunca ganhou um Oscar é porque a Academia nunca me viu em uma monitoria de romano. 

O relato selvagem referido titularmente foi contado a mim por dois alunos cujos nomes reais claramente serão omitidos; você, leitor curioso (e um pouco desocupado), pode muito bem tentar descobri-los se estudou na São Francisco nos últimos anos. 

Julia e Mateus trocaram algumas palavras na recepção dos calouros, mas foi no FICA onde conversaram pela primeira vez. Papo vai, papo vem; decidiram fazer uma aposta. Sem prêmios. Por humor. Pela mais bela sensação de fazer uma conexão com um desconhecido em um lugar cheio de desconhecidos. A aposta era simples: beber a maior quantidade de álcool até o fim da festa. Segundo eles, o jogo consistia em atribuir determinados pontos a diferentes tipos de bebidas. Quem tivesse mais pontos ao final da festa ganhava. Não demorou muito para que o jogo se transformasse em uma disputa de quem andava sem tropeçar. No final do divertidíssimo evento, o embate já versava sobre quem seria o primeiro a parar de vomitar. Ninguém conseguiu ver quem venceu. 

Mateus e Júlia acabaram na mesma sala, em grupos de amigos distintos; mas não deixaram de lado a já iniciada amizade. De acordo com os pseudo alcoólatras, a diversão foi tanta na aposta das bebidas que decidiram apostar sobre outras coisas: notas de trabalhos, provas, casos, etc. Porém, dizem que a diversão de verdade começou quando descobriram como apostar em cima de uma apresentação. E é esse o tema da nossa história. 

Para aqueles que não sabem ou simplesmente não ligam, uma apresentação de faculdade consiste em saber sobre qual conteúdo tratar, estudar referido conteúdo e por fim, apresentar. Imagino que todos aqui argumentariam que se tirarmos o segundo passo da equação, a conta não fecha. A aula era de TEB, as apresentações individuais e os ânimos baixos. O panorama era: dois alunos combinaram que não leriam uma palavra da bibliografia ou do caderno para fazerem suas apresentações. O vencedor seria aquele que de fato conseguisse fazer algo “passável” sem ensaiar, lembrando somente das aulas. O

resultado? A maior demonstração de caráter franciscano da história (leia-se cara de pau, falta de noção e muita coragem). 

Nesse dia não dormiram aqueles que estavam com sono e não mexeram no celular aqueles que estavam com tédio. Munida somente do tema da apresentação (Tenentismo e o Direito no Século XX), Júlia, que foi antes do amigo, contou que para adicionar à performance, ainda fingiu que seus slides não estavam funcionando (taí uma dica pra quem quiser). Com um pen drive sem conteúdo jurídico algum na mão, Júlia começou a apresentar. Voz firme, olhar calmo e sorriso latente: combinação somente observada naquelas pessoas prestes a redefinirem os paradigmas jurídicos ou prontas para sacrificarem o histórico de notas por uma boa piada (eu particularmente prefiro o segundo tipo). De José Bonifácio à constituinte de 87, passando pela Revolução Francesa e Miguel Reale, nossa amiga franciscana usou de seu intelecto para tentar fazer toda e qualquer conexão do que sabia com o tenentismo e o direito no século XX. Os olhares do professor não eram clementes. “Pelo menos ele não interrompeu a apresentação ainda” pensava. Os alunos que prestavam atenção tinham certeza que a apresentação estava ótima, afinal, o que não entendo é porque devo ter perdido nas aulas (na faculdade a linha é tênue entre humildade e desespero). Os que começaram a achar que algo estava errado guardaram para si esperando a avaliação professoral: “Bons paralelos, faltaram algumas coisinhas, mas parabéns”. 

Bons paralelos. Bons. Paralelos. Nenhum dos dois conseguiu conter o riso; Júlia desacreditada correu para a cadeira; Mateus descrente sentiu um fio de esperança. Subiu no tablado. Sua apresentação era sobre a Base Jurídica da Formação do Estado Nacional (dividia esse tema com mais duas pessoas, cada uma com sua respectiva apresentação). Mateus era o primeiro. Começou. 

Falando baixo porém firme, Mateus muito prontamente recitou tudo que havia brevemente preparado durante a apresentação anterior. Veio o improviso. De Gilberto Freyre a Bitencourt, de Sérgio a Chico, Mateus achou seu público. Apesar das eventuais cabeças anguladas e olhos espremidos, parecia que a sala estava realmente acreditando no seu lero lero. Aumentou o volume e endireitou a coluna. Deu um sorriso quando olhou as outras duas pessoas com quem compartilhava o tema virando as páginas de seus cadernos quase que de maneira psicopática. Decidiu não abusar da sorte; encerrou a apresentação. Palmas. Quando o professor se levantou da cadeira de onde assistia o espetáculo, esperando um “bons paralelos”, o corpo de Mateus esquentou quando ouviu um nefasto “você poderia repetir o que disse sobre o Ato Adicional”? 

Não sei se você leitor já presenciou um acidente, se a resposta for a afirmativa, lembra do choque inicial de ver aquela coisa acontecendo? É o mais perto que qualquer um chegará da reação de Mateus ao ouvir aquelas palavras. Não lembrava de absolutamente nada do que havia falado nos últimos minutos. Tentou lembrar da aula; sem sucesso. 

-Oi? 

-O Ato Adicional de 34 

Silêncio. Suor. 

-Mateus, repita por favor o que você falou. - Disse em tom mais enfático. “É hoje”, pensou sua amiga escondendo o rosto de vergonha. Esqueceu completamente o que falou de Ato Adicional. O garoto não tinha muitas opções. Podia fingir um ataque. Desmaio talvez. Optou por honrar sua futura profissão. Em uma mistura de omissão, mentira, decepção, surpresa e coragem, decidiu improvisar. 

-Professor, o Ato Adicional de 34… foi… né… na realidade… o que as pessoas… hum… no ano de mil oitocentos (?) e trinta e quatro, decidiram fazer pra efetivamente… é…

adicionarem…, agregarem mesmo né… algo à Constituição que de fato se mostrava vigente na época. 

Respirou. Podia ouvir no meio do silêncio o som da nota dele fugindo. -Sim, sim, mas quero retomar o que você havia falado, sobre quais foram as adições. 

-Professor; queria admitir uma coisa - disse ele estufando o peito. 

Júlia nunca esteve tão dentro de seus próprios pensamentos, para ela o que ocorria na sala já não era mais realidade e sim um filme cujo enredo se desenrolava na sua frente e ela não podia fazer nada. 

-É… queria admitir que eu não respeito o Ato Adicional de 34. Quer dizer, até que ponto nós, na atualidade, podemos realisticamente olhar para trás e propormos discussões sobre uma medida tão horrorosa? Todos aqui sabemos o que fez o Ato. Todos aqui sabemos como o Ato foi essencialmente antidemocrático (rezou até ao Floriano ao dizer isso), a gente não pode e não deve aceitar uma realidade onde versamos sobre um princípio que, radicularmente, é uma ameaça senão a nossa Constituição à nossa própria existência(…) 

Dizem as más línguas que esse discurso durou ainda mais uns trinta segundos. Ao final, Mateus teria ganho a aposta com sua amiga, que deu a ele a vitória pela vergonha passada. Mas não somente isso. Esse episódio, relatado aqui pela primeira vez em meios oficiais, foi escolhido não ao acaso. A história de Mateus honra, ultimamente, todos aqueles que desgostam de apresentações universitárias. Dá esperança a todos aqueles que, sem tempo, não conseguem fazer uma apresentação com qualidade que atenda aos nossos próprios padrões. Depois desse dia, é fato que Mateus cravou seu nome em dois lugares, um mais importante que o outro: ao lado da palavra “inspiração” no imaginário coletivo de todos daquela sala; e, infelizmente, ao lado de um grandissíssimo zero nas anotações do professor de TEB.

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