Robert tem estado um tanto deprimido. Levanta. Senta. De volta ao trabalho. Ele canta músicas autorais sozinho em seu estúdio caseiro, escreve algumas piadas e encara a lente crítica e persecutória de sua câmera. O pulsar do LED vermelho. REC. Opressão sistematizada, abismal desigualdade de renda e “as outras coisas”. O poder indescritível da sua comédia pode, ao mesmo tempo, remunerá-lo, torná-lo centro das atenções e curar as mazelas do mundo? Deus, ajude-o a canalizar o poder de Sandra Bullock em Um Sonho Possível (The Blind Side)!
Robert Pickering “Bo” Burnham faz seu retorno apoteótico no novo especial da Netflix, Bo Burnham: Inside, escrito, dirigido, gravado e editado por ele mesmo em um pequeno cômodo onde passou a maior parte da quarentena. Todo o especial se passa em um pequeno espaço físico que, nos dias de hoje, equivale a uma infinidade de ambientes digitais, lá ele encontra parentes em chamadas de vídeo, se exercita, trabalha em seu projeto audiovisual, faz sexo por mensagem de texto e se despedaça em lágrimas ao refletir sobre o inexorável estado de sua sanidade mental.
Bo nasceu em 1990 e testemunhou o advento da internet e das redes sociais. Sua geração é talvez a última que experimentou a infância ‘offline’. Ele atingiu notoriedade através de vídeos musicais no YouTube em meados de 2006 e a partir daí teve uma carreira notável, que inclui: grandes shows ao vivo, participações em programas de TV, o sucesso de crítica de Oitava Série (Eighth Grade), seu filme autoral, e o recente convite para interpretar Larry Bird em uma série da HBO sobre os Los Angeles Lakers.
Sua posição na indústria do entretenimento e sua capacidade de autorreflexão se coadunam para trazer uma perspectiva interessante sobre o efeito da cultura da internet na juventude. Uma ideia recorrente em suas obras, e que recebe significativo tempo de tela nessa obra em particular, diz respeito ao fato de que permitir que grandes empresas de mídias digitais explorem o “drama neuroquímico” da adolescência para o lucro de meia dúzia de “salamandras com os olhos esbugalhados” do Vale do Silício talvez não seja a mais brilhante das decisões que tomamos enquanto sociedade organizada.
O especial em si possui um forte ânimo metalinguístico, ele é uma crítica ácida ao achatamento da experiência subjetiva humana provocado pelo advento e subsequente sobreposição abrupta do cosmos digital sobre o físico ao mesmo tempo que sua própria exibição não seria possível sem aquele. Em alguns momentos durante o especial, Bo até se utiliza de formatos típicos da internet para expressar suas ideias: o vídeo ‘react’, o ‘gameplay’ comentado ao vivo, etc. A internet é nociva na mesma medida que é empoderadora.
Um traço bem distintivo de Bo é o fato dele ser um artista bastante autoconsciente. Logo na primeira música vemos uma abordagem bastante irônica a respeito do papel da comédia na contemporaneidade. Fica bem clara a pretensão de Bo com seu especial, ou melhor dizendo, a ausência de uma grande pretensão. Não, sua comédia não curará o mundo nem trará fim à luta de classes, Bo e Socko, seu fantoche de meia, tem plena consciência disso, ela não provocará uma “mudança literal metaforicamente”. Sua comédia, tal qual o humor típico do pós-modernismo, não tem grande vocação política para promover uma mudança social efetiva, ela põe em xeque o próprio conceito da busca por significado na arte. No fim das contas o artista afaga a si mesmo, produz para si mesmo e o resultado é provocante, intimista e singular.

