XI de Agosto. A cada ano, nessa data, todo franciscano pode comer e beber de graça durante o Pendura, celebrando o aniversário da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Tratando-se de comida, contudo, não é apenas proveito que os estudantes da Gloriosa tiram do assunto. Vejamos, então, como a Velha Academia também inovou e fez importantes contribuições para a culinária brasileira durante o século XX.
Até mesmo a célebre Peruada pode ter tido um início gastronômico. Ainda que a festa conte com várias lendas sobre sua criação, uma das principais e mais famosas é o chamado “roubo dos perus”. Os que defendem essa tese dizem que, em 1948, alguns alunos, que faziam parte do Centro Acadêmico XI de Agosto, que na época era presidido por Rogê Ferreira, teriam furtado nove perus. Organizados, os franciscanos foram até Perdizes, onde acontecia a Exposição Nacional de Animais do Parque da Água Branca, e tomaram posse das aves.
Para o infortúnio dos estudantes, os animais começaram a fazer barulho, chamando a atenção dos presentes. Nessa situação, foi necessária uma fuga, com correria e ainda mais gritos dos perus. Durante a confusão, alguns seguranças da feira tentaram capturar os alunos, que conseguiram escapar – com os perus!
De volta ao porão, e com o furto consumado, foi preparada uma grande refeição com as aves – de raça e premiadas – que foram assadas e partilhadas entre os estudantes. Há quem diga, ainda, que os animais pertenciam a um professor da própria faculdade, Mário Marzagão, que teria ficado incrédulo com toda a situação.
Porém, nem só de banquetes vive a São Francisco! Um dos lanches mais tradicionais dos paulistas também teve suas origens nas Arcadas, ou melhor, perto delas, no bar Ponto Chic. Um dos muitos clientes franciscanos do estabelecimento era Casimiro Pinto Neto. Nascido em Bauru, São Paulo, Casimiro era uma figura conhecida na Facvldade e recebeu como apelido o nome de sua cidade natal.
Em uma noite de 1934, Bauru entrou no Ponto Chic e começou a contar aos amigos sobre alimentação e saúde, assuntos lidos recentemente por ele. Entre uma cerveja e outra, discorreu sobre nutrientes e vitaminas, até que teve a ideia de pedir algo para comer – obviamente, algo balanceado, colocando em prática seus novos conhecimentos. Chamou o chapeiro e pediu seu sanduíche, com pão, rosbife, queijo e tomate.
Depois de pronto – e dos longos e animados discursos de Bauru sobre as propriedades nutricionais da sua comida – a curiosidade tomou conta dos estudantes à mesa, e eles pediram mais um lanche, depois outro, e mais outro. O sucesso foi tanto que, dali em diante, pedidos de sanduíches “iguais ao do Bauru” passaram a ser frequentes. Com o tempo, todos já conheciam a iguaria simplesmente por Bauru, que caiu no gosto do povo. Assim, nasceu uma tradição de São Paulo, que, com o passar dos anos, já sofreu alterações na receita original, de acordo com os locais e clientes, chegando até a ser exportada para outros estados do Brasil, nem sempre levando o apelido de seu criador.
E como poderia a gloriosa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco terminar sua pequena lista de tradições culinárias sem uma sobremesa? Pois então a turma do centenário da Academia trouxe um novo sabor a uma comemoração já antiga.
Era comum a presença de franciscanos nos aniversários da sociedade paulistana. E foi em uma dessas celebrações, em 1923, que os convidados tiveram que esperar um pouco mais do que o normal para cortar o bolo. Naquela ocasião, os alunos presentes resolveram cantar um bordão de uma sociedade criada recentemente na São Francisco, que se chamava – por mais alegórico que pareça – Pudim.
O grito começava com uma homenagem a um dos fundadores do Pudim, Ubirajara Martins, o “pique-pique”, que foi apelido assim por causa da sua mania de aparar os bigodes com uma tesourinha, que fazia esse som. Depois, vinha o “meia hora, meia hora”, frase comum nos bares ao redor do largo, que faz referência ao tempo que os estudantes tinham que esperar para que as bebidas gelassem. Por último, ficou uma menção a um visitante da Índia que havia passado pelas Arcadas algum tempo antes, um rajá com um nome que despertou o bom humor dos alunos, algo sonoramente parecido com “Timbum”.
Hoje, não existe bolo de aniversário que se coma sem que o “é pique, é pique, é pique, é hora, é hora, é hora, rá-tim-bum” seja cantado antes de assoprar as velinhas.

