Há algum tempo, o Copan está dividindo com o Aquário Urbano as atenções dos turistas que passeiam pelo centro da cidade de São Paulo. Se antes quem passava por lá só olhava para cima para ver o gigante cinza, hoje, as cores do grafite dominam a paisagem urbana.
O produtor cultural Kleber Pagu em parceria com o artista Felipe Yung, Flip, são os idealizadores da obra que pretende entrar para o Guinness como recorde de maior mural do mundo. Com 10 mil metros quadrados nas empenas de 15 prédios, em 360º, as esquinas da Rua Major Sertório com a Bento Freitas passaram a acolher o Aquário Urbano, que será a maior obra de arte a céu aberto de uma cidade, em meio a ícones da arquitetura modernista.

Origens da expressão artística
A prática chamada de grafite, que consiste em fazer marcas e desenhos nas paredes dos muros, tem origens no Império Romano, sendo que o nome graffiti vem do italiano. Apesar disso, foi somente nos anos 70, que esta prática ganhou popularidade e destaque, no Bronx, bairro de população em maior parte negra, em Nova York. Nos anos que se passaram, as metrópoles do mundo acompanharam um crescimento exponencial desta forma de expressão cultural.
Foi por meio do grafite que as pessoas começaram a se comunicar com a cidade registrando sua insatisfação com as desigualdades sociais e com o preconceito. Essa manifestação artística permitiu que os artistas tivessem uma linguagem própria e universal para se expressarem, ocupando os muros das cidades. Temas como violência, paz, amor, desigualdades sociais e crítica a governantes estão presentes nas paredes das grandes metrópoles.
Infelizmente, ainda há quem diga que expressões como essa seriam vandalismo. Mas para Kleber Pagu, em entrevista dada a TraceTrends, uma obra artística como essa causa mudança na relação da pessoas com a cidade, a partir de um projeto de artístico que é público. Para saber mais sobre o projeto, confira aqui.
Ocupação de paredes desocupadas
A maioria dos proprietários ficou felizes com a manutenção e com as cores despejadas em suas empenas. Entretanto, a proprietária do edifício Renata Sampaio Ferreira, projetado por Oswald Bratke e construído em 1956, entrou com uma ação judicial solicitando o pagamento de multa e a prisão de Pagu, que chegou a receber voz de prisão em flagrante por estar pintando sem autorização. A polêmica ocorreu, dentre outros motivos pois, o imóvel foi tombado em 2012.
Pagu disse, em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em novembro do ano passado, que “É uma ocupação artística, se dependesse de autorização, não seria uma ocupação artística.” Considerando que a empena do edifício estava em estado de degradação, as tintas na verdade ajudaram a valorizar o imóvel. Mais do que um ato artístico, trata-se de um ato político de ocupação. O Aquário Urbano tem como objetivos além de trazer vida para a cidade cinza de São Paulo, despertar a consciência ambiental em que passa por lá.
De acordo com Flip, o Polvo demorou 2 meses para ser pintado, sendo que cada prédio tem uma dificuldade técnica particular. A obra é dinâmica, uma pintura que um dia está lá, no outro pode não estar mais. E foi nesse sentido que, em fevereiro de 2020, a Justiça decretou o apagamento de grafite na maior intervenção de arte urbana do mundo, no processo de nº 1117323-39.2019.8.26.0100.
A Juíza afirmou que: “A conduta enquadra-se no disposto no art.65, §2º, da Lei9.605/98: ‘Art. 65. Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumentourbano: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. § 2º Não constituicrime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística,desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.’” (para conferir a sentença na íntegra, acesse o campo Consulta Processual no site do Tribunal de Justiça de São Paulo pelo Link). Apesar da decisão negativa, a importância de trazer ocupações artísticas para os vazios da cidade continua viva.

E se o Aquário Urbano fosse um quadro no Museu?
Ainda existe um grande preconceito com a arte de rua. Principalmente com artistas que, apesar de serem reconhecidos e consagrados em seu meio, não o são na grande mídia. Será que uma obra como essa em um Museu teria levantado tanta polêmica? Será que se o artista fosse um ícone global, os donos do edifício teriam se importado tanto a ponto de levar o caso para a Justiça? Será que se o grafite fosse do filho de um artista renomado, este problema teria existido?
Imagina-se que não. O preconceito com a arte urbana está relacionado não só com o desrespeito que as pessoas infelizmente ainda tem com a arte mais popular, considerando-a hierarquicamente menor, mas também com o preconceito com artistas que não necessariamente cursaram uma academia elitizada de arte clássica para começar a produzir. A rua ensinou e isso é suficiente para a produção de grandes grafites, apesar de muitos acharem o contrário. O preconceito racial também está presente, tendo em vista que esta nova forma de manifestação artística recebeu destaque no Bronx, bairro de população em sua maioria negra.
Um exemplo claro desses preconceitos foi o apagamento dos muros da Avenida 23 de Maio, que apesar de ter recebido muitas críticas, recebeu apoio de uma parcela considerável da população de São Paulo. Ainda hoje, existe a ideia ultrapassada de que o lugar de arte é no Museu e não espalhada pelas ruas da cidade.
Apesar das críticas, a arte urbana sobrevive. A força do Aquário Urbano é não ser um quadro no Museu. É ser democrático, para todas as pessoas. Ninguém precisa comprar ingresso, nem enfrentar horas de fila no Museu no dia em que o ingresso é gratuito, se é que existe esta possibilidade. Mais uma vez, a escolha do lugar da obra foi política.
Arte e Tecnologia
O mural é um reflexo da carreira de 28 anos do artista plástico Flip, de acordo com Pagu. A inspiração nas águas vivas está relacionada com o fato delas serem um indicador de desequilíbrio nos mares, quando elas surgem em abundância, é sinal de que algo está errado. A junção da arte com a tecnologia também é uma novidade neste mural.
Foi disponibilizado um aplicativo de realidade virtual com algumas opções: a revista que conta sobre o projeto do Aquário Urbano; e a trilha, que permite uma imersão total de qualquer parte do mundo. A sensação de imersão é de realmente estar no fundo do mar e o aplicativo com o óculos de realidade virtual permite que as pessoas presenciem o encontro das águas e a mistura dos seres do mar com os seres do rio. Uma esquina da cidade que não era tão movimentada, agora recebe maior atenção das pessoas que lá circulam. Enquanto ainda não é possível passear pelas ruas de SP, podemos baixar o aplicativo do Aquário Urbano pelo site.
Mas não é necessário ter um celular para e sentir no meio do Aquário. A arte estampada nas paredes dos prédios é acessível e democrática, não cobra ingresso, e permite que todos que passem por lá a apreciem. Ocupar é um ato político e nada mais político do que levar arte para rua.
