Reflexões sobre os prédios não espelhados
Arquitetura plural como a cidade nos traz um pouco de sua história, aspirações, ambições e a concretização de um projeto de longa data. Os edifícios têm a potencialidade de se tornarem marcos no mapa e na história, ditando um ritmo de desenvolvimento e estilo de vida. Nessa primeira análise arquitetônica da urbana São Paulo, vemos dois capitalismos em contraste: o Mercado Municipal e o Conjunto Nacional.
A cidade de São Paulo é uma capital de pluralidades e de incoerências. É possível aprender sobre sua história até mesmo simplesmente andando por suas ruas largas e estreitas. Olhando os mais diversos edifícios se entende como a verticalidade está em todos os aspectos, seja o da construção urbana, seja na construção da sociedade. São Paulo se reflete nos muros opacos, velhos, revitalizados e espelhados, está em tudo.
A arquitetura que ergue São Paulo não escapa desse dualismo, diversidade e contradição. Os prédios luxuosos fazem sombra à miséria que caminha pelas ruas. A linha tênue que divide e demarca a segregação e a posse é por vezes a de um fino muro. A cidade se construiu em cima de muros. A proposta de hoje é olhar para algumas dessas construções, que marcam a cidade em sua beleza e conteúdo.
A arquitetura tem um potencial latente de esclarecimentos e descobertas. Vemos as influências importadas nos prédios, a preservação do passado histórico, expresso nos traços europeus de tantos edifícios que fazem parte de nossa cultura e tradição. Vê-se a modernidade que se inaugura em bairros inteiros de arranha-céus, ruas extensas e largas e promessas de mobilidade. A mudança dos edifícios, a reconfiguração arquitetônica, produz um híbrido de passado e presente. Mais ainda, essa fisionomia da cidade traz uma narrativa, ela verbaliza intenções, propostas. Ela chama alguns e expulsa outros, dentro de um amplo projeto. É essa comunicação silenciosa, mas gritante, das ruas e casas que nos ajuda a entender a dinâmica paulistana um pouco mais.
O distanciamento social também nos distancia de possíveis visitas a esses lugares interessantes e enriquecedores, mas não nos impede totalmente de saber um pouco mais sobre eles e sobre o que querem dizer.
Mercado Municipal de São Paulo, o Mercadão
O Mercado Público localizado no Centro Histórico foi inaugurado no dia 25 de janeiro de 1933, data de aniversário da cidade. O engenheiro responsável por ele foi o mesmo que projetou também o Teatro Municipal e a Pinacoteca do Estado, o que talvez seja o motivo para as tantas semelhanças estruturais desses prédios.
Este espaço dedicado ao comércio em atacado e varejo de diversos gêneros alimentícios teve como sua primeira função o armazenamento de pólvora e munições. Ele é dividido em mais de 290 boxes de comercialização de produtos. Em 2004, teve uma reforma que inseriu o mezanino e promoveu melhor locomoção e acessibilidade interna.

O edifício foi feito em concreto e alvenaria de tijolos. Seu modelo foi inspirado no Mercado Central de Berlim, e sua planta modulada foi realizada na Alemanha. A influência germânica também se manifesta em algumas paredes internas que são revestidas até a metade por azulejos oriundos da Bélgica e da Alemanha.

Os módulos externos, as torres, apresentam um arco com o Brasão de Armas do Município de São Paulo, é abobadado e traz uma fachada sóbria, consonante com os ares da urbanização incidente, numa época onde a maioria dos Mercados eram feitos em construções abertas. A fachada é feita em módulos, tem estilo eclético, com traços do neoclássico e gótico. A iluminação é natural, vindo das clarabóias e dos mais de 55 vitrais que enchem o espaço de cores vivas e diversas como as dos produtos que lá são vendidos. Os vitrais mostram cenas diversas relacionadas à produção de alimentos e foram feitos por Conrado Sorgenitcht Filho, mesmo que confeccionou os vitrais da Catedral da Sé.

A localização do Mercado é estratégica, pensada para ser próxima ao encontro de ferrovias e bondes da época. Sua construção grandiosa também teria a função de consolidar a imagem de São Paulo como a capital do café, o que evidencia sua função simbólica e justifica em parte suas pretensões de imponência e funcionalidade. Além disso, é inegável o caráter comunitário de um Mercado Municipal, a enorme concentração de pessoas, que traz dinâmica e vivacidade à cidade.
Conjunto Nacional
O edifício foi inaugurado em 1956 na Av. Paulista. Junto com ele, inaugurou-se também uma nova era de modernidade arquitetônica e multifuncional típica da São Paulo insurgente. A avenida ainda era predominantemente residencial no momento do início de sua construção, em 1952, e a proposta original era um empreendimento comercial junto de um Hotel. A Prefeitura, no entanto, não autorizou o Hotel e as devidas modificações tiveram de ser feitas.

O complexo reúne as funções de uso residencial, comercial, de lazer e serviços. Em sua ala horizontal, se encontram as galerias comerciais de circulação pública; a ala vertical abriga os apartamentos privados. A área central tem 4 portas, uma para cada rua que compõe a quadra onde se localiza o edifício: Av. Paulista, Rua Augusta, Alameda Santos e Rua Padre João Manuel.
Sua arquitetura foi paradigmática para a construção de edifícios posteriores. A proposta audaciosa de construir uma cidade dentro da cidade acabou por ditar o ritmo da verticalização da avenida e da cidade como um todo, marcando a transição da região de um quintal dos barões de café, para um dos principais centros financeiros do país. Foi um novo cartão postal que anunciava os novos tempos e a modernidade.

O relógio no topo, que marca as horas e a temperatura se tornou um marco em São Paulo. Além disso, como espaço publicitário, já passou pelas mãos de diversas empresas privadas pelo seu desejável raio de alcance e visibilidade, como a Ford Brasil e o Banco Itaú, por exemplo. Deixou de ser espaço de propaganda em 2007, pela Lei Cidade Limpa. Preservou-se o relógio, apenas.

O Conjunto Nacional é considerado o primeiro shopping center da América Latina, mais um item para sua lista de representação de marcos. O edifício reflete a dinamicidade da cidade e de seus habitantes, é um projeto ambicioso, e São Paulo respira ambição. É um projeto audacioso, e que deu certo. Trouxe a tão aclamada inovação e foi ponto de partida para uma longa corrida de adaptação a um novo modelo de centros comerciais paulistanos. Ademais, foi elemento essencial à coroação da Avenida Paulista como epicentro dessa nova São Paulo.
Em suma, é evidente a capacidade inaugural desses e de tantos edifícios e de sua influência direta na consolidação do estilo de vida daqueles que ali frequentam. O Mercadão traz a popularidade encantadora e acessível, necessária a qualquer lugar que se preste a ser central, traz a entrada de luz tanto quanto tem as portas abertas ao barulho e as necessidades das gentes. O Conjunto Nacional se projeta a ser multifuncional e grandioso, desde o estabelecimento de suas paredes, até à instalação de um enorme relógio em seu topo, ditando um novo tempo e um novo clima para uma cidade inteira.
