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Outubro é o mês do terror, do “Halloween”, das almas e de todos os santos. Mês de trazer à tona os mitos e medos que fazem de um povo algo mais humano - ou desumano. Mas o que esta data de nomes e contornos importados representa, hoje e aqui, além de uma desculpa para noites de filmes de terror e festas à fantasia? Onde está esse horror para nós, paulistanos? Para encontrá-lo, não é preciso acender velas, vestir-se de Drácula ou ameaçar travessuras. Basta uma parada de metrô: “Próxima estação: Japão-Liberdade.”

“Halloween”, todos os santos e os esquecidos

Diferente do Natal, que trouxe velhinhos em trajes polares para os trópicos brasileiros e junto deles engradados de Coca-Cola, o Halloween parece não ter deslanchado da mesma maneira no país. Por trás de uma decisão consciente por parte dos grandes publicitários e empresários paulistanos de não transformar o mês de outubro em mais uma grande paródia comercial que se beneficia da exploração de fatos e ficções aterrorizantes, caberiam várias teorias, dentre elas a de que o horror, na realidade, é tamanho que nada se vê, nada se ouve e nada se conta. Afinal, por trás de cada conto de terror existe um contexto ou vidas em contexto, que melhor ficarem esquecidas ou, não havendo outro modo, renegadas a livros escolares, cujo conteúdo se molda, programa e planeja.

Dizem que a História quem conta são os vencedores e a História Brasileira, repleta de horrores que colocariam Edgar Allan Poe no primeiro navio de volta à gringa, é objeto do mais atento controle por parte daqueles que mais têm e temem a perder. No Brasil, não houve vencedores, mas acabam perdendo todo país e toda a sua população com cada indivíduo que é esquecido e com cada trajetória apagada pelo bem maior de um passado higienizado.

 Isso sim pode ser chamado de horror: um povo impedido de reconhecer seu próprio reflexo; impedido de conhecer sua própria história; acuado a borrões de sangue ao invés de terem a dignidade da liberdade de um nome e de um rosto.

Imagem: Antonio Marcos Rudolf e Master VB, Blasting News
Antonio Marcos Rudolf e Master VB, Blasting News

Forca, Aflitos e Liberdade: “um dos lugares mais assombrados de São Paulo”

Para melhor compreender todo esse horror, fomos a um dos “lugares mais assombrados de São Paulo”, de acordo com blogs e canais do Youtube: a Capela dos Aflitos, localizada no atual bairro da Liberdade.

“Te convido a fechar os olhos, ficar em silêncio e imaginar:

 

Você, um ser excluído da sociedade e condenado à pena de morte, andando pelas ruas provincianas da periferia de São Paulo; dando seus últimos passos trêmulos a caminho da forca… Seus joelhos se dobram e os guardas te arrastam pelo chão, enquanto pessoas desconhecidas gritam, lamentando sua má sorte; outras desejam sua morte… A corda envolve o seu pescoço, frouxa, mas pesada… Ainda não é ela que te sustenta, mas você que a carrega… Até que de repente… Um empurrão! Um mergulho no nada! E o último suspiro nem chega a ser dado, pois a corda agora asfixia sua respiração e suas mãos amarradas não conseguem aliviar o seu próprio sufocamento… seus olhos esbugalhados de sangue e desespero não podem se despedir da sua mãe, que chora ao pé do patíbulo, pois um capuz foi enfiado sobre a sua cabeça… Tudo muito rápido… O tranco do empurrão somado ao peso do corpo quebram seu pescoço; os pés num último reflexo fazem movimentos nervosos buscando o chão; por fim, tudo parece se apagar e silenciar com o balançar daquilo que antes era a sua existência… como se fosse apenas o vento que o levasse de um lado para outro, de um lado para outro…

 

Não é aterrorizante? “

 

Esse foi o convite proposto por Eliz Alves, integrante e fundadora do Coletivo UNAMCA - União dos Amigos da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, para situar-nos do que ocorria nessa região em outros tempos e daquilo que deu início não apenas aos rumores de assombração e almas penadas que frequentariam o local, mas que compõe a própria origem histórica do bairro e da cidade de São Paulo.

Na década de 1770, foi construído o Cemitério Geral ou dos Aflitos que, ao contrário de cemitérios acoplados às igrejas e ocupados por mortos endinheirados, era dedicado aos excluídos e aos indesejados, como os indígenas, os pobres, os acometidos por doenças infectocontagiosas vindos da Santa Casa da Misericórdia e, principal e majoritariamente, as pessoas de origens africanas escravizadas e condenadas à morte por forca. Forca esta, aliás, que ficava apenas a alguns metros de distância, no que hoje se conhece como Praça da Liberdade e antes, como Largo da Forca, local para o qual eram levados os condenados à morte após torturas e castigos no Pelourinho, ou atual Largo Sete de Setembro, mais especificamente no terreno do atual Fórum João Mendes. Era um caminho dantesco, de mão única para o inferno, que se iniciava com os capitães-do-mato, passando pela Justiça e se encerrando nas mãos do carrasco e no esquecimento das valas do cemitério popular.

Apenas alguns anos após a construção do cemitério é que a capela foi erguida em homenagem à Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, uma possível dedicatória ao sofrimento, agonia e temores dos muitos que eram condenados à morte e padeciam no local. Porém, nenhuma outra história foi mais marcante e simbólica à vida da Capela e da região quanto a de Chaguinhas, o Cabo Francisco José das Chagas, cuja lenda e voz ainda ressoam, apesar de tudo.

Chaguinhas: preso político, santo milagroso e morto qualquer

Parte do movimento pela independência ocorrido nos anos 1800, a Revolta Nativista lutava por causas que, não fosse o contexto histórico-político da época, poderiam ser levantadas nos dias atuais: melhores condições de trabalho. Afinal, há 5 anos os soldados não recebiam do governo português o soldo que lhes era devido. O ano era 1821, apenas a alguns meses da oficial declaração de independência e contemporâneo de diversos outros conflitos, rebeliões e revoltas espalhados pelo Brasil que escancaravam as relações desiguais entre colonizados e colonizadores. Nesse clima de inquietação, não tardou para que a punição aos líderes capturados da Nativista, Chaguinhas e Cotindiba,  fosse apresentada como mais uma demonstração brutal de poder que pudesse servir de exemplo.

Tanto Chaguinhas, quanto Cotindiba eram, portanto, presos políticos, silenciados e ressignificados desde a sua prisão pelos representantes da Coroa portuguesa.

Porém, o mais chocante da narrativa do Cabo Chagas tem início no que deveriam ter sido seus últimos instantes de vida. Seguindo o ritual macabro da época, os prisioneiros foram levados à forca, onde Cotindiba logo sucumbiu, diante do amontoado de espectadores reunidos no Largo. Chega a vez de Chaguinhas e seu corpo extraordinariamente vence a corda, que se rende, lançando-o ao chão, vivo. Um milagre, diziam, ao que, pelos costumes da época, o acusado poderia receber o perdão da lei e ter sua sentença suspensa por ordem imperial.

Apesar da comoção popular, seu induto é negado e, mais uma vez, Chaguinhas é levado a encarar a morte cara a cara. Outra corda é colocada ao redor do seu pescoço e, bastou o carrasco empurrá-lo, para que novamente ele se visse no chão, milagrosamente vivo. “Liberdade!!! Liberdade!!!”, ecoavam os gritos por misericórdia e clemência dos populares aglomerados ao redor da forca.

Quão vazia de significado é possível ser uma palavra? Não importa o quão forte e numerosos fossem os gritos, eles seguiam sendo insuficientes para o perdão, como costuma ser em condenações que se apropriam da máquina punitivista do Estado para fins políticos. Voltava o emissário com a negativa das autoridades judiciais e, de novo, Chaguinhas é enforcado, desta vez por uma corda de couro.

Parecia ser seu destino não padecer ao enforcamento e à estrangulação para que sua voz pudesse seguir viva, pois de novo a corda se rompe, mas, dessa vez, decidem aplicar-lhe a pena à qualquer custo. Sob os ecos de liberdade que ainda persistiam à violência dos exterminadores, o último suspiro de vida é retirado de Chaguinhas.

Ao fim, o Cabo foi mais um corpo levado ao Cemitério dos Aflitos. Porém, apesar do enterro como indigente qualquer, já era tarde para um Brasil totalmente colonizado ou para um bairro em que não ressoassem a resistência do existir de Chaguinhas e os gritos pela sua liberdade. Falharam também ao calar o que Chaguinhas, Cotindiba e todos os movimentos pela independência e pela liberdade lembraram que o povo brasileiro era digno de ser: livre.  Nascia, com isso, o Bairro da Liberdade.  As preces pela alma do Santo Popular Chaguinhas nunca cessaram e anos depois foi erguida a Capela de Santa Cruz dos Enforcados, dedicada à sua devoção e a tudo aquilo que ele simbolizava. Décadas mais tarde,  a escravidão foi legalmente abolida e junto dela as forcas e os pelourinhos. A cidade se enriqueceu, prosperou e atraiu migrantes dos mais diversos lugares, muitos dos quais se instalaram no próprio bairro da Liberdade. Ao invés da capital das punições colonialistas, surgia uma “nova” cidade onde múltiplas convivências encontravam liberdade para prosperar…

Ou pelo menos foi esta a narrativa contada pelos dirigentes e elites desde então, como se a história ensinada nos canais tradicionais fosse uma “Matrix” racista e higienista tirada de uma ficção científica hitchcockiana.

O Horror: o negacionismo e o sufocamento como negócios

Que o bairro da Glória era o “espaço maldito da cidade” (SEVCENKO, 2004) por incluir em suas atrações da época o Morro da Forca e o Cemitério dos Aflitos, além de ter como localidades próximas a prisão e o pelourinho municipais, não era segredo algum. Aliás, há anos que os governadores paulistanos tinham dificuldade em enfrentar a resistência aos poderes locais por parte das movimentações que ocorriam na região, fossem os rituais religiosos afro-brasileiros, fosse a própria preservação da lenda de Chaguinhas. Com o crescimento da população paulistana e com a pressão para a exploração comercial dos terrenos da região central, as autoridades encontraram motivações para dar início ao processo de apagamento e sufocamento da memória da região.

Em 1858, o Cemitério dos Aflitos foi desativado e loteado e o mesmo fim teve o Morro da Forca. Quanto à Capela de Santa Cruz dos Enforcados, por diversas vezes seu terreno foi desapropriado, ao que a população respondia com uma nova construção para sediar o local de oração. De tanto que atraía multidões de fiéis, a capela foi sendo expandida até uma reforma final em 1891 transformá-la finalmente em Igreja. As autoridades políticas e religiosas, por sua vez, pareceram se satisfazer com os seus esforços no sentido de vincular a Igreja antes à celebração da figura histórica há tempos falecida de Chaguinhas do que ao culto de tradições afro-brasileiras.

Desde o momento em que o Brasil passava a se entender como Brasil, já havia uma real vontade de suprimir uma história em prol de outra mais benéfica a determinados grupos dominantes. Tanto o é que ao longo do crescimento urbanístico de São Paulo e do seu centro, pouco foi feito a respeito dos restos mortais que antes recebiam suas preces no Cemitério dos Aflitos. O plano proposto quando do loteamento e leilão do seu terreno era que os corpos fossem transferidos para o Cemitério da Consolação, porém tal condição jamais chegou a ser honrada. Não fazia parte dos interesses à época e não faz parte dos interesses econômicos de hoje que o passado seja, literalmente, desenterrado e que conclame aquilo que um dia lhes foi negado. 

O ano de 2018 foi especialmente aterrorizante nesse sentido. Quase 100 anos depois do assassinato de Chaguinhas, dois eventos marcaram a memória do bairro da Liberdade não por suas grandes e louvosas conquistas, mas pelo apagamento histórico que se propunham a realizar. O primeiro envolveu a demolição do terreno ao lado da Capela dos Aflitos, o que colocou em risco a sua própria estrutura, além de provocar diversos incômodos aos seus frequentadores e ameaçar ainda mais a existência da capela que hoje se vê sufocada pela cidade, no meio de diversos prédios e estabelecimentos comerciais. O outro evento marcante foi o da mudança de nome da estação de metrô de “Liberdade” para “Japão-Liberdade”, tendo sido feito o mesmo com a nomenclatura da Praça. A deliberada identificação do bairro a um único contingente migratório significa a diminuição de todas as outras narrativas não representadas, ou propositalmente apagadas. Mais uma vez, a história era contada por agentes econômicos e políticos interessados na “superação” do antigo bairro da Glória e no apagamento das histórias trágicas que lá foram encerradas ou perpetuadas.

Percebe-se, por outro lado, que por trás do horror sobrevive também a resistência. Afinal, a história dessa periferia paulistana e de Chaguinhas ainda é contada por Eliz e por outros ativistas. Na mesma série de acontecimentos de 2018, houve também uma vitória acidental. Quando demoliram o terreno colado ao da Capela, encontraram ossadas do que um dia havia sido o Cemitério dos Aflitos e que relembraram forçosamente a cidade do seu passado. Junto da descoberta, teve início o Movimento pelo Memorial dos Aflitos que centralizou as ações pela recuperação dessa memória e que neste ano de 2020, apesar de todos os pesares, lograram uma importante conquista: o decreto do território vizinho à Capela como sendo de utilidade pública. É nele que será construído o Memorial dos Aflitos: “um dos passos para que ocorra a reparação ao apagamento sistemático e secular da nossa história”, nas palavras da Eliz, porque o terror mesmo, não são vozes ouvidas no meio da madrugada ou sombras percebidas pelos cantos dos olhos. O terror é aquele que é sentido na pele e pelos demais sentidos e que o medo personifica. Cabe aqui uma última e pertinente citação de Eliz Alves:

Terror era assistir a degradação deste Patrimônio Histórico tão valioso, que é um marco de resistência para os povos originários do Brasil, para os povos originários de África, para nós descendentes e devotos.

Terror são essas tentativas constantes de apagamento promovidos pelas classes dominantes enquanto lutamos incessantemente para que a memória paulistana e a história verdadeira prevaleça, seja difundida e ensinada nas escolas.

Terror é a forma governamental atual que promove o ódio contra os indígenas, os negros e os pobres, tentando apagar nossa cultura, tirando os direitos as cotas e as reparações, tirando os direitos trabalhistas e humanos, que desrespeita as religiões de matriz indígena e africana. Fazendo do negacionismo um perverso negócio. 

Esses são os significados que damos ao verdadeiro terror.”

E este, sim, é um conto de horror brasileiro.

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