Diário de Quarentena: episódio 01

Tempo de Leitura: 6 minutos

A Vida Privada das Quarentenadas

Inaugurando a coluna do diário de quarentena, o primeiro relato metonímico vindo daqueles muitos enclausurados. Brinquedos verbalmente emputecidos, vômitos amarelados e exorcizados em pleno panelaço e os espaços-tempo-sujeitos a cozinha, o sol, a mãe: bem-vindes ao meu 19º dia de quarentena.

“FELIZ 19º DIA DE QUARENTENA!”, meu celular berrava às 6 da manhã, assim que acordei. Duas semanas em casa personifica tudo o que antes era inanimado, de plantas e celulares ao meu próprio pai, cujo tradicional silêncio aos poucos se tornou voz, fala e grito (que ainda me custa entender). Mas, é isso, ganhou vida, tudo o antes era despercebido. Como se um dia fôssemos surpreendidas por um Sr. Cabeça de Batata putaço, que não aguentando mais permanecer estático saísse gritando “Mano, é só ficá na tua ae! Se tu não surtá, todo mundo sai vivo dessa quarentena, pô!”. 

Ocorrida a relevante epifania, levantei da cama, fiz café e, antes que pudesse encenar minha própria propaganda quarentenada de Café Melitta, larguei minha caneca de porquinhos e, desengonçada, corri para o banheiro como se fosse Julia Roberts numa comédia romântica dos anos 90 descobrindo que está grávida – só que muito bem asiática, obrigada, o que já revela que não, não era parte de um filme com o Hugh Grant na década de 90 (risos) e nem estava grávida. Descobri rapidamente, pela quantidade de destroços amarelados e levemente aveludados (curiosamente a mesma escolha de palavras já feita por alguns dos meus antigos parceiros), que o meu erro não foi ter pulado um dia de pílula ou ter feito parte de uma narrativa bíblica com inexplicáveis e estranhas formas de sexo. O problema havia sido, na verdade, muito mais óbvio e menos atrelado ao meu sexo – queijo. E eu amo tanto queijo, mas tanto, que às vezes esqueço que tenho intolerância à lactose. Sob o som da gradual agitação do panelaço janela afora, o desastre também ia se anunciando como que em câmera lenta. “FORA, BOLSONARO!!!” Metal se chocava contra metal, buzinas, vuvuzelas e gritos, criando um caos harmônico que parecia ensaiado de tão coerente. Eu salivava cada vez mais. Ao dar as primeiras mordidas no espetinho de queijo coalho grelhado, escorria pelos cantos da minha boca o suco que sangrava do queijo, gorduroso e suculento, e que acabou me guiando no final até o meu 4º e inconsequente espeto. O presidente dizia para retomar à vida normal e tudo o que eu ouvia era que não precisava ouvir a ninguém, nem mesmo a minha própria intuição. Extrapolada de satisfação e sem me importar ou sem realmente saber se o amanhã era segunda, quinta ou Júpiter, fui dormir. 

Pós-gorfo, limpei meu vômito, meu rosto e possíveis respingos espalhados pelo banheiro e voltei à cozinha, onde o café, triste, me aguardava já frio. Mesmo assim, nada como um cheiroso café Melitta coado com maravilhosos filtros Melitta. O sol tem brilhado tão forte esses dias, como se quisesse também ficar em casa, ou quem sabe só fosse carente como todos nós. 

De repente, entra minha mãe aos passos lentos, cansados e os ombros rígidos. São duas semanas de trabalhos domésticos e de religiosa contagem diária de mortos. São mais de 200 mortos no Brasil. Sou eu que ainda não me formei, nem me casei, nem dei netos ou nem mesmo visitei meus avós no último feriado. É o meu irmão que não sai do seu quarto, aprisionado na própria maldição que lhe impuseram desde revelado que seria o primogênito. Meu pai que se aposentou e hoje trabalha, trabalha, trabalha, trabalha. Seus irmãos que ligam atrás de conselhos sobre como lidar com meus avós, com a cunhada, com o trabalho. Seu pai que aos 80 anos insiste em sair de casa para comprar picolé e distribuir aos vizinhos. Sua mãe, cuja boca se abre apenas quando permitida, e que, ao invés disso, enterra suas próprias palavras em pilhas e pilhas acumuladas de caça-palavras e em contar as mesmas histórias do passado de novo e de novo: “Que saudades que tenho… Vem visitar!”. E, mesmo assim, olhei nos olhos da minha mãe e, como se ignorando tudo o que acabo de escrever, ela me disse “bom dia”, sorrindo tão quentinho quanto o sol que batia nas minhas costas. 

Então, o sol, forte demais, começou a queimar minha pele, fazendo com que me afastasse alguns passos da onde estava. Da porta da cozinha e naquela manhã de céu azul, parecia que o que me ocorria era justamente o contrário do pânico anunciado nos jornais. Estava presa e quarentenada em casa sim, mas, assim como tudo ao meu redor, eu mesma era preenchida de vida, que, independente da minha vontade ou do quão doloroso fosse, expandia meu olhar e assim revelava a vida que a minha própria vida, antes, me impedia de ver: a vida privada das quarentenadas

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