Lendas e mitos das eleições do XI

A eleição para a cadeira do Centro Acadêmico XI de Agosto é com certeza um dos eventos mais tradicionais do Largo de São Francisco. O glorioso “CA” orgulha-se de ter em sua história nomes que ajudaram a escrever a história de nosso país. Não é novidade para ninguém o fato de nossa Faculdade já ter feito 13 Presidentes da República e mais de 40 governadores, sendo que muitos deles participaram da política estudantil do XI mesmo sem nunca terem sentado na cadeira de presidente (na verdade, muitos concorreram e não conseguiram se eleger, como Jânio Quadros, Michel Temer e Franco Montoro). Nenhum outro Centro Acadêmico desfruta de tamanha importância, o que faz com que a disputa entre os alunos para ascender à presidência seja intensa.

Fundado no dia 11 de agosto de 1903, o XI sempre trouxe consigo embates entre os alunos, os quais formam chapas e partidos acadêmicos para disputarem as eleições anuais. Tal instituição, já encampou campanhas de repercussão nacional como as “Diretas Já!”, o “Fora Collor!” e o “O petróleo é nosso!”, e foi pioneiro na adoção do voto secreto e do voto feminino em 1925. Ao longo desses 118 anos de existência, as eleições contaram também com algumas participações inusitadas dentro da política acadêmica.

Nas eleições de 1906, o grupo “Cafajestes”, liderado por Cirilo Júnior (que viria a ser Presidente da Câmara dos Deputados e Ministro da Justiça) e Ricardo Gonçalves (o poeta), foi criado para se contrapor ao grupo “Aristocratas”, liderados por Cardoso de Mello Neto (futuro governador e prefeito de São Paulo) e César Lacerda de Vergueiro (senador conhecido por ser assassinado pelo próprio sobrinho). A aparente jocosa disputa entre Cafajestes e Aristocratas não resultou na vitória de nenhum dos dois para a presidência do XI de agosto, mas rendeu um embate com nomes não muito usuais na política.

Nos anos 1970, foi fundado o singular movimento estudantil, o “P.A.M.”. A sigla significa “Partido Acadêmico Monarquista”. Seus integrantes faziam aparições nas arcadas e nos eventos do XI trajados como os membros da corte no século XVI e XVII; tal vestimenta era arranjada pelos alunos na Casa dos Artistas, o que permitia um figurino completo. Um de seus integrantes, Walter Arruda Junior, foi intitulado e aclamado como Rei das arcadas pelos demais integrantes (e até mesmo pelo célebre professor Ataliba Nogueira). O partido também possuía um tesoureiro real e um bispo (esse último título foi dado a um aluno que seria um “gêmeo perdido” do Papa João XXIII).

Tal partido não possuía pretensões de ser considerado sério, mas conquistou uma notoriedade que levou alguns veículos de mídia a considerá-lo como tal. O Estado de São Paulo noticiava as pretensões monarquistas do partido como um resgate do Império Brasileiro (os jornalistas ou não conheciam o partido, ou não entenderam o humor por trás dele).  

Outra passagem singular foram as eleições de 1911, quando houve uma duplicidade no comando do XI. Após as eleições daquele ano, a oposição não aceitou o resultado das eleições alegando fraude; assim, haviam dois alunos que se declararam presidentes. O impasse foi tanto que foi preciso que o Governo do Estado arbitrasse a disputa, mantendo-se assim o presidente eleito na urna. O Governo interviu, pois o presidente do Centro Acadêmico possuía uma cadeira de honra nas solenidades do Governador, portanto tinha de ser determinada uma única pessoa.

Não somente o Governo Estadual olhava para as eleições franciscanas, o Federal também. No início de 1950, o presidente do XI Vicente Sampaio chegou a ter contato direto com Getúlio Vargas, em um período que esse queria o apoio do XI para suas políticas no Estado de São Paulo. Em 1963, o Presidente João Goulart foi até a posse do presidente eleito no ano, que fora Orcalino Marçal (que derrotou Michel Temer).

Em 1925, primeira eleição com voto secreto, foi talvez a mais acirrada da história, vencida pela chapa de oposição por apenas 3 votos. Durante o período de voto aberto a chapa da situação era eleita consecutivamente até que se ocultaram os votos (dizem que o modelo dessa eleição foi o motor inspirador do código eleitoral de 1932). 

Em 1943, um dos candidatos ao XI fora a uma passeata com outros alunos que protestavam contra o Estado Novo varguista. A polícia dispersou a multidão a bala, matando um aluno e acertando o candidato na perna. Após o incidente, o candidato baleado (Haroldo Bueno Magano) foi eleito e com direito a lavada sobre os demais candidatos.

Ainda tratando de oposições ferrenhas, talvez o período mais “quente” de disputas foram os anos 1950, cujas eleições eram dominadas por apenas dois partidos, o “Partido Acadêmico Libertador” e o “Partido Acadêmico Renovador”. Os partidos eram tão fortes que suas prévias para escolher o candidato à presidência geravam tanto debate quanto a própria eleição.

Já o ano de 2020 ficará marcado na história da São Francisco como ano em que as arcadas se esvaziaram e, por consequência, impossibilitaram as eleições, que foram adiadas pela primeira vez até o retorno presencial das atividades.

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