Pouco depois da sua midiática recuperação da Covid-19 em outubro, o Presidente dos EUA Donald Trump cogitou vestir uma roupa do Superman por debaixo do terno em evento com apoiadores, de modo a demonstrar força e virilidade na sua primeira aparição pública após a doença [1]. Felizmente a ideia não foi pra frente, já que algum assessor com o mínimo de bom senso deve ter atuado nos bastidores para nos poupar desse show de horrores. A ideia toda da coisa, contudo, me remeteu a uma entrevista também recente de Alan Moore, lenda viva dos quadrinhos e responsável por criar Watchmen, V de Vingança, entre outras obras-primas geniais. Moore, que é hoje um crítico ferrenho da indústria das HQs de super-heróis, pela qual dedicou a vida, falava sobre uma certa preocupação com a popularização excessiva dessas figuras na cultura de massas do Século XXI:
“Pode ser coincidência, mas em 2016, ano em que os americanos elegeram uma laranja nazista e o Reino Unido votou para deixar a União Europeia, 6 das 12 maiores bilheterias do ano eram filmes de super-heróis. Não estou dizendo que uma coisa causou a outra, mas acredito que elas são sintomas de um mesmo problema – a negação da realidade e um apelo para soluções simplistas e sensacionais.”[2]
De fato, parece haver uma certa afinidade eletiva entre a retórica populista da nova direita e a iconografia dos super-heróis. Quem afinal não se lembra do infame boneco inflável do Super Moro, nas manifestações direitistas que tomaram Brasília, ou nunca se deparou com os incontáveis memes que pintam Jair Bolsonaro como um super-herói nas conversas e comentários entre seus apoiadores? Coincidentemente ou não, o zeitgeist atual, em que os super-heróis alcançaram o ponto máximo da sua popularidade na cultura pop, remete de muitas formas àquele no qual os vigilantes mascarados surgiram pela primeira vez, nos quadrinhos.
Boneco do Super Moro / Reprodução
Apesar de não ser rigorosamente o pioneiro, o Superman é considerado o primeiro grande super-herói moderno, criado em 1938, na revista Action Comics, pela dupla de judeus Jerry Siegel e Joe Schuster. Não só o Azulão reunia algumas das principais características que estariam presentes na maioria dos super-heróis dali em diante, como também abriu a porteira para a criação de uma leva de outros personagens que até hoje habitam a cultura pop. Em 1939 surgia o Batman, em 1940 o Capitão América, em 1942 a Mulher-Maravilha e o resto, como sabemos, é História.
Capa da Action Comics #1 que apresentava ao mundo o Superman / Divulgação / DC Comics
Siegel e Schuster eram dois jovens judeus periféricos, meio nerds e deslocados, anos antes de isso ser remotamente cool. Seu início de vida adulta foi dramaticamente marcado pela ascensão do Nazi-Fascismo na Europa durante a década de 1930, e pela Grande Depressão que se abateu sobre os EUA no pós-Crise de 1929. Num contexto de massacre do seu povo e recuperação lenta da economia, a dupla foi buscar inspiração nas histórias de ficção científica que consumiam avidamente para criar o Superman: um alienígena vindo de um mundo morto, que na Terra era superpoderoso e encarnava os ideais de paz, justiça e o New Deal do Presidente Roosevelt.
Consciente ou inconscientemente, Siegel e Schuster criaram o Übermensch americano. Lideranças políticas fortes, quase onipotentes e pintadas como verdadeiramente sobre-humanas eram tendência naqueles tempos. Os fascistas tinham Hitler e Mussolini, os comunistas tinham Stalin e até o Brasil possuía em Vargas uma figura do tipo. Nos EUA, o Superman e os super-heróis em geral vieram para capturar os anseios por personalidades desse tipo. Daí seu apelo e enorme sucesso até entre adultos, que nunca foram o público alvo das histórias em quadrinhos originalmente.
Cortamos para os nossos tempos e aqui a relação “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?” é diferente. Os filmes de super-heróis se consolidaram como um fenômeno extremamente rentável de bilheterias desde o início dos anos 2000, mas a partir de 2008, com a entrada do Marvel Studios na jogada, a coisa toma um caminho completamente distinto. Iniciava-se ali um ambicioso projeto de costura de universo cinematográfico compartilhado sem precedentes na cultura pop até então. A intenção era lançar filmes de quatro super-heróis diferentes – Homem de Ferro, Hulk, Capitão América e Thor – que estariam entrelaçados entre si e culminariam em um crossover no filme dos Vingadores. A compra da Marvel pelo conglomerado Disney, no meio do caminho, serviu para injetar ainda mais dinheiro na empreitada que muita gente duvidava, mas que tinha por trás muita paixão, dinheiro e vontade.
Vingadores (2012): divisor de águas na história da cultura pop / Divulgação / Marvel Studios
Veio 2012 e Vingadores foi um fenômeno completamente surpreendente, me arrisco a dizer que um dos mais significativos para quem quer entender o panorama cultural do século XXI. Trata-se de um divisor de águas na história da cultura pop. O sucesso foi tamanho que deu fôlego para a Marvel ampliar ainda mais seus horizontes e construir um universo cinematográfico maior e mais ambicioso que teve sua conclusão com fanfarra no ano passado em Vingadores: Ultimato, um filme-evento que tenho certeza que ninguém no mundo conseguiu ignorar e que acabou por se tornar a maior bilheteria de todos os tempos.
Mais do que isso, o sucesso de Vingadores e do projeto do Marvel Studios ditou a forma como a cultura pop funcionaria dali em diante, sendo os universos compartilhados a grande galinha dos ovos de ouro que os grandes estúdios passaram a perseguir. Faço uma crônica mais detalhada desse processo no meu primeiríssimo texto nesta Gazeta [3], o qual, deixando a modéstia de lado, eu recomendo a leitura. Mas acima de tudo, como grande legado dessa história toda, tivemos os Super-Heróis se tornando onipresentes no cinema, na TV e em todos os lugares, alçados à categoria de elementos culturais mais simbólicos de nossos tempos.
E é aqui que volto à crítica de Alan Moore, que apresentei no início do texto. Moore entende, corretamente a meu ver, que a cultura não é uma dimensão dissociada de todo o resto da sociedade. Ela reflete e é refletida nas esferas política e econômica também. Portanto, se num mundo onde filmes de super-herói são o produto cultural mais amplamente consumido pela população, parece óbvio que a onda populista de direita que se espalhou pelo planeta poderia estar relacionada a esse fenômeno, em maior ou menor escala.
É uma afirmação polêmica e provocativa, obviamente, e nem sei se concordo totalmente com ela. E por óbvio não estou dizendo aqui que assistir a filmes de super-heróis é errado ou alimenta o fascismo. Mas de fato, como Moore coloca, milhões de adultos reduzirem sua dieta cinematográfica a produções culturais sobre figuras criadas nos anos 30 para entreter crianças é sintoma de uma infantilização e escapismo no mínimo preocupantes. Tal qual a narrativa política da extrema direita, sempre apelando para inimigos imaginários, conspirações sinistras e líderes fortes e másculos lutando “contra tudo isso que está aí”.
Esse discurso fantasioso e conspiracionista encontra terreno fértil para se proliferar no coração de pessoas dispostas a enxergar tudo em preto e branco, que se importam mais com “mitadas” do que com projetos e que reduzem a complexidade de interesses e dinâmicas do jogo político a uma cruzada delirante contra os comunistas, os globalistas, George Soros ou seja lá quem for o vilão da vez. Vejam, até vilões malvados, nos melhores moldes das histórias em quadrinhos, a nova direita criou. É evidente, portanto, que o projeto político populista de direita pressupõe o rebaixamento do debate público a um patamar infantil e de espetáculo. E que essa infantilização encontra lastro no consumo cultural da maior parte da população, voltado majoritariamente para filmes de super-heróis, como mostram as suas astronômicas bilheterias.
O problema não está nos filmes da Marvel, suas séries ou a miríade de eventos e produtos nerd que se espalham por aí a uma velocidade assustadora. O que procuro aqui é dizer que talvez eles sejam sintoma de algo mais complexo e perigoso. A pertinência ou factibilidade dessa correlação, deixo a você leitora ou leitor, para tirar suas próprias conclusões.
Mas só pra manter a provocação: não deixa de ser curioso que no ano em que nenhum grande filme de super-herói foi lançado nos cinemas, Trump tenha sido derrotado e se fale num enfraquecimento da onda de direita pelo mundo…
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[1] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/10/11/trump-cogitou-usar-camisa-de-super-homem-na-primeira-aparicao-apos-covid-19.htm
[2] Entrevista completa de Moore ao Deadline: https://deadline.com/2020/10/alan-moore-rare-interview-watchmen-creator-the-show-superhero-movies-blighted-culture-1234594526/
[3] https://gazetaarcadas.com/2019/08/22/a-corrida-lucrativa-e-pouco-criativa-das-propriedades-intelectuais-em-hollywood/
