“Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos Como sabê-los?”
- Poema enjoadinho,
Vinícius de Moraes
Quem acompanha a coluna desde o início, percebeu que a pós-graduação na FDUSP é repleta de desafios: prazos, leituras, entrega de trabalhos, monitorias, redação da dissertação ou tese… Somam-se a isso as dificuldades de ordem pessoal e profissional, sem contar a preocupação com nossa saúde mental. De uma forma ou de outra, todas essas questões já foram ou serão aqui discutidas. Não obstante, o tema de hoje constitui mais uma possível dificuldade no já tortuoso percurso do(a) pós-graduando(a): a maternidade ou paternidade. É certo que se trata de uma situação não muito comum no PPGD, mas nem por isso deve deixar de ser devidamente apreciada.
O advento de um(a) filho(a) traz à tona diferentes questões. A primeira dela é que o(a) pós-graduando(a) será obrigado a interromper a pesquisa para cuidar dele(a) – para tanto, é possível usufruir de licença-maternidade ou paternidade, com suspensão da contagem dos prazos regimentais, por seis meses no caso de mulheres e vinte dias no caso de homens [1]. Daqui já se percebe o problema no que diz respeito à questão de gênero: por que prazos diferentes, se – teoricamente – ambos os pais devem desempenhar a mesma função de cuidado para com o(a) filho(a)? Outro problema que surge é retomar a pesquisa após a licença: se não bastasse o fato dela ter sido interrompida, agora ela deve ser feita com a atenção dividida entre leitura e escrita e os cuidados com a criança. Além disso, fato é que no caso das mulheres a situação é mais complicada: se por um lado é ela quem dispende mais tempo cuidando dos(as) filhos(as), por outro existe uma cobrança maior, principalmente porque ela esteve afastada por mais tempo que o homem [2]. Esse cenário piora no caso das mães solo, que não têm um(a) parceiro(a) para ajudá-las e que precisariam de uma estrutura de auxílio ainda maior da família e da universidade em termos materiais, psicológicos e financeiros. Contudo, em relação à USP, tal auxílio ainda está longe de ser o ideal – basta lembrarmos que em 2017 a Creche Oeste foi fechada [3]. No fim das contas, a maternidade durante a jornada acadêmica ainda é uma opção dura diante de um cenário altamente competitivo, com baixa estrutura de apoio institucional e, muitas vezes, financeiro. As opções restantes seriam a maternidade antes ou após a pós-graduação, com uma carreira consolidada. Este último cenário tende a ser difícil principalmente com o tempo de percurso até se chegar a uma situação ideal (profissional e academicamente) e o conflito com o relógio biológico.
Algumas iniciativas estão sendo tomadas no sentido de problematizar a questão da maternidade e paternidade na Academia. Um bom exemplo é o grupo “Parent in Science” [4], formado por mães (e um pai) de diversas instituições de ensino superior com o intuito de demonstrar como a maternidade (e paternidade) afetam a carreira de pesquisadores(as). Outra iniciativa diz respeito à divulgação cada vez maior nas redes sociais de questões relacionadas à parentalidade dentro do ambiente universitário – mediante a exposição de problemas que as jovens mães enfrentam e como os(as) professores(as) reagem à questão [5].
Nesse sentido, não há como deixar de falar também do contexto atual da COVID-19, e como situações imprevisíveis, que já afetam normalmente qualquer acadêmico, impactam em dobro pais e mães, que passaram a dividir seu tempo e atividades profissionais e pessoais em um mesmo espaço e sozinhos. Essa nova dinâmica reflete-se diretamente na produtividade acadêmica, especialmente das mulheres, pois, pelo que indicam pesquisas preliminares, elas ainda gastam mais tempo no cuidado com os filhos e o lar e, agora, também no homeschooling, se comparadas aos homens [6]. O próprio Movimento “Parent in Science” fez um levantamento no Brasil, durante os meses de abril e maio de 2020, com docentes/pesquisadores(as), alunos(as) de pós-graduação e pós-doutorandos(as) e descobriu, por exemplo, que apenas 11 % das pós-graduandas com filhos estão conseguindo trabalhar remotamente, o que difere do caso dos homens com filhos, no qual tal produção se eleva para 20,6 % [7].
Nessa esteira, como o nosso foco é a abordagem da situação na Pós-Graduação, resolvemos trazer o relato de uma mae e um pai que passaram pelo PPGD da FDUSP e agradecemos desde já a importante contribuição para a problematização e maior consciência sobre o tema:
Luiza Andrade Corrêa
Doutora (2020) e mestre (2015) em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo. Graduada (2009) em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É professora visitante e orientadora da Sociedade Brasileira de Direito Público (SBDP) desde 2010 e professora de Metodologia de Ensino no Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBDT) desde 2016. Foi pesquisadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (2014-2019) da Fundação Getulio Vargas (CEPI FGV DIREITO SP) e coordenadora do Núcleo de Extensão Direito, Discriminação e Diversidade da Faculdade de Direito da USP (2016-2017 e 2020) e da Escola de Formação da SBDP (2011-2014).
“Eu fui aluna da pós graduação na São Francisco no mestrado e no doutorado, mas com experiências completamente distintas. No doutorado eu pari um filho e pari uma tese. Depois de um ano cursando as disciplinas eu engravidei, em uma gestação de risco e difícil. A começar pelas péssimas condições de acessibilidade física dos tradicionais prédios da Faculdade (perdi as contas de quantas vezes me deparei com elevadores quebrados, com cadeiras que não me cabiam) que passavam a mensagem clara de que mães não eram bem vindas. Foi difícil estudar e produzir trabalhando 40 horas, sentindo sono e enjoo, mas ainda assim a gestação foi a parte fácil. Depois que meu filho nasceu, tentei produzir entre noites intermináveis sem dormir, amamentando, cuidando, garantindo a sobrevivência de um serzinho tão frágil e dependente. Maternidade é um trabalho de 24h por dia e o doutorado também. Se eu consegui foi porque encontrei em minha trajetória na FDUSP professores e professoras disponíveis e que compreendiam o que eu estava passando. Isso se dá no âmbito das relações pessoais, não está nas estruturas. Terminei o doutorado com uma tese boa e um filho vivo, saudável e feliz, porém sem emprego, sem saúde mental e física, tendo inclusive sido internada no hospital na semana da entrega da tese.
Apesar de nossa própria produção em diversos estudos acadêmicos mostrarem as origens históricas e os problemas de se delegar o cuidado de crianças como uma responsabilidade individual da mulher, nós continuamos agindo como se fosse normal. Se as condições de permanência nas universidades hoje já nos força a uma jornada dupla de trabalho, e as mulheres a uma jornada tripla, ela obriga as mães a uma jornada quádrupla e sem nenhum apoio. Eu fui pesquisar e percebi que as professoras da faculdade ou escolheram não ter filhos, ou o fizeram depois que sua carreira já estava consolidada. Estamos fazendo um pacto coletivo de expulsar mães da vida acadêmica, como se não pertencessem a ela. A responsabilidade sobre isso é de todos. Ou alteramos esse pacto e damos condições de permanência às mães, ou estaremos contribuindo para perpetuação de produções masculinas, que resolvem problemas que não são os nossos.”
Mauro Kiithi Arima Junior
Bacharel em Direito e em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Tem Mestrado e Doutorado em Direito Internacional pela USP. É advogado e atualmente trabalha como pesquisador jurídico do Centro de Estudos do Comércio Global e Investimentos (CCGI), vinculado à Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas.
“No começo de 2018, mal acabara de cursar as disciplinas do doutorado, tomei conhecimento de que seria pai pela primeira vez. Começava então uma longa jornada de dificuldades. Minha primeira filha nasceu em setembro daquele ano. Um ano e meio depois, nas vésperas da banca de defesa, nasceu meu segundo filho.
Conciliar pós-graduação e paternidade não é tarefa simples, mas pode ser enriquecedora em vários aspectos. Cobranças do orientador, correrias com exames pré-natal, dúvidas sobre os cuidados com o bebê me induziram a buscar soluções rápidas para os problemas. Acabei focando meus esforços nas leituras essenciais, na preparação para qualificação e na redação da tese.
O principal desafio do pai pós-graduandos é encontrar tempo. Estudos e filhos são ambos muito demandantes. O tempo se torna precioso e deve ser administrado com sabedoria e criatividade. Lembro-me das muitas vezes que, em um braço, embalava minha filha de madrugada para ela voltar a dormir e, com o outro braço, segurava o texto que lia para a tese.
No meu caso específico, contei com a ajuda da família (que compreendeu ausências e segurou a pressão nos momentos difíceis) e a sensibilidade do orientador, para finalizar a dupla jornada. Muitos não têm essa sorte e sacrificam o término dos estudos, pois os programas de pós-graduação, inflexíveis nas regras, não parecem contemplar essas situações. Isso, a meu ver, aumenta ainda mais dificuldades e problemas psicológicos que acometem o pós-graduando.”
[1] Artigo 47 do Regimento de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo (Resolução nº 7493, de 27 de março de 2018). Vale destacar que essa regra também é válida para casos de adoção.
[2] Isso se reflete na pós-graduação e na carreira acadêmica em geral, conforme relatos no site “cientistas feministas” (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/07/07/confissoes-de-uma-cientista-mae/).
[4] Ver https://www.parentinscience.com/.
[5] Um exemplo positivo foi o do professor Sydney Engelberg, da Universidade Hebraica de Jerusalém, que viralizou em 2015 após uma foto em que aparecia lecionando ao mesmo tempo em que confortava o bebê de alunos que assistiam à sua aula (https://edition.cnn.com/2015/05/18/living/professor-baby-viral-feat/index.html).
[6]Ver https://theconversation.com/how-women-in-academia-are-feeling-the-brunt-of-covid-19-144087.
[7] A pesquisa completa pode ser conferida no Relatório “PRODUTIVIDADE ACADÊMICA DURANTE A PANDEMIA: Efeitos de gênero, raça e parentalidade”: http://adunicamp.org.br/novosite/wp-content/uploads/2020/07/PRODUTIVIDADE-ACAD%C3%8AMICA-DURANTE-A-PANDEMIA.pdf.
