“A pandemia de covid19 espera mortes do vírus e ‘mortes por desespero’. A classificação não é médica, mas afetiva. A incerteza sobre a sobrevivência tem impactos na saúde mental. Uma profissão essencial será a de cuidadoras de saúde mental para o mundo pós-pandemia.”
- Débora Diniz, em seu twitter, 09 de Maio de 2020.
No dia 11 de setembro a Gazeta Arcadas publicou a ilustração Peter Pan e Saúde Mental, de Fabiana Won. Na imagem, um jovem com a face tranquila para o mundo exterior traz, dentro de si, uma criança ferida e enredada em um novelo escuro [1]. Em tempos de campanhas como Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio e da crescente notoriedade que o tema da saúde tem ganhado na cena pública, nos perguntamos: como anda a saúde mental na pós-graduação da FDUSP? Qual o protagonismo deste debate nas Arcadas? [2]
Karina Kuschnir em seu texto Carta a um Jovem Doutorando [3] faz um panorama que nos interessa especialmente: cumprimento de prazos, medo do orientador, a síndrome do impostor, bloqueios de escrita, a auto cobrança de perfeição compõem o que ela denominou “coquetel doutorando-derrotado”, que a levou, e leva inúmeros de nós, a consultórios psicológicos e psiquiátricos, para além de desistências, trancamentos e sofrimento ao longo do processo. Tal sofrimento é agravado com a solidão do processo de pesquisa, a vaidade acadêmica que nos massacra a todos(as), como já denunciaram tantas autoras, como Rosana Pinheiro-Machado e Débora Diniz. Será que só eu não dou conta? Meus(minhas) colegas e parecem todos(as) estar levando com tranquilidade o momento – todos(as) publicados(as), premiados(as), produtivos(as). Será que há algo de errado comigo?
No contexto da pandemia da COVID-19, em especial, o tema da saúde mental ganha destaque quando todas as vidas viraram de ponta cabeça, com todos os planos, viagens, compromissos desmarcados, a vida social suspensa, o medo de perder amigos(as) e familiares sempre à espreita.
Especialmente na pós-graduação, a execução e os cronogramas de pesquisa foram inviabilizados. Basta pensarmos no tempo para a escrita face ao acúmulo de outras atividades advindas da pandemia, no fechamento de espaços físicos para trabalho (como bibliotecas, arquivos, instituições) e a consequente falta de acesso a materiais de consulta, na impossibilidade das viagens a campo e no impacto desses fatores para a qualificação dos(as) pesquisadores(as) e das pesquisas. A necessidade de internet e computadores de uso individual para todas as atividades do dia a dia, a recessão econômica e o desemprego desafiam a permanência no curso, como aponta Anna Venturini. A falta da rede de proteção que antes auxiliava no cuidado de crianças, idosos e pessoas que precisam de ajuda em seu cotidiano nos mostra como esses desafios impactam de maneira mais profunda os grupos que, dentre nós, estudantes privilegiados(as) por excelência, possuem diversas especificidades e vulnerabilidades desde uma ou mais perspectivas.
Pensar todo o amplo debate sobre saúde mental, e sobre saúde mental na pós-graduação, e sua incipiência nos debates da FDUSP, nos leva a nos perguntar como os(as) pós-graduandos(as) estão lidando com os desafios colocados por este ano de 2020. Uma pesquisa [4] com o objetivo de compilar informações para subsidiar o pedido de ampliação da recomposição dos prazos em nosso programa nos levou a um número que assusta e escancara o fato de que algo não está bem: 248 dentre os(as) 295 respondentes da pesquisa adoeceram psicologicamente ao longo da pandemia (84,1%).
O modo com que os prazos foram prorrogados de maneira geral da FDUSP (prazos que venciam ao longo do ano foram prorrogados para o prazo fatal entre agosto e setembro, e para os prazos de janeiro há a possibilidade de prorrogação por dois meses, a pedido do(a) orientador(a)) instigou alunas e alunos a realizarem a pesquisa sobre os impactos na realização dos trabalhos, e que apontou o referido grande adoecimento psicológico de nossa comunidade. Ainda, há outro dado interessante a se considerar: a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo autorizou prorrogações de até doze meses para pesquisas em quaisquer fases. O que teriam de especial os(as) alunos(as) do Direito que, a despeito de todos os impactos ocorridos no ano de 2020, conseguirão cumprir seus prazos em apenas poucos meses a mais? Será que eles(as), então, não estariam sujeitos aos impactos de 2020 em suas vidas? Parece haver um descompasso entre expectativas acadêmicas e a vivência dos(as) pesquisadores(as), uma vez que 95,2% de nós afirma que simplesmente não têm a mesma condição para se dedicar quando em comparação ao período anterior à pandemia.
Produzir sem saúde mental, talvez, é o que resta aos(às) colegas que enfrentam um cenário de incerteza não só em razão da crise de saúde pública que nos assola como também pela necessidade de negociar com orientadores(as) e aguardar as respostas das instâncias competentes, sem saber por quanto tempo, de quais condições terão para finalizar seus trabalhos. A pesquisa indica que o medo do pedido de anuência a orientadores(as) é imenso: 52,1% não possui anuência do(a) orientador(a) para os pedidos, mesmo que, destes, 41,5% exerça o cuidado com alguém da família, 91,1% trabalhe e 57,3% tenha visto seus parentes adoecer na pandemia. A simulação de normalidade é confrontada pelo fato de que 95,9% (283 alunos(as)) afirma que suas pesquisas foram impactadas pela conjuntura atual. Não falamos apenas de saúde mental ou condições pessoais, mas também do cuidado que se impôs às nossas famílias, o ritmo de trabalho alterado (muitos de nós, já professoras e professores, tivemos que desenvolver novas aulas e dar conta das contingências de nossos alunos e alunas), e o fechamento de bibliotecas e outras fontes de material que obstaculizaram a realização das pesquisas como o programado. Dentre as alunas mães, 15 dentre 16 respondentes afirmam que precisarão de prorrogação dos prazos para além dos dois meses. Dos que acreditam que precisariam de mais 6 meses de prazo, 40,9% exerce o cuidado com suas famílias, e dos que acreditam precisar de um ano, 61,1% exerce cuidados com alguém da família. Dentre os(as) respondentes, 40 afirmam que dois meses ou nenhuma prorrogação é o suficiente, e 82,7% terão de fazer pedidos específicos à pós-graduação. Destacamos, ainda, que o baixo número de mães em nossa pós-graduação reforça o já apontado em coluna anterior sobre maternidade e paternidade na pós-graduação [5]: qual o lugar dessas pessoas em nosso programa?
O cuidado, como debatido de maneira qualificadíssima no podcast Cuidar, verbo coletivo, realizado por Bruna Angotti e Regina Vieira [6], é um tema que ganhou visibilidade na pandemia. Historicamente colocado em invisibilidade, essencialmente feminino e mal remunerado [7], e com uma série de outras características desnudadas por Helena Hirata e Nadya Guimarães e outras pesquisadoras, o cuidado é um dos aspectos centrais de nossas vidas e cuja invisibilidade cumpre uma série de propósitos, dentre eles, a manutenção de uma série de pessoas e profissionais nas bases da exploração de nossa sociedade e sua não priorização, uma vez que é considerado improdutivo, ou incapaz de gerar lucro.
O lugar de cuidado, considerado tradicionalmente feminino em nossa sociedade, se contrapõe ao lugar das mulheres na vida pública de nossos espaços de poder, dentre eles do Direito. Somos menos representadas nos cargos públicos, como magistratura, como já apontou Maria da Glória Bonelli, nos sentimos excluídas nos espaços da própria FDUSP, como apontou a pesquisa Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto [8], coordenada por seis mulheres. A feminização do cuidado se contrapõe ao quão masculinos são os espaços do Direito. Estamos falando de uma invisibilização estrutural das mulheres e do cuidado a elas associado, dentre tantas outras facetas que são consideradas demasiadamente femininas, e portanto incompatíveis com o mundo do Direito: a empatia, a emotividade, como aponta Lídia Reis Almeida Prado, em seu livro O Juiz e a emoção: aspectos da lógica da decisão judicial. Longe de afirmar que apenas mulheres foram impactadas pela pandemia, o que queremos destacar é que precisamos que as lógicas de cuidado se expandam e busquem pautar as decisões institucionais como um todo.
Alunas, professoras, mulheres, não à toa, citamos apenas pesquisadoras mulheres neste breve texto de apresentação da pesquisa, à qual convido a todos(as) a acessar e, caso seja pós-graduando(a) da FDUSP, a responder [9]. Pesquisadoras mulheres têm produzido diversas perguntas sobre o lugar da saúde mental, do cuidado, em diversos espaços, e, dentre eles, o acadêmico, reafirmando nosso lugar neste espaço e nosso lugar de questionamento sobre como eles foram constituídos e são reproduzidos socialmente [10]. É desde este lugar que perguntamos: qual o lugar do cuidado, para a FDUSP, neste momento de crise? Como está nossa comunidade acadêmica de pós-graduandos(as)? Ela está bem? Como estão vivenciando esse momento nossos alunos e alunas que trabalham? Que moram com os pais? Que perderam pessoas? Que possuem filhos(as)? Será que é possível seguir a normalidade, apesar das feridas que cada um(a) de nós passou a carregar neste ano de 2020? Como estamos compartilhando os ônus de um ano que impactou o mundo todo, e, em específico, a todos nós professores e professoras, alunos e alunas, servidores e servidoras, nossas famílias, amigos e amigas, interlocutores e interlocutoras de pesquisa?
Reconhecer as feridas que carregamos como comunidade acadêmica neste período sombrio, ao invés de permanecermos alheios na Terra do Nunca, reino da negação por excelência, nos auxilia a não reproduzir o que não queremos ver em nosso entorno. Por uma comunidade acadêmica que cultive o cuidado como prioridade, por espaços em que os que adoeceram mental e fisicamente não se sintam derrotados ou fracassados, por pessoas que possam cuidar sem culpa de seus familiares, que possam viver os lutos daqueles que perdemos durante a pandemia. Por uma comunidade acadêmica que integre as agendas de pesquisas, prazos e cronogramas, com o diálogo e o cuidado com cada um que a integra.
Pautados(as) por uma transformação positiva na comunidade que integramos, seguimos nossas pesquisas com rigor, com excelência, com prazos, com cuidado, com escuta e com empatia.
[1] Disponível em https://gazetaarcadas.com/2020/09/11/ilustracao-peter-pan-e-saude-mental/.
[2] Sobre saúde mental na pós-graduação, ver https://gazetaarcadas.com/2020/07/12/como-lidar-com-a-saude-mental-na-pos-graduacao/.
[3] Ver https://karinakuschnir.wordpress.com/2014/05/01/carta-a-um-jovem-doutorando/ e https://www.cartacapital.com.br/sociedade/precisamos-falar-sobre-a-vaidade-na-vida-academica/.
[4] Para ver os resultados da pesquisa: https://bit.ly/resultadospesquisa_prorroga_posfdusp.
[5] Sobre maternidade e paternidade na pós-graduação, ver https://gazetaarcadas.com/2020/08/31/5403/.
[6] Disponível em https://cuidar-verbo-coletivo.simplecast.com/.
[7] Ver https://www.oxfam.org.br/justica-social-e-economica/forum-economico-de-davos/tempo-de-cuidar/.
[8] Ver https://jornal.usp.br/universidade/sentimento-de-exclusao-feminina-no-direito-e-transformado-em-dados/.
[9] Para responder à pesquisa: https://bit.ly/pesquisa_prorroga_posfdusp.
[10] Ver “Um tempo só para si: gênero, pandemia e uma política científica feminista”, disponível em http://dados.iesp.uerj.br/pandemia-cientifica-feminista/.
Janaína Dantas Germano Gomes
Graduada em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas onde leciona no curso de Direito. Mestre e Doutoranda em Direitos Humanos na FDUSP.
Tatiana Theodoro Gasparini
Graduada em Direito e Mestranda em Criminologia na FDUSP.
