“Não há juízo claro sem experiência”, como diria o provérbio popular. Por isso, nessa semana, continuaremos a abordar o tópico internacionalização, mas sob a perspectiva da experiência de alguns(mas) atuais e ex pós-graduandos(as) da FDUSP. Julgamos importante trazer esses relatos para mostrar aos(às) alunos(as) como foi o processo dos(as) colegas (o que inclui também algumas dificuldades), sua vivência como pesquisadores(as) no exterior e, por fim, se o resultado foi compatível com o esperado. Acreditamos que isso poderá contribuir para a reflexão de muitos pós-graduandos(as) e, por que não, auxiliar também em suas decisões. Agradecemos, desde já, as contribuições de Amanda Fernandes, Sarah Marinho, Fernanda Gianesella, Ana Beneti e Tasso Cipriano, além da participação da autora Vivian Rocha, que de forma pragmática e sincera nos auxiliaram nesse artigo.
Dupla-titulação
Tasso Cipriano
Doutor em direito pela Universidade de Bremen e pela Universidade de São Paulo (2012- 2018) e bacharel em direito pela Universidade de São Paulo (2006-2011), com período sanduíche na Universidade de Munique (2009-2010)
“Tive duas experiências internacionais, uma durante a graduação em Munique e outra durante o doutorado em Bremen. Na primeira, fruto de um programa de intercâmbio oferecido pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, tive a oportunidade de assistir aulas da graduação, cursar três disciplinas do LL.M, incluindo a realização das provas finais, e elaborar/apresentar um trabalho acadêmico na minha área de pesquisa. Graças ao aprendizado do idioma, à exposição a um ambiente de excelência acadêmica (ensino, pesquisa, biblioteca etc.) e ao contato com estudantes de outros países da União Europeia, tive a certeza de que voltaria para a Alemanha na pós-graduação.
Depois de já ter ingressado no doutorado no Brasil, conheci meu orientador em São Paulo, quem me convidou para realizar parte da pesquisa em Bremen. Terminei as disciplinas no Brasil, passei um ano acadêmico em Bremen e, como ganhei uma bolsa de estudos do governo alemão, decidi realizar a pesquisa toda na Alemanha e enfrentar os trâmites para um convênio de dupla titulação, processo esse que durou uns três anos. Em Bremen tinha acesso irrestrito a bibliotecas, periódicos eletrônicos, sala própria/individual totalmente equipada para trabalho, encontros semanais de discussão da pesquisa com meu orientador alemão e encontros periódicos para debates com as/os demais pesquisadoras/pesquisadores. Tudo isso, somado ao apoio incondicional e ao rigor acadêmico do meu orientador, foi decisivo para o meu desenvolvimento intelectual. Sem falar que foi uma das melhores experiências de vida no aspecto pessoal, pois Bremen hoje é minha segunda casa, onde mantenho muitos amigos que fiz dentro e fora da universidade.”
Pesquisador(a) visitante
Amanda Federico Lopes Fernandes
Mestre (2017-2020) e bacharel pela Faculdade de Direito da USP
“A minha experiência de internacionalização para fins de estudo e elaboração da dissertação do mestrado ocorreu graças ao fundamental apoio do Professor Fernando Dias Menezes de Almeida, do Departamento do Estado da Faculdade de Direito da USP e do Professor Hugues Fulchiron, da Université Jean Moulin Lyon 3.
Os desafios ligados à possibilidade de realizar um “intercâmbio de estudos”, com acesso à Bibliothèque Interuniversitaire Cujas, em Paris e aos acervos físico e digital das bibliotecas da Lyon 3, bem como de hospedar-me em moradia estudantil foram superados com o auxílio e presteza dos Professores.
A minha estada na França foi muito proveitosa em termos de concentração total para estudar, buscar bibliografia, refletir sobre o meu tema e produzir textualmente. Inclusive, pude contar com alguns encontros com o Professor Fulchiron para debater ideias ligadas ao meu tema e à legislação francesa.
Recomendo fortemente esse tipo de experiência enriquecedora nos mais diversos âmbitos: acadêmico, pessoal e até profissional.”
Ana Carolina A. Beneti
Doutoranda em Direito Internacional Privado pela USP e LL.M. pela LSE - London School of Economics and Political Science, Universidade de Londres
“A pesquisa no Max-Planck é um verdadeiro marco na minha carreira acadêmica. A minha pesquisa teve certamente um enorme desenvolvimento em virtude das estadias, durante o início da elaboração da Tese, no Instituto Max Planck de Direito Internacional Privado e Direito Privado Comparado em Hamburgo, na Alemanha.
O Max Planck de Hamburgo é uma das instituições líderes no mundo em pesquisas jurídicas em direito comparado nas áreas de direito civil privado, comercial, econômico e processual civil estrangeiro, europeu e internacional privado.
O Instituto disponibiliza ao Pesquisador Visitante (Guest) uma mesa que será sua durante toda a estadia e acesso direto aos mais de 550,000 itens impressos (o pesquisador pode entrar nos vários corredores da Biblioteca e selecionar os livros que precisa diretamente) e aproximadamente 1,600 revistas estrangeiras digitais, durante o período de pesquisa.
Além do acesso ao vastíssimo acervo especializado, o Max Planck de Hamburgo proporciona também contato com pesquisadores do mundo todo, professores do Max Planck e da Universidade de Hamburgo, o que fomenta o desenvolvimento de uma visão internacional e comparada do Direito, acrescentando à pesquisa um conhecimento acadêmico diferenciado e profundo em decorrência do fácil acesso à informação e de obtenção mais difícil no Brasil (ou não de uma forma tão concentrada).
O pesquisador brasileiro pode também ser convidado a discutir temas atinentes à pesquisa que está desenvolvendo em reuniões do Grupo Latino-Americano, do qual participa não só os pesquisadores do Instituto e comunidade acadêmica, mas também advogados e demais profissionais de Hamburgo.
O Instituto recebe anualmente um considerável número de pesquisadores brasileiros. O pesquisador interessado pode apresentar pedido de pesquisa diretamente ao Instituto, com cartas de apresentação e projeto de pesquisa, arcando com todas as despesas do período em Hamburgo (private). Outras opções são as bolsas de estudo oferecidas pelo próprio Max Planck de Hamburgo (normalmente por um período máximo de quatro meses) ou por instituições privadas brasileiras que tenham convênios para a promoção de intercâmbios de pesquisa, como é o caso do CAM-CCBC que oferece bolsa anual para estudantes de doutorado ou pós-doutorado brasileiros para um mês em Hamburgo.
Acredito, por fim, que os projetos de pesquisa, nas áreas de concentração do Instituto Max Planck, têm grandes chances de ser aprofundados de forma notável após um período em Hamburgo, estimulando, assim, a pesquisa científica não só de pesquisadores brasileiros, mas, também, daqueles de outras partes do mundo.”
Vivian Rocha
Doutora (2016-2019) e Mestre em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP
“Tive duas experiências de internacionalização durante meu doutorado. No primeiro, fui pesquisadora visitante por curto período de tempo na Universidade de Göttingen, na Alemanha. Tive a oportunidade de utilizar as facilidades da biblioteca, mesa para trabalho e dividia sala com outras três doutorandas. Também participei de alguns eventos organizados pelo professor que me recebeu. Não fui com bolsa, porém, a universidade me auxiliou para encontrar moradia estudantil em meu último mês lá. A principal barreira enfrentada foi ter ido no verão europeu, pois é bem nessa época que a maioria dos pós-graduandos e professores estão de férias, então, passei um tempo sem ter esse contato.
A segunda experiência foi na Universidade de Michigan, nos EUA, onde fui com Bolsa Doutorado Sanduíche da CAPES. Fiz um processo seletivo formal, em que tive de indicar o orientador pretendido (entrei em contato antes), a pesquisa e comprovar proficiência em inglês (foi importante ter os certificados atualizados na época). A orientação da faculdade foi muito organizada: tivemos uma semana de ambientação com palestras e eventos de integração, e esta foi realizada junto com os alunos de LLMs, quase todos estrangeiros e que também iniciavam seu curso. Ter ido no outono, início do ano letivo, foi fundamental para a minha experiência. Primeiro, para minha integração social, pois todos os pesquisadores e LLMs estavam muito abertos. Segundo, pois pude assistir uma disciplina desde o início e fazer parte das extensões da faculdade – fiz parte do editorial do Michigan Journal of Environmental and Administrative Law. Lá, os pesquisadores visitantes tinham uma sala própria, cada um com seu “gabinete”. O que me impressionou foi a estrutura que a universidade nos oferecia: o número de base de dados assinadas e a facilidade de pedir livros e cópias de partes do livro – tudo digital e nos enviavam para nossas mesas e e-mail. Ainda, tínhamos Colóquios semanais em que os pesquisadores e doutorandos apresentavam suas pesquisas e podíamos chamar um professor para comentar o trabalho. Por fim, tive a oportunidade de conhecer uma professora incrível que também ia de ouvinte na matéria que assistia, que acabou se tornando o referencial teórico da minha tese”.
LLM
Sarah Marinho
Doutoranda em direito na Universidade de São Paulo (2016-2021), mestra em direito e desenvolvimento pela FGV Direito SP e graduada em direito pela Universidade Federal do Ceará. Pesquisadora do CEPESP/FGV.
“A minha experiência com internacionalização durante o doutorado foi num curso de L.LM com ênfase em pesquisa jurídica na Universidade de Wisconsin. O caminho até lá não foi linear, e nem mesmo envolveu a percepção prévia de que o L.LM seria a experiência ideal. Pelo contrário, a experiência internacional em si era essencial, pois uma boa carreira acadêmica demanda a habilidade de atuar e publicar no exterior, mas sempre considerei que um período sanduíche seria o ideal por consistir numa dedicação completamente voltada para a pesquisa do doutorado. Contudo, como faço o doutorado direto e tenho mais tempo para a defesa, fiz vários applications, parte deles para bolsas de sanduíche, parte para L.LMs que tinham fundo de bolsas. No fim das contas, acabei escolhendo por cursar o L.LM em Wisconsin, embora tivesse tido também a oportunidade de ir como visitante para uma outra universidade nos Estados Unidos. Acredito que a experiência rendeu muitos frutos pessoalmente e academicamente, pois ser aluna numa universidade americana é uma experiência única, e o vínculo com a instituição permanece muito ativo mesmo depois do curso, pois isso é parte da cultura local. Creio, de toda forma, que a formação voltada para produção acadêmica no estilo americano foi o ponto mais forte do L.LM, o que me possibilitou entrar em contato com variados métodos de desenvolver um projeto acadêmico nos Estados Unidos e melhorou meu uso do inglês decisivamente. Hoje estou no fim do doutorado e sinto segurança para produzir com independência nessa língua.”
Fernanda Gianesella Bertolaccini
Doutoranda em direito internacional pela FDUSP, onde completou graduação e mestrado. Possui LL.M. com foco em sustentabilidade por Notre Dame Law School e trabalha com violência de gênero em Nova York, EUA.
“Durante meu primeiro semestre do doutorado, em 2018, Notre Dame Law School me agraciou com uma bolsa-diversidade integral para o LL.M. pelo meu trabalho com sustentabilidade, justiça social e ativismo LGBTI. Aceitar a vaga sem medo de perder o doutorado só foi possível com o apoio do meu orientador, que acompanhou o processo e revisou comigo as atividades que eu pretendia fazer em NDLS.
O LL.M. possibilitou contato direto com pioneiros da minha área. Fui exposta à diferentes correntes de pensamento, passei horas em bibliotecas e contei com infraestrutura e apoio ímpar. Questionei e enriqueci minhas premissas teóricas.
A principal dificuldade para minha internacionalização foi a burocracia da SanFran, à distância. Meu LL.M. não foi um convenio pela USP. Pelo regimento, há limite máximo de aproveitamento para créditos obtidos no exterior por instituições não conveniadas, após conversão de “horas-dentro-da-sala-de-aula”/crédito, o que dificilmente faz jus a sistemas de ensino de common law. Ao fim do primeiro semestre do LL.M fiz o pedido à CPG, que demorou mais de 4 meses para aprovar apenas 8 dos créditos pedidos – o mínimo necessário para que eu depositasse a qualificação.
Estou no último semestre do doutorado e ainda estou cumprindo créditos, porque os 16 créditos excedentes do mestrado não puderam ser aproveitados. Motivo? Quando do pedido tempestivo, o diploma do mestrado já havia sido emitido. Demorei 10 meses para descobrir a resposta. Seria impossível fazer o LL.M. e manter o doutorado sem bons amigos em São Paulo para caminhar pela burocracia franciscana.”
