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O prisioneiro foi ter com seu algoz. O algoz pouco se importava com o prisioneiro, queria comer seu lanche – que há muito já estava frio – com o sossego das horas de almoço. O prisioneiro, por sua vez, pouco se importava com o almoço do algoz, queria mais é resolver sua questão e conseguir o sossego da liberdade.

A liberdade lhe foi prometida há meses. Um tal de Senhor Excelentíssimo Juiz lhe havia concedido a liberdade depois de 7 meses de cadeia, uma cadeia deveras estranha; mas não deixava de ser cadeia. O prisioneiro caminhava até a sala do seu algoz. Lembrava. Naquele corredor ele fizera amigos. Amigos de cadeia, que estavam na fila para ir ter com o algoz; todos tentavam abrandar suas próprias penas. A vontade de abrandar as penas os uniu em uma verdadeira amizade humana. Tentaram um motim certa vez, mas eles mesmo se reprimiram, tiveram medo de piorar a pena ao invés de abrandá-la. Muitos nem sabiam o que era abrandar, porém o Senhor Excelentíssimo Juiz dizia com frequência. O prisioneiro batia na porta do seu algoz.

Já passaram 7 meses. Que tenho eu com isso? O Senhor Excelentíssimo Juiz me disse seria livre após 7 meses. Problema dele e seu. Eu exijo vê-lo. O algoz se levantou, descansou o sanduíche sobre a mesa e fitou o prisioneiro com tamanha raiva que seria capaz de matá-lo ali mesmo. “O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação”. De algum modo o prisioneiro ouvia o algoz dizer essa frase sem que ele mexesse um músculo facial, como se estivesse lendo sua mente. O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação. O que disse? Não falei nada porra, tá ficando louco agora? Desculpa, mas e então, já se passaram 7 meses? Volta pra sua cela, depois eu resolvo.

No corredor ainda ouvia ressoar na sua mente. O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação. Ele era desgraçado? Devia ser, estava preso. Afinal só se prendem desgraçados. Já não se lembrava que crime cometera, apenas que não podia sair daquele local, não podia expressar opinião, nem ter desejos sexuais. De resto podia tudo, podia comer à vontade, matar os colegas de prisão, se meter em brigas, enfim podia tudo. O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação.

O prisioneiro foi ter com seu algoz. Entrou na sua cela e se mirrou no espelho. De algum modo seu rosto lhe parecia estranho, mas familiar. Parecia que já tinha visto aquele rosto em outros corpos. Como se ele estivesse a figurara nas caras de estranhos. Uma dor de cabeça lhe atingiu a fronte. Foi pedir na enfermaria um remédio. Sem remédios pra você hoje. Mas to com dor de cabeça. O Senhor Doutor, por ordem do Senhor Excelentíssimo Juiz, lhe liberou dos remédios. Até os controlados? Sim. Mas me diziam que morreria sem. Um rosto – até que parecido com o seu ou o que ele vira no espelho – lhe dizia que não podia fazer nada.

O prisioneiro foi ter com seu algoz. Entrou na sua cela e se mirou no espelho mais uma vez. Tinha certeza que aquele era o rosto do enfermeiro que o atendera. Tinha certeza. O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação. O Senhor Doutor, por ordem do Senhor Excelentíssimo Juiz, lhe liberou dos remédios. Devia estar é delirando de dor. Decidiu dormir um pouco; afinal, às vezes, as coisas reais são um pouco delirantes.

O prisioneiro foi ter com seu algoz. Com a cabeça repousada e confortável no travesseiro - mas sem nenhum conforto no seu interior -, ele pensava no que teria feito para ter ido parar ali. Roubou algum carro? Matou alguém? Estuprou? Roubou ou matou? Roubou. Não, não, certamente matou. Fato é que não se lembrava, apenas escolhia, momentaneamente, o que mais lhe convinha na sua lógica. Sem lograr êxito na tentativa de adormecer, levantou-se e olhou-se no espelho. Com certeza era alguém conhecido, mas quem? Seria ele que cometera o crime? Fora aquele rosto mas em outro corpo? O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação. O Senhor Doutor, por ordem do Senhor Excelentíssimo Juiz, lhe liberou dos remédios.

O algoz foi ter com seu prisioneiro. Escuta, é o seguinte, realmente o Senhor Excelentíssimo Juiz lhe deu liberdade após 7 meses, mas o problema é que não posso executar a ordem. Por quê? O algoz lhe fitou com dó. Por que sou desgraçado? Não falei nada disso, você não deve ser um desgraçado. Desculpa, posso ter com o Senhor Excelentíssimo Juiz? Pode ir até a sala dele. O algoz se retirou da cela. O prisioneiro mirou-se no espelho. Certamente era o algoz e o enfermeiro, mas estava apresentável para o Senhor Excelentíssimo Juiz.

Com licença, Senhor Excelentíssimo Juiz. Pode entrar. Pois então… passaram-se os 7 meses. Passaram-se? Sim. Creio que você errou na conta. Errei? Com certeza. Faltam quantos? Silêncio. Silêncio. Você entrou ontem, ainda lhe restam 7 meses. Silêncio. Silêncio. Posso me retirar? Claro.

O prisioneiro foi ter com seu algoz. Na cela, olhou-se, novamente, no espelho. Parecia familiar, mas em um corpo estranho. Certamente já vira aquele rosto no algoz, no enfermeiro e no Senhor Excelentíssimo juiz. O desgraçado atrapalhou meu almoço, devia ser condenado por insubordinação. O Senhor Doutor, por ordem do Senhor Excelentíssimo Juiz, lhe liberou dos remédios. Você entrou ontem, ainda lhe restam 7 meses. Uma dor de cabeça enorme lhe afligia. Levantou-se. Foi até o portão e saiu. Ninguém o impediu.

Já na rua, viu um rosto diferente. Finalmente um rosto estranho em um corpo estranho. Era um velho. Quando chegou mais perto lembrou-se do espelho. Nunca tinha repousado os olhos em alguém tão diferente, tão envelhecido, tão natural e tão autêntico. O senhor sabe de alguma cadeia por aqui? Sei sim, já estive lá. O que o senhor fez para ser libertado? Descobri tudo. Como assim? Nunca ia sair, simplesmente fugi; não dependia de mim a minha estadia lá. Dependia de quem? De você. Eu? Mas quem dá liberdade é o Senhor excelentíssimo Juiz. Pois é. Silêncio. Silêncio. Não entendo. Rapaz, todos os funcionários e colegas não lhe pareciam semelhante demais com você? Sim. Pois é, todos usam a mesma máscara e constroem a mesma prisão. O velho finalizou dizendo que bastava retirar a máscara e viver.

A máscara estava muito colada. Doeu muito para retirar. Pela primeira vez em sua vida foi se ver em um espelho sem ir ter com seu algoz. Se mirou. Fitou-se. Era diferente. Era único. Lembrava de tudo. Sorria. Caminhava sem destino, livre e feliz. Um dia encontrou o velho, que, graças a Deus, não lhe era nada familiar. Aquele lhe gritou no meio da rua, como esses loucos desvairados: NOSCE TE IPSVM.

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