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Em 2002, o aluno Thiago Magalhães e seus amigos decidiram convidar o professor Olavo de Carvalho e o professor Alaor Caffé para realizar um debate sobre o tema Marxismo, Direito e Sociedade. O debate foi realizado na sala dos estudantes e as regras seriam trinta minutos para cada debatedor, começando pelo professor Alaor, seguidas de mais 15 minutos para réplicas e por fim serão permitidas perguntas pelos alunos.

O debate se inicia com o professor Alaor introduzindo o assunto afirmando que Marx nunca escreveu sobre o direito em suas obras, o direito marxista foi elaborado por outros autores que vieram depois de Marx e se inspiraram em sua obra. Após essa breve exposição, o professor da faculdade faz uma comparação entre a visão de mundo de Marx e a de Hans Kelsen. Em síntese, ele diz que Kelsen tinha uma visão estática e consequentemente positivista do mundo, enquanto Marx observava o mundo sob a perspectiva da materialidade que consiste em observar a relação entre o homem e o objeto sendo o objeto como algo que preenche, dá significado e um objetivo ao ser humano. Por fim, Alaor Caffé faz uma análise do final do feudalismo sob uma perspectiva marxista e diz que o desenvolvimento tecnológico fez com que aumentasse a produção e assim começou a venda do trabalho braçal em troca de pagamento. Com essa nova conjuntura, surgiu uma liberdade entre os populares que não existia antes e, assim, surgiu o contrato e consequentemente todas as figuras jurídicas do direito civil.

Olavo de Carvalho, por sua vez, começa sua fala tentando definir o que é, em sua natureza, o comunismo. O professor explica que, após vinte anos de estudo, chegou à conclusão de que o comunismo é uma cultura, no sentido antropológico do termo. Nas palavras do filósofo de Virgínia, o comunismo possui um complexo inteiro de crenças, símbolos, discursos, reações humanas, sentimentos, lendas, mitos, sentimentos de solidariedade, esquemas de ação e, sobretudo, dispositivos de autopreservação e de autodefesa. Como resultado da autopreservação da cultura marxista é que se vê diversos pensadores e intelectuais de esquerda que afirmam que o “verdadeiro comunismo” nunca existiu, que os mais de 100 milhões de mortos provenientes do comunismo foi devido a um desvirtuamento das ideias de Marx. Com efeito, o comunismo deve ser tentado de novo, não importa que morreram mais pessoas por conta do comunismo do que por conta de todas as guerras da história, só que dessa vez ele dará certo porque será empregado o verdadeiro comunismo. Após essa reflexão sobre a cultura esquerdista, Olavo de Carvalho comenta a visão do direito marxista e a positivista. Olavo afirma que a visão positivista de Kelsen é errada, mas não o crucifica pois entende que ele pertencia a um movimento que tendia a analisar as coisas em si mesmas - sendo este o motivo do livro de Kelsen se chamar Teoria Pura do Direito. Por fim, Olavo encerra sua fala criticando o fato de Marx dizer que a realidade social dos homens determina a sua consciência e contesta o professor Alaor dizendo que o que encerrou o feudalismo não foi o acúmulo de produtos - o feudalismo foi derrubado quando o rei, que era um primus inter pares , decide derrubar os seus pares e tornar-se o primus “sem pares”.

Alaor Caffé, em sua réplica, inicia afirmando que discorda do pensamento de Olavo de Carvalho no tocante ao comunismo ser uma cultura. Para ele, o marxismo é apenas uma ideologia que foi escrita por Marx. O professor entende que houve diversas pessoas que escreveram baseadas em Marx, mas que cada um tem sua própria ideologia. Contudo, o professor crê que pouco importam a quantidade de pessoas que escrevam sobre o comunismo enquanto isso não mudar a realidade na qual o mundo vive: a maior parte da população brasileira é trabalhadora e, no entanto, não existe um só trabalhador no Congresso. Nenhuma ideologia pode mudar isso, nem a marxista tampouco a liberal. O acadêmico franciscano também critica o gasto de 450 bilhões de dólares por ano que os Estados Unidos destina ao seu exército e indaga quantos países seriam retirados da extrema pobreza caso esse dinheiro fosse destinado a eles. Alaor afirma ainda que Marx entendia que a ideologia e os ideais de um indivíduo são condicionados pela sua condição social. Como conclusão, ele afirma que esse modo de agir e pensar deve ser mudado com uma nova revolução, só que sem cometer os erros do passado uma vez que a revolução, para Marx, não precisa ser violenta, pois o mercado deve ser contraposto pela democracia participativa. Desse modo, o mercado deve  sofrer impactos restritivos “em prol da comunidade, em prol da dignidade humana, em prol da distribuição para os homens, em prol da paz entre os homens”. 

Olavo de Carvalho, em sua tréplica, inicia confrontando a ideia do professor Alaor de que o grande causador da miséria é o mercado descontrolado. Nesse momento, o professor Alaor faz uma interferência e crítica Olavo alegando que ele está distorcendo o que ele disse. O filósofo Olavo de Carvalho mandou o professor ficar em silêncio pois não lhe deu aparte. Olavo continuou mostrando que os países mais desenvolvidos apresentam maior índice de liberdade econômica enquanto os países com índice baixo são autoritários e pobres. Depois, Olavo ele retoma o tema abordado por Alaor de que não existem trabalhadores no Congresso, contudo existem pessoas lá que legislam a favor do proletariado. Isso implica que a ideologia e os ideais do indivíduo não são de maneira alguma condicionados nem determinados pela sua condição social. Isto posto, Olavo introduz um novo conceito que ele denomina como “burguesia virtual”. Eis a explicação do conceito nas palavras do próprio Olavo:

“Desde o reinado de Luís XIV se começa a formar, para fins militares, um princípio de organização burocrática estatal. Aos poucos essa organização burocrática vai tirando da aristocracia feudal as funções locais que elas exerciam (por exemplo, tribunais, juiz de paz, coleta de impostos etc.) e passando para a burocracia. É evidente que os aristocratas perdiam a sua função sem perder a sua quota dos impostos, criando então uma classe ociosa imensa, contra a qual se volta, com toda justiça, a Revolução Francesa dois séculos depois. Mas ao mesmo tempo que se forma a burocracia estatal, para preenchê-la é necessário ter funcionários preparados. Para ter funcionários preparados, é preciso haver uma expansão do ensino. Então cria-se, para uma multidão de pessoas de todas as origens sociais mais pobres, desde a pequena burguesia até os camponeses, uma promessa de subir na vida através do funcionalismo público. Este é um fenômeno inédito na História. E acontece que o funcionalismo público cresce, a burocracia cresce, e junto com ela cresce o ensino. Mas, naturalmente, o número de candidatos cresce formidavelmente mais. E com isso se cria uma legião de pessoas que têm alguma instrução e que aspiram ao cargo público e não o têm. É a esta classe que eu chamo a burocracia virtual .”

Ex positis, Olavo de Carvalho continua afirmando que, se for parar para analisar a história de todas as revoluções, chega-se à conclusão de que a classe revolucionária pertencia à “burguesia virtual”. E mais ainda: em toda revolução, a única parte da sociedade que sai ganhando é a própria burguesia virtual que, ao assumir o poder, legisla em causa própria conforme diz o próprio León Trotsky: “O encarregado da distribuição jamais se esquecerá de distribuir a si próprio em primeiro lugar”. Isto posto, Olavo reforça que o marxismo é uma cultura, e não apenas uma ideologia conforme o professor Alaor havia dito antes, e o diferencia de uma religião e cita o exemplo de George Dimitrov e como o seu depoimento na corte alemã foi utilizada para encobrir a colaboração profunda da URSS com o fascismo. Por fim, o tema contemplado é a vigarice de Karl Marx, pois, além de conceituar o “materialismo” como a ação transformadora do homem sobre a matéria sem dizer o que seria a “matéria”, Marx ainda falsificou documentos e fontes a respeito da revolução industrial em seus livros além realizar interpretações sabidamente errôneas de outros autores.

Após o término de sua fala, iniciou-se uma pequena balbúrdia no ambiente pois o professor Alaor queria rebater as acusações de Olavo sobre a idoneidade de Marx. Após uma discussão, ficou acordado que tanto o professor Alaor quanto o filósofo Olavo de Carvalho teriam mais dez minutos para fazer suas considerações finais. 

Eis que o professor Alaor sustenta que Olavo não pode chamar Marx de vigarista uma vez que Marx era um homem sério e que o conceito de “materialismo histórico” é posterior a Marx, logo ele não poderia conceituar o que seria a materialidade.

Já o professor Olavo, em suas considerações finais, reiterou que Marx era um charlatão citando que todos os Blue Books utilizados por Marx em seus livros estão na biblioteca do Museu Britânico e podem ser consultados para comprovar a fraude que era Marx. Por fim, comenta o fato do professor Alaor ter ficado chocado com a nova visão sobre o nazismo que ele apresentou no debate, mais especificamente no caso de George Dimitrov.

Encerrados os debates orais, iniciaram-se as perguntas. Os alunos que assistiam ao debate poderiam fazer questionamentos e escolher o Professor Alaor ou o Filósofo Olavo para respondê-los. 

Quase todas as perguntas foram construtivas e tudo ocorreu bem. Contudo, a penúltima pergunta gerou conflito. Tanto por sua acidez, uma vez que o aluno se referiu ao professor Carvalho como “um”, quanto pela ofensa do professor Alaor à sanidade mental do filósofo.

A pergunta foi: “Eu acho as posições dos dois muito radicais, né. Então, eu queria saber a opinião de “um”, que coloca que aparentemente não há solução, e a do professor, que o sistema capitalista não seria a solução. Eu queria saber se dentro do próprio sistema capitalista vocês não acham completamente inviável uma coisa que o pessoal abomina: o hobbesianismo, o princípio do interesse próprio. Na verdade o interesse próprio de cada indivíduo capitalista, digamos, não pode encaminhar em direção ao interesse social, sem pensar num idealismo romântico, sem apelar para o bom senso ou para a caridade, mas que o próprio capital para se manter ele vai criar, e cria – como tem criado – a função social das empresas, a ação voluntária das pessoas, para desenvolver os próprios mercados que ele quer explorar e não, ao contrário, destruir mercados dos quais ele precisa.”

Alaor iniciou a resposta dizendo que as mudanças tecnológicas farão com que os trabalhadores percam seus empregos. Desse modo, eliminada a mão de obra, os mais pobres não terão renda, logo não conseguirão comprar e consequentemente o capitalismo acabará. O filósofo da Virgínia concorda que é realmente possível que o capitalismo acabe, uma vez que até mesmo o socialismo acabou. Nesse momento, o professor Alaor contesta afirmando que o socialismo não acabou, ele sequer nem começou. Olavo de Carvalho então começa a rir e satiriza essa resposta do professor. Depois ele continua, ao afirmar que o capitalismo tem de fato seus defeitos e até uns aspectos demoníacos, mas que nunca se comparará a União Soviética e os milhões de mortos pelo governo comunista.

Nesse momento, Alaor se enfurece e começa a dizer que se juntar todas as guerras geradas pelo capitalismo, elas mataram tanto quanto o comunismo. Olavo rebate que o número de cem milhões de mortos pelo comunismo só é alcançado caso se somem todas as vítimas da segunda guerra mundial (cinquenta milhões, todas as vítimas de ambos os lados) com as vítimas da revolução espanhola (de todos os lados), e mais as vítimas da primeira guerra (de todos os lados). Olavo conclui que isso é charlatanismo e que todo marxista é charlatão.

Indo para a última pergunta, o aluno faz suas considerações a respeito do debate, pede pros debatedores comentarem o fundamento do marxismo da interação do homem com a natureza e o fato de Marx querer acabar com o mercado ao invés de apenas planificá-lo, como fizeram os governos socialistas do século XX. Por fim, ele pede ao professor Olavo que comente sobre um artigo que ele havia escrito na folha de São Paulo sobre o FHC a respeito de sua relação com o MST e a vontade dele de transformar o Brasil em um país socialista.

Olavo responde que FHC foi o maior financiador do MST até aquele e que sem ele o MST não existiria. No tocante a socialização da América Latina, Olavo cita os artigos de Alain Touraine na Folha de São Paulo, que era um grande influenciador de FHC. Por fim, ele conclui que não tem certeza se esse era realmente o plano do FHC, mas que são dois fatos e que essa pode ser a ligação entre eles.

Alaor, por sua vez, concorda com as considerações do aluno e lamenta que o debate tenha fugido dos temas citados. O mestre continua dizendo que foi uma vítima da direita (?), uma vítima do grupo TFP (tradição, família e propriedade) de Plínio Corrêa de Oliveira que fala que tudo de ruim que acontece no mundo é culpa da esquerda. Ele diz que a única coisa que a esquerda quer fazer é criar uma sociedade mais igualitária onde exista menos desigualdade entre os homens. Diz que a esquerda tem que criar uma nova utopia para seguir, uma nova panaceia. Deve deixar de tentar aplicar Marx do século XIX na atualidade e aplicar algo novo, que seja melhor e que possa criar uma sociedade mais justa. Depois ele critica Olavo de Carvalho, afirmando que ele se finge de neutro quando na verdade é o “arauto da direita”  que acha que a União Soviética não acabou, colocando a questão de que o FMI é de esquerda, os EUA é de esquerda, Rockefeller é de esquerda. Conclui que Olavo é maluco e possui sérios problemas emocionais por acreditar e dizer isso.

Nesse momento, Olavo de Carvalho responde:Ora, o prof. Alaor tem a pretensão de diagnosticar os meus problemas emocionais. Dele, eu só diagnostico uma coisa: ignorância. Primeiro, ignorância dos escritos de Marx. Ele diz que a matéria é função da produção; Marx diz exatamente o contrário: Marx subscreve inteiramente as concepções atomísticas de Demócrito e aceita a ciência newtoniana como a tradução perfeita da realidade. Ademais, a idéia de uma dialética interna da matéria está exposta nos escritos do próprio Engels e faz parte da tradição do movimento comunista. Abolir tudo isso, dizendo que Marx só falou da produção é absolutamente ridículo, é coisa de ignorante, para não dizer mentiroso. Não o acuso de mentiroso mas o acuso de ignorante. Em segundo lugar, com um homem que chega para mim e diz por um lado que “ah, esse momento é da esquerda, a esquerda está com tudo” e, por outro lado, diz que não existe esquerda nenhuma, em algum ponto a coisa está falhando. Em terceiro lugar, o conselho de “esqueçamos a História, nada disto aconteceu, vamos tentar de novo, vamos confiar”, isso é uma palhaçada, isso é pueril. Não se pode aceitar uma discussão nessa base.”

E, por fim, pouparei-me de descrever os xingamentos de um ao outro e apenas transcreverei o que foi dito após essa fala de Olavo.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Bem, eu evidentemente não estava esperando essa agressividade. Essa foi demais.

OLAVO DE CARVALHO : Agressividade é a sua, que começa a falar em problemas emocionais.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Veja bem, tem de respeitar. Chamar a gente de ignorante, e pressupor que eu não conheça Marx…

OLAVO DE CARVALHO : Pressupor não: afirmo!

ALAOR CAFFÉ ALVES : … e ele diz também que quatro décadas foi do Partido Comunista. Maluco isso! Nunca foi coisa nenhuma! Foi nada!

OLAVO DE CARVALHO : O quê? Está me acusando de mentiroso?

ALAOR CAFFÉ ALVES : O senhor me acusou de mentiroso aqui.

OLAVO DE CARVALHO : Não, eu te acusei de ignorante.

ALAOR CAFFÉ ALVES : [Palavras inaudíveis.]

[Tumulto.]

OLAVO DE CARVALHO : Você é que está mentindo.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Você é que me xingou!

OLAVO DE CARVALHO : Você é mentiroso! Safado!

ALAOR CAFFÉ ALVES : Ele vem aí com coisa [palavras inaudíveis] anti-socialista ou antimarxista e vem dizer que já foi, sabe, e conhece tão profundamente. Imagine que ele agora não é, porque ele analisou tão profundamente isso e está dizendo…

OLAVO DE CARVALHO : Pois foi exatamente isso que você nunca fez.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Ora, pelo amor de Deus!

OLAVO DE CARVALHO : Você é um idiota.

Alaor Caffé Alves : Olha aí! Quer dizer, eu estou falando ao mesmo tempo; agora, se você disser que eu sou idiota. Olhem, vocês me perdoem. Eu sou da Facvldade. Eu não vou permitir uma coisa dessa! Isso é uma agressão pessoal. Eu esperava…

OLAVO DE CARVALHO : Você me agrediu primeiro, falando de problemas emocionais.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Eu comecei muito bem, dei para vocês o mais possível a minha idéia a respeito de um conceito sobre Direito, sobre a questão que o Marx colocou; e a coisa foi num crescendo que eu não vou me admitir, vocês me perdoem.

ALGUÉM DA PLATÉIA : Está fugindo?

ALAOR CAFFÉ ALVES : Estou fugindo. Vou fugir. Estou fugindo para respirar. Eu sei que vocês, grande parte de vocês, foram mobilizados. Houve uma mobilização aqui, séria, grave, séria, e eu não vou me permitir, como professor da casa, ser agredido dentro da minha casa, por uma pessoa como esta. Vocês me perdoem.

* * *

Epílogo, conforme narrado por Olavo de Carvalho: Ao final dos debates, há um tumulto geral, aplausos e vaias misturam-se de maneira indiscernível. A maior parte das vaias condena a atitude de desistência do prof. Alves, mas num canto da sala ouve-se distintamente o refrão gritado por um grupo organizado de jovens de idade manifestamente inferior à da média da platéia: “Alerta! Alerta! Alerta aos fascistas! A América Latina será toda socialista.”. – O. de C.

Eis o primeiro de uma série de debates e discursos franciscanos que marcaram a história. Espero que gostem!

Fonte: olavodecarvalho.org

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