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O jovem prodígio alemão que fundou a sociedade mais importante da política brasileira da Primeira República. Uma vida cercada de mistérios, seja nos estudos ou no seu possível passado de assassinato ou de príncipe ilegítimo. Essa é a história de Julius Frank

Assim que se passa por um dos três pórticos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco é possível avistar um obelisco localizado à esquerda, em um pequeno pátio. Essa é tumba de Julius Frank.

Johann Julius Gottfried Ludwig Frank – ou Július Frank por entre as Arcadas – nasceu na cidade de Gotha, na Alemanha, no ano de 1808. Foi um universitário que imigrou para o Brasil em 1828 e ao entrar em contato com a recém criada Faculdade de Direito fundou a Bucha Paulista, uma sociedade secreta que influenciou a política nacional. (Se você ainda não sabe o que foi a Bucha, clique aqui e confira nossa matéria)

O pequeno encadernador de livros

Nascido em uma família sem notas de nobreza, Julius Frank era filho de Carlos Frederico Frank, um encadernador de livros, e Carlota Frederica, filha do mestre encadernador da corte. Ainda criança, demonstrava interesse pelos estudos, contudo, começara a trabalhar com o pai desde novo.

Ainda assim, aos 12 anos já ministrava aulas particulares e, aos 17, ingressou na Universidade de Gottingen, na Baixa Saxônia. Segundo o que se sabe, era um aluno aplicado, tanto nas ciências humanas quanto nas exatas.

O fato de ser exemplar nos estudos não o fez ficar longe de problemas. Devido às brigas e problema com credores foi expulso da Universidade e teve de sair fugido da cidade. Primeiramente foi para Leipzig e depois chegou a Berlim. Sua vida continuava difícil financeiramente. Voltou a dar aulas particulares, mas teve inúmeros problemas devido à dificuldade de obter a documentação de seu estudo universitário.

Desejando sair da Alemanha, o jovem conseguiu uma oportunidade de vinda ao Brasil.

O trajeto transatlântico

Após negociar com o capitão do barco, Julius trocou a passagem por serviços de faxina. Os primeiros dias em alto mar foram marcados por fortes enjôos em uma viagem nada agradável.

Logo quando chegou às terras brasileiras, no Rio de Janeiro, ficou preso no Forte Tamandaré da Laje por conta de desentendimentos com o capitão da embarcação.

Assim que saiu, soube de uma caravana em destino a São Paulo e após um mês de viagem a cavalo chegou à capital. Então, seguiu para Sorocaba, seu destino em uma fábrica de ferro que empregava diversos alemães.

Estabelecendo-se em terras tupiniquins

Depois de fixado em Sorocaba, trabalhou como caixeiro de uma loja e dava aulas particulares.

Juntamente com alguns estudantes universitários, Frank se direcionou à pequena São Paulo dos anos 1820. Conseguiu estada em uma república universitária e voltou a dar aulas para se sustentar.

No ano de 1834, apareceu uma grande oportunidade, a convite do Presidente da Província, Rafael Tobias Aguiar, foi chamado para ministrar aulas de Geografia e História no Curso Anexo da Academia de São Paulo – que servia como espécie de curso pré-vestibular.

Deste modo, foi adquirindo contato e influência com os alunos do Largo São Francisco, seja por suas aulas, pelas suas ideias liberais europeias - ainda pouco conhecidas no Brasil.

A morte e o Túmulo

Em 19 de junho de 1841, aos 32 anos, Julius Frank morreu devido a uma pneumonia. Por não haver ainda cemitérios públicos, os enterros ocorriam em propriedades da Igreja. Por ser oriundo de família protestante – ainda que sem ter religião –, seu corpo foi encaminhado a um desprestigiado cemitério no bairro da Liberdade, chamado de Cemitério dos Aflitos, onde enterrava-se condenados da justiça, escravos e pobres.

O fato causou forte incômodo aos alunos do professor Julius. Então, conseguiram uma autorização para enterrá-lo em um dos pátios da Faculdade, onde está até hoje.

O túmulo sobreviveu à demolição do prédio em 1930. Ainda conta com o obelisco ao centro com seu epitáfio, cercado de quatro Corujas de Minerva que representam a Filosofia e são símbolos das lojas maçônicas da Ordem dos Iluminados da Baviera.

As histórias que não te contaram

O polêmico intelectual Gustavo Barroso, em seu livro História Secreta do Brasil, levanta uma teoria de que Julius Frank é apenas um heterônimo de Karl Ludwig Sand. Em 1820, Sand foi condenado pelo assassinato do dramaturgo August von Kotzebue. Ao que se sabe, von Kotzebe, a mando do czar, atuava como um espião russo enviado para estimular discórdia a fim de atrasar a unificação da Alemanha.

Já não mais restam dúvidas de que se trata de uma teoria falida, visto que se tem comprovada a decapitação de Sand em 1820, quando Julius ainda tinha 12 anos de idade.

Outra história tem origem com jornalista Carlos von Koseritz, que publicou em 1885 um livro chamado Bilder aus Brasilien (Imagens do Brasil, em tradução literal), onde levanta uma hipótese de que Julius Frank era um filho ilegítimo de alguma família da nobreza. Essa história está presente, também, no livro A sombra de Julius Frank.

Adam Weishaupt era um professor universitário próximo do pai de Carlota Frederica. Sabendo do casamento da jovem, ele acorda com o pai dela a entrega de uma criança que recebera para cuidar. O bebê seria um príncipe alemão ilegítimo.

Mandaram-me nada menos do que uma criança que não devia nascer, mas nasceu. É de nobre estirpe e precisa ter pais, sejam eles quais forem, até o dia em que os verdadeiros possam aparecer […] (A Sombra de Julius Frank)

Segundo a narrativa do livro, a criança era:

[…] um ser pequenino, róseo e manhoso, nascido não se sabe onde nem de quem, mas em cujas veias devia correr sangue azul […]

A grande surpresa do caso se dá por conta de Carlota e Carlos terem levado o bebê para ser batizado apenas um mês após o casamento, o que levantou grandes suspeitas ao sacristão da igreja local.

Não se sabe ao certo se de fato Julius era da realeza alemã, mas diante de tantas excentricidades que passaram pelas Arcadas, um príncipe bastardo dando aulas regulares não seria completamente inusitado.

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