MACHADO DE ASSIS CORRESPONDENTE DE UM JORNAL DAS ARCADAS

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Ao compulsar a obra de Machado de Assis, comum é se deparar, aqui e ali, com algum personagem que veio ao Largo São Francisco estudar Direito. Ora, personagens notáveis, tais como Bentinho e o Conselheiro Aires, pintam muito bem este quadro, que, numa palavra, não é outra coisa senão o demonstrar de determinado excerto do percurso das elites brasileiras.

A relação de Machado de Assis com a Academia de São Paulo, no entanto, não se adstringe apenas a tal circunstância. Digo, o cantor das Crisálidas, no início de sua carreira literária, teceu, ainda que de maneira breve e esparsa, algumas contribuições a um jornal estudantil das Arcadas, a saber, a Imprensa Acadêmica.

A Imprensa Acadêmica, tal como é esta garbosa Gazeta, era o jornal oficial dos estudantes da Faculdade. Dizia ser, conforme sua epígrafe, um jornal comercial, agrícola, noticioso e literário; consta de seus registros que sobreviveu entre os anos de 1864 e 1871 e que, a título de distinção, teve como redator-chefe figuras como Afonso Pena e Rodrigues Alves.

No ano em que a Imprensa saia do prelo (1864), Machado de Assis, além de preencher uma cadeira de jornalista no conceituado Diário do Rio de Janeiro, tinha já publicado um sem número de poesias, contos, peças teatrais e crônicas. De tal sorte, reputava-se-lhe tal ou qual consideração perante os círculos intelectuais da época, sobretudo o universitário.

Não se demorou, pois, para que os estudantes de São Paulo o instassem, por meio de correspondências, que enviasse uma ou outra colaboração à Imprensa.

Deves tratar de tudo”, dizia um Sizenando Nabuco em correspondência.

O vate fluminense não prescindiu do convite e contribuiu em dois momentos. Em 1864, sob o pseudônimo de Sileno, sobrescritou nove matérias; e, posteriormente, em 1868, enviou mais duas, aqui usando o pseudônimo Glaucus. Todas elas foram publicadas na seção “Correspondência da Corte”.

Já visível o fidalgo estilo literário do autor, tais contribuições versavam a respeito dos principais acontecimentos da Corte, que iam desde uma crise comercial até um crime cometido na praça.

Vejamos alguns trechos que sobreviveram ao tempo, preservados na Hemeroteca Digital:

CORRESPONDÊNCIA

Imprensa Acadêmica

CORTE, 21 DE SETEMBRO DE 1864.

Na minha passada correspondência dei notícia do começo da crise comercial.

O abalo público acha-se felizmente desfeito, graças as medidas tomadas pelo governo, a instâncias de alguns jornais, do conselho de estado e do comercio.

Mas antes que isto se alcançasse, andamos durante uma semana atordoados e apavorados.[…]”

CORRESPONDÊNCIA DA CORTE

Imprensa Acadêmica

CORTE, 31 DE JULHO DE 1868.

[…] Como verá pelas folhas, os dois sucessos militares custarão precioso sangue aos aliados, mas estão longe de ser um desastre igual ao de Curupaiti, a que os compararão os jornais de oposição à aliança no rio da Prata. […]”

CORRESPONDÊNCIA DA CORTE

Imprensa Acadêmica

CONTINUAÇÃO

[…] Não sei se se lembra de um célebre Stewart que a polícia encarcerou há cerca de quatro meses. O “Jornal do Commercio” publicou ontem a sentença. O processo naturalmente será julgado na próxima sessão do júri, e já se pode prever que a sessão do julgamento será concorrida. […]”


A última Correspondência da Corte que saiu da pena de Machado de Assis data do dia 20 de agosto de 1868.

Por fim – como poderia esquecer! –, houve, na Imprensa, um outro episódio digno de menção. Correu no periódico do dia 11 de agosto de 1864 que, neste mesmo dia, a peça “O Caminho da Porta”, de Machado de Assis, foi representada, a propósito das festividades da fundação dos cursos jurídicos no Brasil.

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