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“Todo oriental é igual”, “Para uma oriental você é muito bonita”, “Abre o olho japonês”, “Oh, japa!”. Você já escutou, falou ou pensou em alguma dessas frases? Muitas vezes elas são reproduzidas inconscientemente, de modo que não se percebe o quanto são problemáticas. E o Coletivo Dinamene tem o intuito de aproximar essa questão das Arcadas e de ser um grupo de pertencimento aos franciscanos asiáticos.

Uma mulher de ascendência japonesa ser agredida verbalmente no metrô, a proibição de chineses e coreanos de subirem pelo elevador social e gritos de “olha aí o coronavírus” no carnaval são alguns dos inúmeros retratos da atual situação no Brasil. Onde, principalmente desde o início do surto do novo coronavírus (COVID-19), inúmeras pessoas de ascendência asiática vêm sofrendo ataques racistas e xenofóbicos. Devido a isso, mais do que nunca, tornou-se extremamente importante discutir questões sobre como o asiático é visto no Brasil, quem são eles, o racismo em relação à esse grupo, a fetichização de mulheres asiáticas e a questão identitária asiática brasileira.

O Coletivo Dinamene é o coletivo asiático da Sanfran. Foi criado no começo desse ano, por duas alunas, Ana Kinukawa e Leila Higa, que começaram a chamar alunos da faculdade que possuem ascendência asiática para fazer parte dessa iniciativa. Ele foi inspirado no Coletivo Labibe Yumiko, o coletivo asiático da USP. A primeira reunião se deu logo antes das aulas começarem, e desde então ela têm sido feitas toda sexta-feira, em horários alternados.

Antes de mais nada, o coletivo coloca como seu principal papel o da solidariedade antirracista. É importante ressaltar que existe uma diferença entre não ser racista e ser antirracista. Ser antirracista exige posicionamento ativo; demanda ação; e é dessa forma que o coletivo pretende agir, como mais uma força aliada aos demais grupos da faculdade que enfrentam o racismo. Dessa forma, o grupo tem como intuito o de discutir e combater o racismo sofrido pelos asiáticos brasileiros, vindo tanto dos não asiáticos como entre as comunidades asiáticas e dentro delas. O racismo sofrido por eles não é, como no caso dos negros e indígenas, um racismo explicitamente institucionalizado. Ele se dá principalmente na forma de micro agressões, que os colocam como “outros”, “exóticos” e como se fossem estrangeiros. Isso acarreta, na fetichização das asiáticas (principalmente), algo que é combatido veemente pelo coletivo.

A questão identitária é muito discutida no coletivo: quem são os asiáticos, como eles são vistos no Brasil, as crises identitárias que muitos têm, os padrões de beleza, etc. Importante ressaltar que apesar de o grupo se identificar como descendentes de asiáticos, eles buscam o pertencimento, a brasilidade. E essa ideia de brasilidade só existe a partir da solidariedade antirracista.

É importante ressaltar também aquilo que o coletivo não é. Ele com certeza não propaga o pensamento de que deveria haver uma superioridade asiática. Tampouco a ideia de que “deveriam haver cotas para asiáticos”. Além disso, o Coletivo Dinamene repudia pensamentos de Japão imperialista e qualquer forma de colonialismo.

O coletivo é composto de pessoas com ascendência asiática, ou seja, todos aqueles cuja ascendência venha de algum povo da Ásia. Mesmo parecendo óbvio, é importante ressaltar esse ponto, dado que muitas pessoas ainda relacionam a palavra “asiático” apenas àqueles que possuem ascendência do leste asiático, como japoneses, chineses e coreanos. Porém, a Ásia é muito maior do que esse três países, englobando inúmeros povos. E o coletivo busca justamente essa diversidade, de forma que ele busca abranger os amarelos (mongóis, chineses, japoneses, coreanos, vietnamitas, etc) e marrons (indianos, árabes, persas, etc). Lembrando que essa classificação deve ser questionada, mas é uma forma de demonstrar a pluralidade buscada pelo coletivo. Uma dúvida muito frequente em relação aos coletivos asiáticos é se os birraciais (“mestiços”) também podem ingressar nestes grupos. E a resposta é sim, dado que não se deixa de ser menos asiático só por ter uma outra ascendência. Essa dúvida surge muito em virtude das próprias comunidades, que não consideram uma pessoa birracial como pertencente à ela. O olhar de pessoas fora dessa comunidade influencia muito também, dado que muitos vêm os birraciais como não inteiramente asiáticos e emitem frases como “japonês do paraguai” e assim por diante.

Internamente, o coletivo é dividido em três comissões: acadêmica, cultural e política. A comissão acadêmica é responsável pela formação acadêmica do grupo, ou seja, é responsável por trazer textos, estudá-los e apresentar para os outros membros. Esses textos discutem a questão de como os asiáticos são vistos pelo resto do mundo, o racismo, as micro agressões, etc. Inclusive, a primeira formação está sendo com base no livro “Orientalismo” do autor palestino Edward W. Said. Essa comissão tem também como um projeto futuro fazer traduções de textos que ainda não foram traduzidos. A comissão cultural tem como intuito fazer manifestações culturais com base nas diferentes ascendências integrantes do coletivo. Isso inclui, mostras de comidas, juntar sugestões de filmes e músicas, e organizar os famosos “rolês de integração”. A comissão política tem como principais funções tocar mobilizações, fazer cartazes, fazer posts, fazer relações com outros coletivos e entidades e organizar eventos.

Com a atual realidade, é cada vez mais importante a existência de coletivos asiáticos para a discussão de temas como os apontados acima. E o Coletivo Dinamene vem justamente trazer essas discussões para o ambiente franciscano.

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