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Lembro-me, há muitos anos, da época em que morava na fazenda. Era um tempo bucólico e tranquilo, com as cores e os sons da natureza abundando, para onde quer que se olhasse. Escutava-se as maritacas a gritar pela manhã, os cachorros a latir durante a tarde e os sapos a coaxar quando caía o sereno.

Toda a sorte de bichos se podia encontrar por lá, como tatus que se escondem debaixo da terra, lagartos ariscos esverdeados e gambás frugívoros. Estes que, apesar de usarem sua voz rouca para gritar de maneira ameaçadora ao menor sinal de movimento alheio, não passam de ratinhos felpudos que gostam de passear pelos galhos das árvores à noite. Havia, ainda, aqueles seres mais venenosos, como aranhas e cobras coloridas, que, apesar de belas e atraentes, não perdiam a oportunidade de destilar veneno quando se sentem ameaçadas.

E a fazenda, como qualquer ambiente rural, girava em torno das estações do ano. Havia o tempo de colher amoras, mas também o das jabuticabas. Havia a época de tomar banho de rio, mas também de acender fogueira e contar histórias saboreando queijo assado. Havia o momento de plantar milho, mas também de colhê-lo para depois plantar girassóis.  O tempo era, enfim, orgânico. Não contávamos os dias com base no calendário anual dos homens, mas o fazíamos observando as manifestações cíclicas da natureza. Ela, Gaia, simplesmente precedia a nossa pequena existência, transcendendo-a.

Alguns anos depois, quando ingressei na famigerada Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, vi que o tempo, assim como na fazenda, não se contava em dias, como fazem os homens comuns, ou em bimestres, como fazem os professores de escola. O tempo, no Largo, conta-se de uma maneira própria, quase autônoma, sem se sujeitar às normas impostas por burocratas de testa franzida.

A organicidade do Largo existe à revelia das instituições acadêmicas que tentam ferrenhamente adequá-lo à Universidade. Se houver aula dos burocratas em uma terça-feira, isso não será mais importante que a Assembleia Geral dos Estudantes. Caso haja prova em uma quarta-feira pela manhã, esse exame não impedirá o Rei Vitor Januário dos Santos de invadir a sala com uma banda carnavalesca. Se houver palestra em uma quinta-feira à noite, não será ela mais atraente que a o território livre do Porão.

E no ciclo temporal autorregulado da São Francisco, existe um evento que faz a Facvldade entrar em ebulição. Trata-se da maior festa da democracia já vista em toda a via láctea. É a eleição da diretoria do magnânimo Centro Acadêmico XI de Agosto, que ocorre, impreterivelmente, todos os anos no mês de outubro – algumas semanas após a passeata político-etílico-carnavalesca conhecida como Peruada e algum tempo antes do segundo evento político mais importante do universo, isto é, do segundo turno das eleições para a presidência do Brasil.

Fundado em 1903, o “Onze” (para os mais íntimos) ou “CA” (para os menos afeitos à política acadêmica), é a entidade estudantil composta pelas moças e rapazes cuja vocação está na vida pública, administrando e dando pitaco nos rumos do bem comum franciscano. Termo este que, por sua vez, não encontra definição muito objetiva nem nos manuais de direito administrativo nem nas cartilhas distribuídas por aqueles que almejam os cargos eletivos dessa organização.

As Arcadas, muito à semelhança da fazenda, têm uma fauna própria e muito ativa, composta de indivíduos vestindo belas e atraentes camisetas coloridas. Representando um lado, há a Situação, isto é, aqueles fulanos que têm como lar o esfumaçado e etílico Porão. Eles, assim como os tatus que saem da toca para devorar insetos desavisados, deixam o subsolo para ascender ao pátio, onde vão tentar capturar votos que estejam caminhando em direção às salas de aula. E os alunos-votos, muitas vezes ocupados com afazeres jurídicos, tentam rapidamente fugir como lagartos assustados.

Por outro lado, há a Oposição, que, mostrando os dentes, vocifera ferozmente em resposta a todo e qualquer movimento daqueles que forem os atuais diretores do Onze. Com olhos esbugalhados e dedos indicadores em riste, atacam a Situação por todas as frentes, mas, quando vão ao pátio para captar votos, passeiam alegremente pelos bancos e ladrilhos, tentando convencer a massa votante de que são mais empáticos e agradáveis do que seus algozes.

E é nessa selva de pedra política que o espírito vanguardista do jovem franciscano desabrocha e floresce. Os estudantes, tomados pelo ímpeto de mudar o mundo, veem o XI de Agosto em sua relevância histórica, como sendo o grande catalisador político que trará ordem e progresso à nação brasileira, sabedores de que nesse caótico berço jurídico criaram-se e se formaram treze dos presidentes do País.

Certo dia, na década de 1960, um desses estudantes passeava pelas Arcadas. Forster, como era conhecido, acabara de entregar as chaves de seu automóvel Ford Thunderbird vermelho, novo em folha, às mãos do bedel, para que este estacionasse a máquina com segurança na Rua Riachuelo. Ele, rapaz grande e bem-apessoado, exercia aquele charme de garoto extrovertido e confiante. Era um indivíduo conhecido até demais, haja vista que, assim como o Zé do Pé, veio ele ser aluno do Largo por muito mais anos do que o necessário para se graduar.

Forster, que fora presidente de diversas entidades, tinha grande intimidade com todos na São Francisco, e por isso entendia como ninguém do consciente coletivo dos franciscanos. Entendia, também, por sua paixão pelas coisas de Estado, a política. Então, ele começou a profetizar que determinados candidatos a cargos políticos seriam eleitos, e teve uma taxa de acerto quase que perfeita.

Prefeitos de São Paulo? Forster sabia. Governadores paulistas? Forster adivinhou.  Governador de Minas? Era só perguntar para Forster. E foi dessa forma que o rapaz começou a virar um tipo de mito pelas Arcadas, que, com uma clarividência espantosa, determinava quem deveria ascender ao Olimpo da política estatal.

Mas é claro que prever as eleições do Brasil não seria, jamais, tão difícil quanto prever as eleições do Onze. Forster tentava enxergar o futuro do Centro Acadêmico, mas essa tarefa não se mostrava fácil como antever prefeitos.

Assim, um belo dia, o profético rapaz caminhava alegremente pelo pátio, quando chega um colega e lhe pergunta: “Forster, tá vendo aqueles três meninos ali, sentados no banco? O que você acha? Eles ganham a eleição do XI?”. Nosso herói, então, imbuído pelo espírito franciscano, respira fundo e se concentra. Ele olha para a sombra das Arcadas projetada no rosto dos garotos, e vê o que ninguém mais ao seu redor consegue enxergar, embora os raios de sol das onze da manhã estejam a iluminar todos naquela manhã de outubro.

Forster, daí, pressagia: “Eleição do XI? Não, muito difícil. Eles não tem carisma pra isso. Mas, olha, pode escrever o que eu estou dizendo: aquele trio vai fazer bastante barulho fora da Facvldade. Um deles vai virar presidente do Brasil”. E quase como executando um truque de mágica que duraria cinquenta anos, a profecia de Forster se concretiza diante dos olhos da nação.

O primeiro dos rapazes, mais à esquerda, era o eminente advogado criminalista José Carlos Dias, que militou pelos direitos humanos e defendeu presos políticos à época da ditadura militar. O segundo menino, à direita, tornou-se desembargador presidente do egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, contribuindo imensamente para a administração do judiciário paulista. E o terceiro garoto, ao centro, era ninguém menos do que Michel Miguel Elias Temer Lulia, vindo ele a ser o trigésimo sétimo presidente da República.

Temer, cujos irmãos eram todos ligados à São Francisco, morou na Casa do Estudante mesmo antes de ter ingressado na Facvldade. Sempre ele esteve próximo das Arcadas, sonhando com a presidência do XI de Agosto. Ele não pôde ver seu desejo se concretizar.

Entretanto, Michel Miguel viu, ao cabo de sua graduação, esvair-se seu sonho com a diretoria do Onze, como fumaça escapa pelos dedos de alguém que deseja capturar o vento. Ele fora derrotado porque seu partido rachou. Resignado, não pode ele capitanear o maior centro acadêmico da galáxia. Mas a história achou por bem dar uma guinada em sentido oposto, e Temer teve de se contentar com o segundo cargo mais relevante da política: virou presidente da República Federativa do Brasil.

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