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A difusão pandêmica da doença do vírus corona (a covid) entre o final do 2019º ano e o início do 2020º, do calendário cristão, ao tocar a vida humana, torna-se parte constitutiva de nossa condição existencial. Imaginar o mundo vindouro deverá, então, passar, necessariamente, por esta compreensão, tal como pelo adequado dimensionamento de seu alcance. Arendt, para ilustrar a noção de condição humana, em seu livro homônimo, aponta para a nossa existência terrestre como o dado mais radical da nossa condição, e que, portanto, a “emigração dos homens da Terra para qualquer outro planeta” constituiria “a mudança mais radical da condição humana que podemos imaginar”. Por isto, ela atribui singular e destacada importância ao lançamento, pelo Homem, de um satélite artificial ao universo, e de sua órbita ao redor da Terra.

Algo que inocule o nosso viver na Terra, como o faz a atual pandemia, exerce influência na dinâmica sociopolítica por meio de duas perspectivas: a primeira, a do recrudescimento da escassez - por realizar e tornar palpável a limitação imediata do ser humano, reavivando tanto a dimensão vital da existência, o mais profundo elo de ligação do Homem aos demais organismos vivos, quanto o risco constante da ocorrência do fatal. Esta é a perspectiva que orienta ao recolhimento, para que nos ponhamos fora do alcance da enfermidade, à poupança, para que, com o acúmulo, tenha-se à disposição recursos suficientes para a sobrevivência aos riscos da doença, e à cautela, para curarmos dos custos, sem desperdício dos recursos vitais, equilibrando-se comedimento e destreza nos gastos.

A segunda, a de intensificação da abundância, por reputar urgente e importante o agir humano no sentido de superar a sua mais profunda condição: ser terrestre. Esta é a perspectiva que explica a contemplação emocionada e a admiração entusiasmada de muitos à iniciativa de lançamento de um foguete que, além de símbolo profundo da riqueza da sociedade norteamericana (porque resultado de investimentos bilionários, públicos e privados, ao longo das últimas décadas), marca mais um “passo para libertar o homem da sua prisão na terra”[1] - em plena crise pandêmica mundial.

Opõem-se, então, complementarmente, escassez e abundância, recolhimento e iniciativa, poupança e investimento no concerto tenso dos tempos de pandemia. Percebe-se, no entanto, um valor congruente entre as duas perspectivas: o da manifestação existencial da vida humana - que, se está, pela vida, ligada a todos os outros organismos vivos, deles separa-se pelo “artifício humano do mundo”, característica, por excelência, da segunda das três atividades humanas fundamentais (o labor biológico do corpo, o trabalho artificial das mãos[2] e a ação plural da política) designadas em sua obra - o trabalho. Se, por uma perspectiva, este valor é traduzido pelo recolhimento dos corpos, pela poupança de recursos e pela cautela na ação, em uma tentativa de se colocar fora do alcance do vírus, pela outra, ele é externado pela necessidade de superação da condição terrestre do Homem.

Simultaneamente, há pessoas que levam-se à ruas excetuando estes comportamentos orientados à sobrevivência da vida humana diante da ameaça (ambiental, não-humana) representada pela pandemia viral. Note-se, no entanto, que se orientam, também, à sobrevivência, mas não em reação à ameaça que o vírus representa - pelo colapso do corpo - ao labor[3], mas a uma ameaça mais profundamente localizada na dimensão da ação humana[4] - interna, portanto, social e política, diferentemente da representada pelo vírus, externa, porque ambiental e biológica.

Protesta-se contra o racismo e contra o atentado à vida de um grupo humano particularizado pela cor da pele (a, assim chamada, ‘raça negra’ - pessoas de pele preta) cometido pelo funcionamento normal das sociedades-políticas onde ocorrem. Manifesta-se contra um proclamado iminente e eminente perigo do uso dos poderes estatais para a supressão de direitos que se teriam formado no seio da sociedade para proteger-se a vida e a dignidade humanas de ameaças que a própria vida humana representaria - pela condição plural da vida política. E, além, disto, pessoas levam-se às ruas na busca do sustento - aqueles que não têm condições de viver sem os ganhos diários, do comércio, ou mensais, do emprego. Esta é, também, uma questão pertinente à ação humana - não meramente ao trabalho - porque é pertinente à política (da e para a economia) - ou, ainda, às atividades de orientação da disciplina dos modos de produção e distribuição de riqueza na sociedade.

Articulam-se, nesse momento pandêmico, muitos tempos, disposições, de espírito e de corpos, e atividades, da vida e do viver humanos. A percepção e entendimento disto é parte dos processos tanto de compreensão dos sentidos, das necessidades e dos valores que hoje mobilizam e comovem as ações políticas de outrem, quanto do próprio agir humano pessoal e individual. Por um lado, urge a emergência do cuidado para/com a vida humana, e extrapola-se, desta, a um cuidado para/com todas os outros organismos vivos, não-humanas - e o valor sócio-jurídico que as contempla é o do meio ambiente. Por outro, emerge a urgência da busca por um aprofundamento da distinção entre estas formas de vida daquela - com sua versão radical da dissociação entre humanidade e o restante das dimensões meramente condicionais da existência.

À terceira margem, permeiam e atravessam esta oposição ligada à ação, ao mundo e ao tempo presentes, a dimensão trans-secular pertinente a tradições culturais, religiosas e civilizacionais, que também se articulam ao imediato. Esta influência do tempo alargado das tradições carregam a atividade política plural (por meio da memória - muitas vezes inconsciente de seu passado - e de usos politicamente orientados) de uma densidade complexa que muitas vezes enseja perplexidade e incompreensão. Evidência disto é o uso de símbolos tradicionais para identificar ações particulares a movimentos políticos abrangentes no tempo e no espaço - o do tryzub, brasão de armas ucraniano, por exemplo.

No Brasil, pulverizaram-se, as coligações que orientaram a pluralidade política e organizaram a institucionalidade partidária das últimas duas ou três décadas, e operam, sincronicamente, independentes de qualquer percepção ou interpretação meramente intelectual, as ações concretas e abstratas, dos corpos e do espírito, na produção do que virão a ser as novas alianças (não uma, mas várias) dos novos tempos da vīta polītĭca no Brasil e no mundo.

Tensionam-se, como sempre, fatores endógenos e exógenos à comunidade humana, tradições e heranças de tempos passados e anseios e aspirações por mundos futuros, no imediato presente existencial. Há a presença disseminada, no Brasil, do vírus e há as diversas iniciativas tomadas pelos poderes públicos, empresariais e civis (ONGs e iniciativas isoladas de solidariedade). Há, também, o anseio de o Brasil construir-se, internamente, mais justo e mais próspero, e de realizar concretamente os mitos antropológicos que inventamos do nosso passado - uma democracia racial. E, ainda, o de aprofundar e redimensionar a importância do País no concerto internacional. Mas, apesar de como sempre, tensionam-se, todos estes fatores e tempos, sob uma condição especial - a do estar de uma peste pandêmica viral, que dá ensejo à multiplicação de ações políticas diversas e muitas vezes conflitantes entre si.

O momento é de transformação do mundo para a permanência da vida, é de cultivar o silêncio como um exercício de fala, de imersão na discórdia para a emergência da ordem. Sonhar e dizer. O tempo é de suprimir as repartições estritas e estreitas de outrora - que constrangiam e disciplinavam as relações e os afetos sociopolíticos. É tempo de experimentar novos e redescobrir antigos laços, e de buscar, num centrum profundo, o nosso ser brasileiro, tal como a humanidade da nossa condição - do sentimento fatal da mortandade, e do sentido perpétuo de nascer.

[1] ARENDT, Hannah, A Condição Humana. Lisboa: Forense Universitária, 2001. Citação que Arendt faz de um jornalista para apontar - apesar da “banalidade da declaração” - ao seu caráter extraordinário: “ninguém na história da humanidade havia alguma vez concebido a terra como uma prisão para o corpo dos homens”.

[2] ARENDT, Hannah, A Condição Humana. Lisboa: Forense Universitária, 2001. Define: “atividade correspondente ao artificialismo da atividade humana”.

[3] ARENDT, Hannah, A Condição Humana. Lisboa: Forense Universitária, 2001. Define: “a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo”.

[4] ARENDT, Hannah, A Condição Humana. Lisboa: Forense Universitária, 2001. Define: “a única atividade que se exerce diretamente entre os homens (…) corresponde à condição humana da pluralidade [e] esta pluralidade é especificamente a condição [conditio per quam] de toda a vida política”.

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