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A primeira vista do prédio histórico da São Francisco, com suas colunas majestosas e ornamentos solenes, é de tirar o fôlego; ainda mais quando se é um calouro a visitando pela primeira vez para fazer sua matrícula -sentimento e emoção vividos por quase todos que estudaram na gloriosa. A vista do Largo para a fachada, o Salão Nobre, as escadarias e seus vitrais, o jogo de sombras das salas e -claro- as famosas arcadas, são motivo de orgulho para o franciscano, pois tais elementos fazem com que estudemos em uma das mais belas e singulares Facvldades do Brasil.

Todos sabem que a SanFran possui incríveis 193 anos de idade, contudo, o prédio atual, da maneira como é concebido, ainda não completou nem ao menos um século de existência. Isso porque ele é fruto de uma grande reforma da década de 1930 que mudou totalmente a infraestrutura da Faculdade.

Originalmente, a velha academia se instalou em um convento franciscano de forma provisória -assim como a Faculdade de Direito de Recife se instalou em um convento beneditino-, mas a excelente localização no coração da cidade, que em 1827 se resumia praticamente ao que chamamos hoje de centro histórico, fez com que o caráter provisório se tornasse permanente.

A casa dos franciscanos, prédio do século XVII feito de taipa, passou primeiramente por uma revitalização de sua fachada em 1880 por conta de um incêndio para então ser completamente demolida em 1930 dando origem ao prédio atual em estilo neocolonial. O motivo da mudança é fácil de deduzir, um prédio colonial não possuía estrutura para acomodar os alunos de direito. Falta de espaços adequados para as atividades da instituição, falta de condições de higiene, além de problemas no telhado, nas calhas e nos forros são algumas das justificativas para a realização da reforma na época pleiteada.

Goffredo Telles Júnior era aluno na época da reforma e presenciou uma situação peculiar que vale a pena ser lida pelas palavras do próprio:

“Lembro-me de um fato especial, acontecido certa manhã, quando os operários cometiam a demolição das paredes de barro, das salas do primeiro ano. Com assombro enorme, vimos surgir, dentre os entulhos, ossadas inteiras de seres humanos. Lúgubre aparição! As obras imediatamente se interromperam. Mas à tarde, tudo já estava esclarecido. Aquelas taipas, que haviam sido as paredes de minhas primeiras salas de aula na São Francisco, tinham servido de santo jazigo para os monges do convento.”

Os grandes nomes por trás do prédio atual são o diretor da faculdade na época, Alcântara Machado, e o arquiteto Ricardo Severo. Ambos eram profundos conhecedores e admiradores de história brasileira, sendo que o próprio Alcântara Machado escrevera um livro sobre o período colonial paulista -A vida e Morte do Bandeirante; dessa forma fica fácil perceber que a escolha de um prédio aos moldes do estilo neocolonial não foi à toa, funciona como um monumento que faz uma ode a um passado glorioso -ou pelo menos apela para um imaginário de glórias.

A demolição do prédio colonial franciscano suscitou críticas e uma aparente contradição: a preservação do prédio original em seu estilo colonial não seria um melhor resgate histórico ao invés de um prédio novo que visa homenagear o passado? Francisco Morato -que viria a ser diretor em 1936 logo após o fim da reforma-, em uma tentativa de salvar o prédio histórico original, sugeriu no Correio Paulistano a ida da faculdade para um campus em conjunto aos outros cursos da recém criada Universidade de São Paulo, ou seja, que fosse para o que viria ser a Cidade Universitária. Porém, a resposta para essa alternativa foi uma negativa unânime entre todos os membros da Congregação, isso porque qualquer ideia que afastasse o curso do Largo era totalmente abominada.

O estilo neocolonial exuberante da faculdade não é a única pérola arquitetônica do Largo. Logo ao lado, nossos vizinhos de muro possuem um estilo que destoa do gélido cinza paulistano. A Igreja São Francisco de Assis, datada de 1642, possui traços barrocos em seu exterior e interior, características essas adquiridas com uma reforma no século XVIII no ano de 1744, antes disso possuía um estilo jesuítico “padrão” da província. A Igreja, que é tombada, também não é original, uma vez que fora inteiramente reconstruída após um incêndio em 1880, o mesmo que provocou a revitalização da fachada da SanFran.

O prédio de Direito tende de fato a ofuscar os demais prédios em seu entorno -um pouco da humildade franciscana para apimentar o texto; pela proximidade, a arquitetura de nossos vizinhos clérigos também é bastante notada por quem passa pelo Largo. Ainda assim, uma terceira joia arquitetônica se faz presente nas redondezas, fazendo com que o Largo possua contrastes arquitetônicos ímpares em toda a cidade.

A Escola de Comércio Álvares Penteado, a atual FECAP, possui um prédio datado de 1908 em estilo art nouveau considerado patrimônio histórico de São Paulo. Entre 1908 e 1933, o olhar dos transeuntes pouco se impressionavam com a Sanfran, sendo que passava despercebida se comparada ao moderno prédio da Escola de Comércio.

Projetado por Carlos Eckman, é um edifício eclético, uma vez que conserva elementos da art nouveau mas também usa uma linguagem clássica. Chamado de Palácio do Comércio, o prédio respira a industrialização paulistana; um de seus destaques são seus ladrilhos belgas coloridos em formato de mandalas.

De fato a São Francisco possui uma arquitetura digna de um prédio que se diz ser a “Meca” do Direito brasileiro, mas além disso, o próprio Largo São Francisco -cujo nome confunde-se com o da nossa instituição- em sua completude possui um acervo arquitetônico imbatível. Não há uma diversidade tão grande de estilos na cidade de São Paulo feita de forma tão esplêndida e contrastante como no Largo.

O prédio da Facvldade de Direito que enfeita as cervejadas, surpreende visitantes e orgulha os franciscanos pode impressionar pouco os alunos que se habituam com ele pela rotina, mas com certeza deixa todos com saudades em tempos de isolamento pandêmico. Fica minha homenagem ao prédio da Facvldade e seus vizinhos, que jamais me cansarei de olhar.

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