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Três da manhã, mais um dia. Vontades e impulsos cada vez mais distantes. Planos e ambições cada vez mais difusos. Melancolia interrupta. Uma vez li por aí que nossos ideais não passam de uma extensão mal resolvida de nós mesmos. Nunca nada fez mais sentido. Na trajetória até a nossa própria verdade, a dicotomia entre o certo e o incerto é cotidiana. O querer e o fazer estão conectados por um rio de talvez, constante alegoria. Quando aqui cheguei, o mundo já estava posto. O mar e a areia já existiam, o flamengo já era campeão mundial. O ar cheirava à ansiedade e à expectativa. Mas, em certo ponto, o afeto e aconchego cessaram e a metamorfose do amparo para a independência foi desesperadora. A incessante busca pela plenitude tomou conta do meu corpo e viver ficou em segundo plano.

Três da manhã, de outro dia. Encarava o espelho tentando encontrar algo novo. Tempo perdido. Mas para onde vai o tempo que se encontra? Revirava o álbum de memórias do meu inconsciente caótico, mas não encontrava nada. O fetichismo pela distopia apocalíptica explica muito, mas talvez não explique nada. Sentimos tesão na destruição, mas a ausência é angustiante. A agonia leva à redescoberta e à reinvenção, mas talvez não leve a nada. Perseguimos a felicidade do amanhã em detrimento da do hoje, nos cegamos pela linha de chegada e perdemos toda a jornada. Nos ensinam que é grandioso conquistar, mas deixam de fora o quão valioso é se permitir, se orgulhar. Nos criamos sobre ruínas, fazemos o melhor com pouco e cobiçamos o futuro, rezando para ser melhor que o presente. Repetimos que vai ficar tudo bem, uma certeza incerta que sustenta nosso quase-viver. Muita coisa não vai ficar tudo bem, mas está tudo bem.

Tudo que abala e tudo que fascina. A euforia e a depressão. O nascimento, a existência e a morte. O viver. Nós nada carregaremos conosco. Quando menos espero, minha barca está pronta. Ela me conduz para um talvez sem margens de querer e fazer. O acaso da morte não se importa com glória ou com o êxito. Todos perseguem um fim, mas quem terá a coragem para embarcar nesse grande talvez? Olho pela janela no quinto andar. Aceno exausta e sussurro boas-vindas, paz terrível. Mas essa não é uma carta de suicídio, já se foi o tempo dos ensinamentos de Zaratustra. O sofrimento é grande demais para aprisionar no corpo, nenhuma árdua batalha é travada na solidão. O medo da insuficiência do meu próprio eu é incessante, mas um dia desses um companheiro me disse que é preciso aprender a viver todos os dias. Fica aqui minha homenagem, muitas saudades.

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