Em 2020 o Brasil realizará mais uma edição da “festa da democracia” para eleger os prefeitos e vereadores das cidades brasileiras. As eleições municipais são, por suposto, muito importantes: além de definir quem governará o ente federativo mais próximo da população - e portanto, mais responsivo perante os eleitores - também é parte fundamental do jogo político para as eleições nacionais de 2022.
No Brasil, mais de 200 milhões de pessoas vivem em 5570 municípios. No entanto, a distribuição da nossa população é bem desigual: segundo o IBGE (2018), 57% dos brasileiros vivem em 6% das cidades. Só as capitais concentram 50 milhões de habitantes, aproximadamente 24% da população.
Essa “desigualdade demográfica” se manifesta, naturalmente, na política. O grupo de cidades mais importantes do país é o G96, ou seja, as 26 capitais adicionadas as 70 cidades com mais de 200 mil eleitores - e que, por consequência, tem segundo turno. Para se ter ideia da relevância do G96, 36,7% do eleitorado brasileiro (aproximadamente 55,8 milhões de pessoas) vivem - e votam - nesses centros urbanos.
Portanto, é fácil compreender que o desempenho dos partidos nas eleições municipais, principalmente no grupo das 96, influencia e muito sua performance nas eleições seguintes. Isso ocorre por dois motivos: em primeiro lugar, embora as eleições municipais tenham uma dinâmica própria - envolvendo principalmente temas locais, como saúde e asfaltamento, por exemplo - as prefeituras e câmaras municipais oferecem uma coisa muito importante aos candidatos nas eleições estaduais e nacionais: a base política ou “palanque”.
Imagine que você é candidato a deputado federal. No sistema eleitoral brasileiro, as candidaturas para cargos legislativos (exceto para o Senado) ocorrem por meio da chamada representação majoritária. Isso significa que, além de concorrer contra os candidatos de outros partidos, você vai ter que receber mais votos que os outros concorrentes de sua chapa. É nesse momento em que o “palanque”, isto é, a estrutura política ao redor de um estado faz a diferença.
Se você tiver um prefeito te apoiando, provavelmente ele trará mais cabos eleitorais e apoiadores, ou seja, quanto mais prefeituras você tiver na sua base política, melhor. Esse é o chamado “voto de máquina”, dos quais partidos do chamado “Centrão” como o MDB e DEM são especialistas. A cada dois anos, o sistema se retroalimenta: os deputados estaduais e federais desses partidos destinam emendas e verbas para as suas bases eleitorais, visando eleger seus candidatos a prefeito e vereador. Nas eleições seguintes, os mandatários municipais apoiam os seus candidatos - e a máquina continua girando.
No entanto, a influência de cidades grandes é ainda mais potente. As eleições das capitais e grandes centros urbanos costumam antecipar, por exemplo, as eleições majoritárias estaduais, fortalecendo os partidos que pretendem disputar cadeiras no Senado ou o Governo Estadual. Como governar um grande centro também oferece projeção política, é comum que ex-prefeitos dessas cidades também se tornem lideranças políticas importantes.
No ano de 2020, o jogo das eleições municipais se torna ainda mais importante: em um momento onde o presidente da república possui altos índices de popularidade, algumas das disputas servem como antecipação das eleições presidenciais de 2022. Esse é o segundo motivo da importância das eleições municipais: elas são simbólicas e apresentam tendências que sinalizam para o mundo político os desejos do eleitorado. O espaço para candidatos outsiders, “fora da política”, foi antecipado já em 2016, com a eleição de João Dória em São Paulo e Alexandre Kalil em Belo Horizonte, por exemplo.
Vejamos o caso de São Paulo, a maior cidade do país. Na capital paulista, os dois principais candidatos, Bruno Covas e Celso Russomano, antecipam uma disputa possível para 2022 entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Dória. As alianças desenhadas pelo centro político fortaleceram a candidatura de Covas, que também tem a vantagem de ser o incumbente. Já Russomano conta com o apoio explícito do presidente, que também foi beneficiado pela pulverização de candidaturas da direita.
Além disso, em São Paulo um fenômeno curioso pode antecipar um movimento a ser observado nos próximos anos: o fortalecimento do PSOL e o derretimento do PT nos grandes centros urbanos. Se os resultados confirmarem a tendência das pesquisas, Guilherme Boulos sairá como o grande fenômeno das eleições de 2020, cacifando-se como liderança importante da esquerda nacional.
A depender dos resultados das eleições de 2020, as perspectivas para alguns pré-candidatos à presidência podem ficar mais ou menos positivas. Eventuais vitórias do DEM em Recife (Mendonça Filho), Salvador (Bruno Reis) e Rio de Janeiro (Eduardo Paes), por exemplo, podem fortalecer a candidatura de Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da saúde.
Por fim, vale ressaltar que, para além das questões políticas, as eleições municipais possuem uma importância ímpar nas nossas vidas. São os prefeitos e vereadores que estão mais próximos dos problemas da população e são eles que podemos mais facilmente cobrar e fiscalizar. E, como já diria o ex- governador de São Paulo, Franco Montoro, “Ninguém vive na União ou no Estado. As pessoas vivem no Município”.
