Eu estava na beira da praia,
tomando um refrigerante,
me veio o Goffredo e disse,
a norma é autorizante!
Um dia, caro leitor, quando entrei na Faculdade, eu me lembro de sentar em uma das cadeiras do Salão Nobre com meus colegas calouros. Escutamos, extasiados, o Eduardo Marchi dizer algumas palavras à geração que chegava às Arcadas. Entre berros empolgados, contos sobre a Peruada e elogios à Itália, ele tentava, à sua própria e curiosa forma, incutir a semente da paixão pela Velha Academia nas mentes de todos os jovens rapazes e moças que, sentados à sua frente, possuíam o brilho inocente no olhar de quem acabara de derrotar o até então intransponível vestibular .
Em um determinado momento, quando ninguém estava entendendo mais o que ali se passava, o professor Marchi comandou que seus ouvintes fizessem uma animada ciranda ufanista, dando as mãos para recitar, em voz alta, um esquisito poema cantado de quatro linhas sobre heroísmo, folhas dobradas e pancadas no peito, seja lá o que isso pudesse significar. E assim nós calourinhos o fizemos. Com ritmo truncado e uma harmonia duvidosa, cantamos alegremente uma das mais significativas “Trovas Acadêmicas”, que (sem que soubéssemos) versava sobre sacrifício, heroísmo e a própria história da Facvldade.
Originalmente escrita por Tobias Barreto no poema “Confederação de Montevideo”, essa trovinha da Folha Dobrada, como a conhecemos hoje, é remetida à Revolução de 1932, na qual nobres rapazes do Estado de S. Paulo – muitos deles alunos das Arcadas – alistaram-se para a defesa de valores constitucionais e democráticos, opondo-se à ditadura e ao totalitarismo. Um desses jovens lutadores foi o ilustre Goffredo da Silva Telles Jr, que depois seria consagrado professor emérito da São Francisco.
O tal do professor Goffredo, por sua vez, não é o que chamaríamos atualmente de um professor “chato”, daqueles que têm voz de sonífero doce. Jamais. O Professor Goffredo, em realidade, era uma figura quase que circense. Era um homem que gostava de apresentar verdadeiros espetáculos em sala, com a finalidade de cativar a atenção de todo e qualquer aluno que lhe tivesse dado a honra de escutá-lo durante uma aula.
Goffredo, em realidade, era um grande apaixonado. Apaixonado pelo direito, apaixonado pela política do Brasil, apaixonado pela Facvldade, e, principalmente, apaixonado pela sala de aula. Era um homem que, antes de tudo, tinha vocação para ser professor. Não importa quantos títulos a academia tenha a ele concedido por grandiosos feitos: Goffredo era um homem simples de espírito, e fazia questão de assim transparecer. Ele, acima de tudo, buscava fazer com que toda e qualquer pessoa se sentisse especial em sua presença, recebendo ela a dedicada atenção de um educador profundamente imerso no momento de ensinar.
Isso porque esse mestre não se enxergava como uma jurídica, ilustríssimo conhecedor do direito brasileiro e alienígena, sem páreo no mundo do saber, como se imaginam alguns dos atuais catedráticos do Largo de São Francisco. Estes, pelo torpor narcisístico, apaixonam-se cegamente pelo homem que mora dentro de seus espelhos. Ao contrário, Goffredo utilizava da humildade como um escudo, impedindo que vícios como a arrogância e a falta de empatia lhe maculassem o caráter e apagassem a chama da paixão por ensinar.
Mas seu amor não se limitava apenas sala de aula, é verdade. Em função de seu histórico familiar, Goffredo era um homem de grande cultura e erudição. Sua avó, a dama Olivia Guedes Penteado, fora um importante nome para o modernismo brasileiro, tendo ela criado o Salão de Arte Moderna, em 1923, e trazido os primeiros exemplares das obras de Pablo Picasso e de Marie Laurencin ao Brasil. Fora também amiga de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, e muitas outras figuras relevantes da época.
Essas amizades tiveram importante influência na construção do caráter do menino Goffredinho, que aprenderia a tocar violão com ninguém menos do que Heitor Villa-Lobos. Enquanto Villa-Lobos compunha por noites a fio em um belo piano de cauda francês, Goffredo e seu irmão Jaime passavam horas no fundo da sala da casa de sua avó, aprendendo e apreciando a boa música que ali nascia entre amigos e parentes. Também com o maestro, nosso pequenino herói aprendeu a atemporal arte de soltar pipas e papagaios pelo céu azul enuviado, enquanto brincava pelos jardins da Fazenda Santo Antônio, retiro dos modernistas e berço da criatividade artística paulistana da década de 1920.
Algum tempo depois, em seus anos adolescentes, Goffredo já começaria a dar sinais de seu amor pelo saber formal e pela cultura clássica. Desde muito cedo, ele pegaria o bonde em frente à casa de sua avó, na capital paulista, seguindo rumo ao Colégio de São Bento, para aprender filosofia com os frades beneditinos que lá lecionavam. Seu esporte era o estudo da filosofia, que ele praticava com maestria. Goffredo herdou da família Penteado não bens tangíveis e materialmente quantificáveis, como casas, barras de ouro ou diamantes, mas tesouros imaterialmente inestimáveis – tais quais a paixão pela arte, pela cultura, pelo saber, e pela sociedade dos homens.
Não é à toa que, quando ficou mais moço, Goffredo passou a se interessar pela política e pelas relações de poder do Estado, tendo se juntado ao Movimento Integralista Brasileiro de Plínio Salgado, em um contexto nacionalista que sucedeu a Semana de Arte Moderna de 1922.
Trajado sempre com um terno bonito e engomado, era visto, a princípio, como um homem conservador e frio. Contudo, perdia esse ar quase místico de senhor distante e desinteressante assim que abria sua boca apaixonada para falar sobre os direitos dos cidadãos. Ele era uma contradição que representava os dois homens que moravam dentro de si, compondo seu caráter inconfundível. Goffredo era, ao mesmo tempo, o aristocrata solene que decora códigos legislativos e o entusiasmado estudante que perambula pelo Páteo das Arcadas a cantarolar trovinhas.
E essa contradição simbiótica, amigo leitor, teve seu clímax no sesquicentenário da nossa escola, em um episódio conhecido como a leitura da Carta aos Brasileiros, no ano de 1977. Sob o punho do ditador Ernesto Geisel, o Brasil ainda vivia o regime autoritário e repressivo do Ato Institucional nº 5. Pessoas eram perseguidas, mortas e torturadas por terem opiniões políticas contrárias àquela imposta pelo Estado.
Eis que o nosso herói Goffredo, com a ajuda de outras importantes personalidades da época, teve uma visão. Decidiram quebrar a cordialidade até então socialmente aceitável dos juristas para com os governantes, opondo-se à ordem política vigente.
O Professor, em um almoço no Circolo Italiano, acompanhado de sua esposa Maria Eugênia, José Carlos Dias, Flavio Flores da Cunha Bierrenbach (sim, o jurista-aeronauta protagonista do episódio do AerOnze), José Gregorio, Modesto Carvalhosa, Darcy Passos e Cantide Filarde, imaginou o esboço de uma declaração apta a incendiar o regime ditatorial no País.
Então, aos oito de agosto de mil novecentos e setenta e sete, precedido por José Gregório, Goffredo sobe em uma tribuna montada nas Arcadas, e a brada para que todos os homens e mulheres do brasil lhe pudessem ouvir com clareza: “Chamamos de Ditadura o regime em que o governo está separado da sociedade Civil. Ditadura é o regime em que a sociedade civil não elege seus governantes e não participa do governo. O povo brasileiro quer uma coisa só: o Estado de Direito já!”.
Inflamando os ânimos da multidão que urrava em sua frente, Goffredo plantou uma semente de esperança nos corações dos oprimidos pelo regime. A partir daquele momento, em todos os cantos do País, os censurados e os perseguidos passaram a saber que havia esperança para um amanhã melhor.
Goffredo foi a faísca que acendeu a chama do movimento conhecido como Diretas Já, este que viria a culminar com a derrubada dos militares e a consequente restauração da república democrática no Brasil. Jamais o povo brasileiro iria se curvar novamente, em face do medo e do terror impostos por alguns poucos sobre a nação. Porque, afinal, como disse o saudoso professor, “uma folha dobrada nunca mais voltará a ser a mesma”.
Dessa forma, intensa como não poderia deixar de ser, as Arcadas comemoraram seu sesquicentenário no melhor estilo de tradição vanguardista. Tendo passado por um século e meio sendo palco dos mais importantes acontecimentos políticos do País, cobriu-se novamente de glória o Largo de São Francisco. E a história da Facvldade, mais uma vez, confundiu-se com a faculdade da História.
