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XX-XX-XXXX

Hoje eu estava caminhando por uma das avenidas de São Paulo, e um homem me parou para perguntar as horas. Pela aparência do cara pensei que seria roubado. Nessa situação, eu só olho para o lado e finjo que não ouvi nada, continuo andando. Já fui assaltado algumas vezes e não desejo que isso ocorra de novo. Essa é minha estratégia.

Narrar para o nada, dissertar sobre aquela outra vida, tipo falar por falar, se eu começasse isso assim não iria fazer sentido, e lá se vai a pequena estratégia. “Quem é você?” Poderia ter perguntado. “Por que você está aqui? Eu nem tenho relógio”, seria uma boa defensiva, mas ainda não alcancei esse tom de rudeza. Pra quê saber sobre a vida dos outros, ficar pegando em gelos derretidos.

Saber sobre sua própria vida já é algo difícil, como um diário, não é? Não, isso seria narrar… Narrar para o nada. Então, é isso que eu estou tentando fazer, só que reclamando um pouco mais.

Escrever é melhor do que falar. Falar bem, bem mesmo, era só perto da Augusta. Augusta Vicentina Tavares. O nome dela, a parte esburacada do meu coração. Aqui posso citar esses acréscimos dramáticos que dou para ela. Não sei por que seu nome sempre me lembra algo de vermelho, o que não tem nada a ver com sua aparência. Ela é preto no branco, literalmente, branca de cabelos escuros. Mas é tudo “águas-passadas”, ou um “talvez-águas-passadas”. Eu ainda quero beber dessa água… Que vida! É como uma cobra que envenena e depois quer curar, esses relacionamentos funcionam em cima disso. A verdade é que a Augusta carrega uma parte de mim, se essa parte é boa ou ruim… Deus o saiba! Todo o meu pecado e pensamento daquela época estão com ela, na sua mão mastigando uma ração macia. É o Diabo, ou o Anjo? Não sei, talvez o seu grande mistério estivesse em sempre ser normal demais, e eu, somente, o reflexo desse mistério.

Mas é como eu tinha dito antes, pra quê dissertar sobre aquela outra vida? Bola pra frente, o jogo continua. A bola da vez é reclamar um pouco mais da minha cidade. Há sempre muita luz aqui, sujeira luminosa. Acabo ficando agoniado. Luz do som dos carros, o som do povo, o complexo de opiniões em uma cidade, suas velocidades. “Todas as luzes!” e você pode escolher morar aqui para sempre, dentro de tudo isso. No exato momento, eu consigo ouvir a barulheira  do bar que fica embaixo do meu prédio. O bar é frequentável, mas eu odeio os frequentadores. Quase todo dia, voltando para casa, algum deles aproveita da minha educação para praticar sua dosagem de ódio gratuito. A culpa não é minha se não consigo ser grosso o suficiente para demonstrar raiva. Na real, eu sou um babaca mesmo. Talvez amanhã, se algo ocorrer, eu faça alguma coisa. Nesses instantes agonizantes até a disposição das sombrancelhas da Gu me trariam paz. Romântica como uma cereja chilena, suculenta como a boca dela, podre como o apelido que dei para ela. Era a única opção “menos cafona” que eu consegui pensar, e ela achou engraçadinho. Engraçadinho, fofinho, algo do tipo, esses venenos de mulher. Refletindo bem, é preferível o “veneno” do que a sinceridade de uma, acredite. Donzelas ácidas. Na minha Metropolis, eu as teria matado sob a mais bela canção futurística, e esse seria o paraíso, nunca mais ter de citá-las. Mas com que poder mataria, força masculina? Mito fracassado. Que desastre em apenas um parágrafo.

Pulando pra minha rotina, posso reiniciar o jogo aqui, a grande aventura da minha vida é pensar nela. Imaginar as várias partes de mim guardadas no caos de mim. De mim, de mim, de mim… Complicadinho, a-jeitosinho. As pessoas me veêm e dizem. Não sei o que falar, planejo algo e finjo que está dando certo, assim tudo fica super interessante na rodinha dos colegas. Isso, o meu destino planejado, o qual não deixa de me entusiasmar, engana bem. Os poucos feijões que boiam na água. O trabalho, o seu caderninho que saiu da gaveta velha e em que nele agora você escreve, o lancezinho da noite passada, a fada-madrinha. Mas nenhum milagre, nada como o testemunho da igreja. Nada de olhos molhados. Ninguém emocionado. É o jogo. As pessoas o querem sempre. A mesma merda de sempre. O medo de encontrar o diabo na rua é muito grande, já que o anjo fica por entre os prédios e o tinhoso dentre as pessoas. Elas preferem não saber o que penso delas.

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