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Quem passa pelo Largo São Francisco pode ver uma certa estátua de bronze e pensar que ela sempre esteve fixada ali, sem perturbações. Mas você sabia que o busto de Álvares de Azevedo (que talvez nem seja dele) já foi doado, guardado e furtado?

A história começou em 1906. O Centro Acadêmico XI de Agosto decidiu que três antigos alunos da Facvldade de Direito mereciam bustos em sua homenagem: Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varella. Apesar da boa vontade, a campanha de arrecadação de fundos para financiar o projeto obteve dinheiro suficiente para encomendar apenas a estátua de Álvares de Azevedo. Assim, a obra ficou a cargo do escultor Amadeo Zani (1869-1944). Uma vez concluída a escultura, em 1907, o XI a doou à Prefeitura, para que fosse instalada na Praça da República.

Quem passasse pela Praça da República e olhasse a estátua do escritor romântico não poderia imaginar a saga que teria início anos mais tarde. Em 1950, corria a suspeita, atestada posteriormente por Lygia Fagundes Telles, de que a imagem representava não o torso de Álvares, mas sim o de Fagundes Varella. As duas personalidades possuíam feições semelhantes, mas alguns enxergavam no busto mais o rosto do segundo do que o do primeiro. Teria sido a encomenda da estátua mais uma das estudantadas, tradicionais brincadeiras que os alunos franciscanos realizavam com personagens importantes? Seja lá qual fosse a explicação correta, fato é que, em meio à polêmica, a prefeitura achou por bem transferir o Azevedo (ou seria o Varella?) para um depósito, onde foi guardada até cerca de 1981.

Findado seu exílio no depósito, a peça de arte foi levada para a Praça Fagundes Varela. Ali ficou até 1984, quando a Academia Paulista de Letras, não aceitando que um escritor fosse homenageado com a imagem de outro, exigiu que a estátua de Álvares De Azevedo retornasse à Praça da República.

Mesmo de volta ao seu local original, a obra ainda estava longe de ser assunto resolvido. Em 2005, estudantes da São Francisco alegavam que, na praça, Álvares era vítima de condições precárias de conservação e depredação, e reivindicavam que a obra fosse transferida ao Largo São Francisco, onde seria mais bem cuidada. Em maio, lançou-se a campanha ‘’Volta Álvares’’, contando com diálogos entre o XI e o Departamento do Patrimônio Histórico.

O tempo passou e a campanha não obteve resultados satisfatórios. Os franciscanos, como de costume, não se deram por vencidos. Na madrugada entre os dias 20 e 21 de maio de 2006, durante a Virada Cultural, um grupo de estudantes pôs em prática um novo plano de resgate: levaram um caminhão para retirar o busto da praça e levá-lo à almar mater do homenageado. A empreitada, porém, não passou desapercebida e os ‘’sequestradores’’ acabaram na delegacia. Como é de se esperar de uma boa história franciscana, os estudantes conseguiram se safar por meio de uma peripécia nem tão juridicamente legal: apresentaram uma autorização falsificada e o apoio de uma funcionária enviada pelo organizador (antigo aluno da São Francisco, claro) da Virada Cultural. Assim, a estátua foi transferida com sucesso ao Largo.

Entretanto, faltava legitimar – dessa vez de verdade – a permanência da estátua de Álvares De Azevedo em frente à faculdade. No dia 6 de julho, o diretor Eduardo Silveira Marchi e 4 alunos foram recebidos em audiência pelo então governador Cláudio Lembo (também antigo aluno) para solicitar apoio à nova campanha. Dias depois, o prefeito Gilberto Kassab assinou um decreto retroativo autorizando a transferência da estátua. Findava-se a saga do Álvares de bronze – ao menos por ora. Lembo chegou a afirmar que ‘’os estudantes levaram para junto da faculdade uma figura simbólica da casa’’ e que ‘’tudo o que é do Largo São Francisco tem que ser preservado lá, naquele território livre’’.

reuniao alvares de azevedo

Reunião com o governador Cláudio Lembo. Fonte: saopaulo.sp.gov.br

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