O dia se abriu em um sorriso atípico, daqueles que surgem em uma lerdeza natural, mas aquela lerdeza boa e saudável, aquela lerdeza que permite “domingar na quarta-feira”. No caso não era quarta-feira, a festa nasceu na sexta, mas nunca veio a falecer, apesar de ter acabado no domingo. Desde a estrada, que liga São Paulo a Sarapuí, já sentia a irradiação da sua energia, parece que quanto mais avançava em direção à festa, mais voltava na minha idade. Parece que a estrada me levava de volta a minha infância e aos finais de semana que passava no “sítio da tia Tiana”, na época não sabia que ela e o Zé do Reis não eram os donos. Depois veio o tempo e fez comigo o que o tempo sempre faz, tira o encantamento e traz o conhecimento, e então descobri que o sítio era do Chiquinho, o que não tirou meu amor pelo lugar nem a vontade de sempre ir lá.
A própria estrada dava sinais de alegria e euforia, como se toda a natureza, que cercava o agressivo concreto feito para dar passagem aos homens, se enchesse de entusiasmo para festa dos Oliveiras. Na beira do caminho, já chegando em Sarapuí, dois urubus conversavam sentados nos galhos de uma árvore frondosa que cobria a estrada com sombra. Os animais se perguntavam porque tamanha agitação entre as aves e toda a mata para essa tal festa. “Ora, devem ser gente muito importante” argumentou um. “Dizem que é uma bela festança, tenho uma amiga cobra que disse que vai tentar chegar lá” disse o outro. “Só sei que devem ser gente boa, dizem que todos são bem vindos, até nós, urubus, me lembro que já comi carniça de lá há uns anos atrás” finalizou um. Eu, do carro, bem que percebi que uma das aves não me era estranha, há anos atrás, em um final de semana no sítio, uma vaca morreu, fomos eu, minha vó e tia Tiana ver a carcaça e pegar o seu crânio, a tia queria enfeitar o sítio com um. “Todo sítio tem um pendurado na cerca” dizia ela. Chegando perto da vaca morta, lembro que estava cercado por urubus e um estava sentado em cima da carcaça, a Tia pegou um pau e espantou as aves e tirou delas, mesmo que só por um momento, já que elas voltariam, a refeição.
As aves permaneceram assentadas nos galhos e carro seguiu viagem, passou pela ponte que abria passagem pelo Rio Sarapuí, o rio parecia estar mais pujante, suas água pareciam estar mais altas e mais agitadas. Tudo parecia (e digo parecia por não poder distinguir o que acontecia de verdade daquilo que meu ser queria ver) convergir para a festa e tudo estava animado em meu coração.
Cheguei na estrada que ligava o centro de Sarapuí com o sítio, tudo parecia estar normal, fiquei com medo de não saber mais quando virar para chegar lá, com medo de não ter a casa com janelas azuis que era a minha referência, mas lá estava ela e logo depois dela, depois de uma pequena passagem por uma estrada de terra, lá estava o sítio. Fiz questão de descer do carro e abrir a porteira, afinal foi lá, há muitos anos, que aprendi o que era uma porteira e aprendi da melhor maneira possível, vendo e tocando.
Um misto de sentimentos tomou meu ser, amor, alegria, felicidade, saudade, conforto, segurança e muitos outros que não seria capaz de escrever aqui por conta do espaço e muitos por não terem tradução em palavras, pois são apenas sentidos.
Vi todos que estavam lá, falei com todos, matei a saudade que estava de alguns e tudo foi muito bom. Logo que cheguei já me deram comida, isso nunca falta, pelo contrário, abunda. Geléia (que é tradição familiar), pãozinho doce, pão caseiro, fatias húngaras, geléia de jabuticaba e todas as outras coisas que compunham o café da manhã. Tudo foi muito protegido, para que tivesse seu devido fim. Não deixaram que fosse comido antes por ninguém, para que pudesse, de fato, haver o café da manhã. Esse “não deixaram” na verdade podia ser trocado por tia Onofra e tia Wilma não deixaram, elas organizaram tudo: as comidas, os cartazes, as homenagens e tudo mais. Tia Onofra trabalhou mais do que em seu próprio emprego, fez de tudo para que tudo ficasse perfeito, aplicando um modo rígido e perfeccionista, mas que podia ser traduzido em uma enorme prova de amor por todos, afinal, sem ela não haveria festa e se houvesse seria a exemplificação do que dizem que anarquia é. Tia Wilma, a famosa “pérola”, teve papel central, sua habilidade de organização e decoração fez com que tudo acontecesse e ficasse bonito. Chiquinho e Zenaide, os donos do sítio, também fizeram de tudo, o fato é que cederam o espaço para que a festa acontecesse, além de trabalharem para que cada pessoa se sentisse bem e confortável.
As simples conversas que por lá rondavam me fizeram pensar que ali, naquela festa se encontrava muito mais do que os Oliveiras, ali se encontrava o povo esperançoso e ali se encontrava o Brasil.
Ali se encontrava o Brasil. A roda de capoeira começou, puxada pelo Eduardo, para o qual tenho uma enorme dívida, que jamais poderá ser paga, graças a ele e suas palavras eloquentes hoje aceito e amo o meu cabelo do jeito que ele é. Não participei, apenas assistia. Era como se aqueles movimentos, ambientalizados pela música afro e pelo som de conversa ao fundo, realmente fizessem o Brasil estar ali, naquela festa de família, como se o Brasil escolhesse se revelar ali, naquele lugar simples. E isso não permitia que eu participasse. Precisava apenas assistir o espetáculo, assistir essa revelação, assistir as raízes de todos os brasileiros se apresentando no gramado. Ali havia sangue negro. Ali o Brasil se encontrava.
Ali se encontrava o Brasil. A geléia de jabuticaba estava uma delícia, tinha mesmo que ser feito do melhor fruto que há. Afinal, dizem que jabuticaba só dá no Brasil e o próprio Brasil é uma jabuticaba, graças a Deus. Que maravilha, que terra boa, “tudo que nela se planta, tudo cresce e floresce”, deu até jabuticaba. Jabuticaba. Nome vindo da língua Tupi, pode ser “lugar do jabuti” ou “fruta em botão”. Alimento indígena antes do branco chegar aqui nessas terras. Primeiro fruto indígena a ser introduzida nos pomares, talvez um fruto de uma colonização inversa. Ali, naquela festa havia jabuticaba. Ali havia frutos indígenas, não só frutos comestíveis, como a jabuticaba, mas também frutos do costume. Ali havia sangue indígena. Ali o Brasil se encontrava.
Ali se encontrava o Brasil. Teve reza e louvor, o próprio sítio se chama “São Miguel”. O cristianismo estava na festa. Não se fez presente somente no nome do sítio ou só em momento de orações. Estava ali, nos costumes, no modo de pensar, no modo de trabalhar, no interior de cada um. Ali, naquela festa havia cristianismo. Ali havia o modo católico de pensar, mesmo os não católicos que estavam ali não escapam da influência fundante da nossa cultura trazida pelo colonizador. Ali havia sangue branco. Ali o Brasil se encontrava.
Ali se encontrava o Brasil. Ali estava reunida a nossa cultura e ali ela desfilava na passarela da esperança. Ali o Brasil se encontrava. Cada um trazia consigo uma pequena parte, mas que juntas formavam essa enorme máquina de esperança que é o Brasil. Máquina, que acreditei, por ingenuidade, estar quebrada e que não produziria mais esperança, mas eu errei, ela produzia intensamente e fazia renascer a chama da luta por coisas melhores característica do povo brasileiro.
