Hoje e nas próximas semanas, irei dividir a coluna com minha querida amiga Vivian Rocha, com quem fui Representante Discente na Comissão de Pós-Graduação de FDUSP entre 2016 e 2017. Assim, o(a) leitor(a) vai ter a perspectiva tanto de um doutorando quanto de uma já doutora pelo PPGD.
A pós-graduação não é fácil. Se não bastasse o investimento de tempo para cumprir os créditos e escrever a dissertação/tese, ainda temos que lidar com todos os outros compromissos da vida, seja no âmbito profissional, pessoal ou até mesmo acadêmico. Além de tempo, é preciso também saber lidar com as inúmeras pressões e incertezas que advêm da carreira acadêmica, o que por certo afeta nossa saúde mental. Em uma pesquisa de 2018, constatou-se que doutorandos(as) são seis vezes mais propensos a desenvolver ansiedade ou depressão em relação à população geral [1]. Muitas são as possíveis causas para tanto e iremos abordá-las a partir de nossa experiência.
A pesquisa no âmbito da pós-graduação em Direito é uma tarefa solitária. Ainda que você participe de um grupo de pesquisa ou realize atividades de monitoria, a maior parte da sua atividade diária é realizada por meio da leitura (de livros, capítulos de livros, artigos ou até mesmo outras teses e dissertações) e da redação do trabalho acadêmico. Em última instância, é você, sua pesquisa e o computador.
Uma consequência é o aumento da ansiedade, que pode se manifestar de inúmeras formas: na vontade de atender às expectativas dos outros (orientador(a), pais, colegas, etc.); no excesso de perfeccionismo, que nos leva sempre a enrolar para acabar o trabalho por nunca achar que ele está bom o suficiente; na culpa pela procrastinação; e na comparação com nossos colegas (seja porque já submeteram o trabalho antecipadamente, porque já estão dando aula, porque possuem muitas publicações, etc.). Isso sem falar na pressão para o “depois” – que caminhos seguir? Fazer um pós-doutorado? Mudar de área? Fazer concurso público? Ir para a área privada? Como nos inserir no mercado de trabalho como docentes? A reflexão sobre essas questões e incertezas (e muitas vezes o sofrimento por antecipação) desencadeia crises de ansiedade por vezes difíceis de controlar.
Outro fator a se levar em conta é o ambiente acadêmico, com seus ônus e bônus. Eventos e diálogos de alto nível se misturam com muita competitividade, ainda mais quando se leva em conta a máxima publish or perish. Um fato interessante é que já se chegou inclusive a fazer uma comparação (e aproximação) entre a carreira acadêmica e a carreira dentro do tráfico de drogas [2] – os que estão na base ou início de carreira estão dispostos a correr riscos e obter parcos resultados financeiros, na esperança de um dia ascender a posições mais altas e assim gozarem de segurança e prestígio; em outras palavras, poucos resultados e muitos perigos a curto prazo, muitos resultados e poucos perigos a longo.
Esse cenário de competitividade por vezes nos coloca frente à síndrome do impostor, mais comum do que se pensa. Em determinado momento, você começa a questionar se merece estar onde está, se realmente tem a capacidade para estar fazendo um mestrado ou doutorado e chega a ficar angustiado pensando se alguém, de repente, vai descobrir isso e tudo irá por água abaixo – em suma, você se pergunta se não é um impostor e se não vai ser desmascarado em algum momento.
Há também a questão do excesso de perfeccionismo. Quantas vezes você leu e releu uma página e mesmo assim ainda achou que não estava bom? Às vezes, estamos tão preocupados em ter um alto desempenho ou agradar aos outros, que não sabemos a hora de parar. É necessário colocar um ponto final em seu trabalho, o que não significa que você não possa desenvolver ideias derivadas dele no futuro (em um artigo ou pós-doutorado, por exemplo). Não é um tudo ou nada, pois o resultado é fruto de um processo. Lembre-se: “Ao tentar alcançar as estrelas, os perfeccionistas podem acabar apenas correndo atrás do vento” [3].
Pois bem. E como lidar com a saúde mental na pós-graduação? Não há uma única saída. Se você achar necessário, vá atrás de ajuda psicológica especializada. Não há nenhum problema ou demérito nisso. Inclusive, nestes tempos da pandemia, a FDUSP firmou uma parceria com a Clínica do Laboratório Jacques Lacan ligada ao Departamento de Psicologia Clínica do IP-USP, com o objetivo de fornecer atendimento remoto a preços simbólicos [4]
Uma outra solução é achar algo para fazer além da pós (e do trabalho, se for o caso) – um hobby, que pode ser meditar, fazer exercício físico, jogar videogame, assistir séries na Netflix ou fazer algum trabalho manual. Há um ditado que pode nos ajudar aqui: viver não cabe no Lattes.
Outra saída que pode ajudar a diminuir um pouco a solidão e a ansiedade é marcar reuniões periódicas com seu(sua) orientador(a), para discutir o trabalho e trocar ideias. Afinal de contas, você e ele(a) são as pessoas que mais conhecem sua trajetória e que mais entendem do trabalho que está sendo desenvolvido. Veja o seu(sua) orientador(a) como um futuro colega (e não como um amigo ou inimigo).
É válido também procurar colegas em quem você confie e que também são pós-graduandos(as). São pessoas que estão passando pelo mesmo que você e poder se abrir e trocar experiências sobre como está sendo o processo pode fazer com que haja um fortalecimento mútuo. Ainda, pode ser bom até mesmo para que possam te dar uma opinião sobre o seu trabalho [5].
Por fim, recomendamos o seguinte vídeo, no qual Robson Cruz (doutor em psicologia pela UFMG) discute alguns dos pontos que trouxemos aqui, sob um ponto de vista mais especializado: https://www.youtube.com/watch?v=a4sFlYZuQ3g.
[1] ”O doutorado é prejudicial à saúde mental”, disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/ciencia/1521113964_993420.html?rel=mas&%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM&fbclid=IwAR3h0OasMwACKxdlSgQ5deKOBjxRhSsu3d_21O8-RupYaXQpIDhjPtrkNik.
[2] “How Academia Resembles a Drug Gang”, disponível em: https://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2013/12/11/how-academia-resembles-a-drug-gang/.
[3] “14 sinais de que o seu perfeccionismo está exagerado demais”, disponível em: https://www.huffpostbrasil.com/2014/04/21/14-sinais-de-que-o-seu-perfeccionismo-esta-exagerado-demais_n_5185689.html.
[4] Conforme o comunicado FDI 04/2020, de 28 de maio de 2020. Para maiores informações sobre a Clínica, ver: https://www.latesfip.com.br/rc-sobre-a-rede-clinica. Para ser atendido(a), entre em contato pelo e-mail: [email protected]. Outros serviços oferecidos pela USP também podem ser encontrados em https://jornal.usp.br/universidade/setembroamarelo/.
[5] Essa sugestão de sempre mostrar seu texto para outra(s) pessoa(s) já foi dita na coluna “COMO FUNCIONA O PROGRAMA – PARTE II: A DISSERTAÇÃO E A TESE OU DA REDAÇÃO” (https://gazetaarcadas.com/2020/06/14/como-funciona-o-programa-parte-ii-a-dissertacao-e-a-tese-ou-da-redacao/).
