Tempo de Leitura: 6 minutos

Eu, cronista leigo das arcadas, fiquei muito feliz quando meu editor pediu para dar minha visão sobre a democracia. Como sempre, deixou bem aberto e nos deu muita liberdade. Mas e eu? Me dava liberdade suficiente? Me julgava capaz de fazer reflexão sobre tema tão importante? Mas nada disso importava, estava decido a fazer. Entretanto, cara leitora, mesmo que tenha certeza do seu destino jamais chegará até ele sem saber e sem trilhar o caminho.

Pois bem! O caminho me foi revelado em um banho, - aproveito e deixo aqui a minha ode aos banhos. Momentos mágicos que com seus vapores límpidos e seu calor, quase que tropical, afloram minha criatividade – enquanto, ao fundo, tocava “Vai passar” de Chico Buarque. Então decidi que cabia a mim, nesse espaço que me foi cedido, definir o que era democracia sem recorrer aos Anais da Ágora ou a qualquer explicação de um presidente estadunidense. Quero definir a democracia com o famoso e querido jeitinho brasileiro.

A democracia, meus amigos, nada mais é do que uma roda de samba popular. Lá todos dançam, pulam e sambam. Ali a alegria impera. Todos cantam unidos, todos podem pedir músicas, quase todos os pedidos são aceitos, todos gostam que o pedido do outro tenha sido aceito, todos sabem esperar que uma música termine para que se peça outra, todos riem, todos batem palmas e todas as palmas são para todos. Lá todos dançam, pulam e sambam. Apesar da música alta, todos conseguem ouvir e responder sem gritaria violenta o colega do lado. Apesar dos desejos particulares por músicas específicas, todos respeitam todos os pedidos, e mais, contam com eles, já que sem pedido, não há música e sem música não há roda de samba que exista.

É bem verdade que apesar de a voz ser unívoca, os instrumentos não o são. Apenas alguns tocam o tambor, o pandeiro, o cavaquinho e o violão. Mas também é verdade que esses instrumentos produzem o som para todos, atendem os pedidos possíveis e dão o direito de dizer não, caso a música não agrade a maioria. Funcionam quase como se fossem tocados por todos.

A música é feita por cada voz que se diverte no samba. A música é feita para cada um que se diverte no samba. A música é de todos. Dou aqui um conselho final, para saber, meus amigos, se uma roda de samba é boa basta ver a reação de quem anda na rua quando dá de cara com ela. Se for embora, é certo que a música está desafinada. Se ficar e se atrasar para os seus compromissos, tenha certeza de que essa roda de samba é das boas.

Entretanto, como diria Caetano: “a vida é real e de viés”. E você pode até não ver, mas eu não posso deixar de dizer que às vezes um ou outro engraçadinho, o qual fez um pedido impopular ou disseram “não” a ele, pois não agradava a maioria; não se contenta com a “derrota”. Aí, meus amigos, a roda de samba deixa de sê-la, passa a ser um amalgamado incoerente de vozes e batuques, misturados com os gritos dos que não respeitam a música que está sendo tocada, só porque foi pedida por outro. A música desafina-se. Cria-se a saudade da música que era tocada antes do problema. Então os mesmos engraçadinhos ressurgem prometendo a grandeza do passado, a mesma música boa de antes, só que para isso, eles teriam que ter um pouco mais de poder no começo do processo de resgate e determinariam quem pode ou não cantar. Um preço que, à primeira vista, parece aceitável.

Digo-lhes que o preço é muito mais caro do que te dizem. A roda de samba, caso caia nas mãos desses engraçadinhos, talvez jamais volte a ser a mesma e sempre se arrependerá das oportunidades perdidas. Mas, o mesmo não acontece quando, diante de problema ou de uma desafinação, todos conversam e tentam se manter no mesmo tom. É verdade que às vezes isso significa que alguns tenham que ceder, talvez deixem de dar alguns falsetes ou algo do gênero, mas jamais perdem seu direito de cantar.

Eu, cronista leigo das arcadas e cantador dessa roda de samba que é o Brasil, peço que não deixemos ninguém frear nossa voz. Cantemos unidos. Respeitemos a música que toca. Respeitemos quem toca os instrumentos. E peço também que quem toca os instrumentos se respeitem entre si, não há necessidade de nenhum soar mais alto, todos no mesmo tom serão ouvidos harmonicamente. E, por fim, peço que não usem de mentiras ou que distribuam sucos de laranja para que o seu pedido de música seja aceito, jogue com a verdade, por favor. Desejo apenas que tragam na cabeça a música de Belchior, que diz: “enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Share via
Copy link
Powered by Social Snap