Quando as pessoas me perguntavam no que consistia essa tal matéria chamada “ética e cidadania” que eu tinha na escola, eu dizia que era “tipo atualidades”. Não era “tipo atualidades”. Era ética e cidadania.
Meu professor de ética e cidadania da escola nunca decorou o meu nome, mas eu nunca esquecerei o dele. Foi com certa nostalgia, mas também com o sentimento de dever cumprido que ele, na última vez em que o encontramos, nos contou algumas coisas. Num discurso lindo, que me fez chorar naquele momento e me emociona profundamente até hoje (ou talvez mais hoje, do que naquele momento), ele relembrou os encontros e enfrentamentos durante os três anos em que fora nosso professor. E sobre como, não sem razão, ensinar, às vezes, parece uma guerra.”Uma guerra, boa, na verdade”, ele diria. Nos explicou que educar era como roubar guarda-chuvas. Roubar para tirar do outro o conforto e a proteção, oferecendo um inédito olhar sobre aquilo que nos cerca. Assim como os educadores, também são os jornalistas ladrões, ladrões da fé-alheia, das convicções, das certezas e das verdades, sobretudo daquelas verdades que não resistem ao peso das investigações. Os ladrões de guarda-chuvas servem para nos desorganizar, desorientar, desconstruir. Talvez, na história, esse seja o momento em que mais precisamos deles, dessa guerra boa e, ironicamente, a educação e o jornalismo profissional estão em crise.
O nome do meu professor é Roberto Candelori. Eu só pude ter o privilégio de ter as aulas que eu tive com o Beto, pois faço parte de uma geração que conheceu a democracia não apenas pelos livros de história. Sabemos, portanto, como a democracia e a educação são indissociáveis, que a educação só é plena quando a democracia é plena e vice-versa. É por isso que há consequências fatais para a educação quando a democracia falha ou falta. Não vivemos uma guerra boa, suponho que a marca de nosso tempo seja a incerteza, a dúvida quanto ao que virá, por isso a importância dos princípios sobre os quais projetamos nossos sonhos. Beto nos falava dos riscos das soluções fáceis, das tentadoras promessas do sucesso rápido. Nos explicou que dentro dos valores republicanos não cabem as vantagens que não podem ser compartilhadas com todos. Há na nossa língua palavra tão importante e tão esvaziada de sentido como a democracia? O Beto faz parte de uma geração que se formou na luta por um Brasil democrático e, embora ele nunca tenha decorado meu nome, ele chamava a todos nós de “brasileiros”. Você pode pensar que era só para não mostrar que não sabia o nome dos alunos, mas eu acho que é um ato político. Imaginem uma nação onde todos aqueles cujos nomes nós não lembramos fossem reconhecidos também como brasileiros.
Agora, algumas palavrinhas sobre uma outra pessoa que me roubou os guarda-chuvas. O nome dela é Teresa Chaves. A Teresa sempre sabia o nome de todos os seus alunos e tenho certeza que nenhum de nós esquecerá o dela. No começo de 2018, uma das minhas primeiras aulas de história com ela se iniciou com a discussão sobre memória e experiência, uma discussão que chegava a um ponto: a memória é mais sobre como a gente se sente em relação ao evento do que sobre o evento em si. E o mais importante: não lembramos das coisas da forma como elas aconteceram, mas com a circunstância atenuante da fugacidade.
Aqui, a gente ignora tanto a própria memória que os museus pegam fogo. Quanto menos a gente conhece a nossa história, ela parece cada vez menos necessária e é vivida com muito pouco cuidado. É como se a nossa nação não tivesse maturidade para ter um Museu Nacional. Um negócio muito mais interessante para a gente foi o Museu do Amanhã. Sempre lotado, tecnologia de ponta, arquitetura importada. Super legal. Sobre as cinzas da história passada a gente constrói a nossa história presente. É evidente que é uma estrutura extremamente frágil, porque ela se apoia sempre em um país que nunca aconteceu. País do futuro. Mas o país do futuro não tem nada de novo. O Brasil é o único país no mundo que tem o nome de um produto de exportação esgotado. O nosso Museu do Amanhã já é sucesso no estrangeiro. Por isso: nada de novo. Ainda não aprendemos que os ventos do norte não movem moinhos? Não houvesse tantos guarda-chuvas, ficariam mais evidentes: a nossa vida, os nossos mortos e os nossos caminhos tortos.
O nosso problema com a democracia é uma dívida que temos com a nossa própria história, o negacionismo, as ameaças, passam por um desconhecimento, por um esquecimento muitas vezes estratégico. Com isso, não quero dizer que aprendemos história para não repetirmos os erros do passado, a questão é que a memória cognitiva das comunidades às quais pertencemos faz parte de nós. Sabe, é que nem um trauma, quando a gente não incorpora uma memória à nossa história, ela volta como ameaça incompreensível. A música suave vence o amor porque nela não há feridas. O brilho eterno de uma mente sem lembranças. Esquecimento do esquecimento. Vivemos as consequências de um recalque social, aquilo que nós tentamos expulsar pela porta voltou pelas janelas, por todas elas. Os golpes sempre tiveram outro nome e destruíram aquilo que diziam proteger. Hoje podemos olhar os jornais do dia e saber sob que máscara retornou o recalcado. Voltou sem máscara, era como um teatro de sombras. Um teatro de sombras que dizia que estava tudo bem.
Com o agravante de que ir às ruas quando se pode ficar em casa muitas vezes tem sido sinal de apoio ao governo autoritário, a sociedade atravessa uma ponte de mão-dupla. Caminhamos a mesma distância, ainda que em direções opostas, mas, no final, teremos que saltar juntos. Cabe a nós escolher aonde queremos chegar.
Era uma vez o mundo. E ele era bem maior do que a minha casa. Sigo acreditando nisso, dormindo pouco, sonhando acordada. Talvez não mereçamos imaginar que haverá uma outra vida por detrás de cada cidade abandonada. Mas sempre podemos escolher imaginar o futuro ao invés de aceitá-lo, ouvir os fantasmas ao invés de esquecê-los. A vida real não é de todo ruim, aliás, é o único lugar onde ainda é possível ir à praia de graça. Precisamos ver o mundo como ele é, principalmente para transformá-lo. Chega de guarda-chuvas, teatros de sombras e músicas suaves. Chega de mortos, caminhos tortos e verdades de papel.
