Escrevo esse texto com fiel apego à paixões e às palavras do grande contador de histórias e meu amigo Caio Duarte, que me inspira cada vez mais amor pela Velha e Sempre Nova Academia.
Caio Gosslar da Silva Prado
O tempo é a década de 1940. Estoura a segunda guerra mundial. O Brasil se junta à luta e vai combater o mal no além-mar. Há, entretanto, poucos homens capazes de conduzir uma máquina voadora de guerra. Eis que o senhor Assis Chateaubriand, então, começa a coletar dinheiro entre os brasileiros abastados de mais renome para comprar aviões, e distribui tais engenhocas ao Departamento de Aviação do Ministério da Guerra com o intuito de treinar pilotos.
Em relação de comodato, pois, o ministério dá aviões para algumas entidades reconhecidas da sociedade civil. Uma delas era o então renomadíssimo Centro Acadêmico XI de Agosto. Ao longo de sua existência, esse programa de incentivo à aviação daria vários aviões para a Facvldade, de tal sorte que tais aeronaves seriam substituídas a cada cinco ou seis anos.
Tamanha era a importância do voar no Largo de São Francisco, que, assim como a Associação Atlética Acadêmica, o Centro Acadêmico, a Academia de Letraz, e o Departamento Feminino, havia também o Departamento de Aviação. Os alunos, aviadores como que integrantes de uma modalidade da AAA, treinavam outros alunos para que estes tirassem seus brevês. Isso, diga-se de passagem, era uma forma de evitar que os alunos tivessem de prestar o serviço militar obrigatório.
Para alavancar o desenvolvimento do Depto. de Aviação da SanFran, ingressaria nas Arcadas em 1960 o senhor Flavio Flores da Cunha Bierrenbach. Por sua aptidão como piloto e iniciativa ímpar, Bierrenbach rapidamente assume a presidência do Depto. de Aviação, e passa a fazer os trabalhos necessários inerentes ao cargo. Foi ele, então, até onde se localizava nosso aeródromo: lugar que hoje chamamos de Cidade Universitária da Universidade de São Paulo. O pântano que atualmente abriga a reitoria da Universidade e a maioria dos cursos uspianos é justamente onde ficava nosso hangar franciscano, bem como o da Escola Politécnica, este com seus aviões de teste, planadores não-tripulados.
Ao chegar lá, percebeu Flávio que o avião do XI estava em péssimas condições. O mecânico havia lhe dito que nosso AerOnze nunca mais alçaria voo. Mas, independentemente das afirmações do expert, chega a Flávio um comunicado da Universidade dizendo que seria necessário remover o avião do local onde se encontrava e transportá-lo para o Campo de Marte.
Àquela época, transportar tamanha máquina voadora do aeródromo ao tal Campo seria um grande desafio sem poder trafegar pelas atuais marginais (que nas idas da década de sessenta, ligavam nada a lugar nenhum). “Mas como poderia-se levar um avião até outro local sem ser por terra?” pensou nosso jovem piloto. A resposta era simples: Voando, é claro!
Assim, Bierrenbach acionou o mecânico, advertindo-o para que colocasse o mínimo de gasolina o possível, de maneira que a aeronave ficasse menos pesada, e também que removesse todas as partes sobressalentes e não essenciais.
Nosso herói, então, decide aventurar-se sozinho pelos ares pois seria um voo demasiadamente perigoso. Flávio entra na máquina de metal com asas, liga os motores, e sente o vento das hélices em seu rosto. O AerOnze decola timidamente, e não consegue subir muito mais alto do que dois metros de altura. A máquina começa a perder altitude e empenar, e, perigosamente, a parte de trás do avião ameaça tocar o solo antes do trem de pouso frontal. Bierrenbach, com sua exímia habilidade técnica, embebido pelo espírito franciscano, consegue, como que por um milagre, pousar com segurança e sobreviver.
Nossa história não acaba aqui. Flávio sobreviveu, mas ainda precisaria levar o AerOnze até o Campo de Marte. Ele telefona, pois, para um amigo estudante da Fundação Getúlio Vargas, que sugere transportar nosso avião pelo túnel da atual Avenida Nove de Julho, este o único caminho terrestre a conectar as duas partes da Capital Paulista.
O amigo, que medira o diâmetro do buraco, afirmou que tal feito seria possível sem grandes dificuldades. Na madrugada seguinte, então, juntam-se inúmeros franciscanos curiosos e empolgados em carreata para acompanhar o piloto Bierrenbach no feito: puxar um avião em direção ao Túnel Nove de Julho!
Nos primeiros metros da jornada, tudo vai bem. Sorrisos alegram os rostos de alunos engenhosos, que, sentindo-se as mentes mais brilhantes de São Paulo, acreditavam ter achado uma solução perfeita para um problema impossível. Contudo, depois de momentos de euforia e sucesso – pânico: a aeronave entala no túnel. Por um erro de cálculo, nosso colega da Getúlio Vargas esquecera de considerar que o buraco, como um funil, não tem o mesmo diâmetro por toda sua extensão. E assim o avião permanece preso… três da manhã, quatro da madrugada, cinco da matina, e nada de desentalar. O movimento de carros e de pessoas cresce, e a cidade começa a acordar, percebendo um trambolho de metal mais do que gigantesco a obstruir o corredor norte-sul.
A polícia chega. Os oficiais pressionam os estudantes, e, munidos de cassetetes e revólveres, os guardas ameaçam prender todos ali. Eis que um dos alunos tem a brilhante ideia de atear fogo ao nosso AerOnze para sumir com o problema – mas Bierrenbach prontamente rebate tamanha bobagem: “Não! Esta aeronave nos foi confiada, e a ela não abandonaremos jamais!”. Os policiais, agitados e desejosos de uma solução rápida, começam a tomar as providências para conter e encarcerar os jovens, quando então, o jovem piloto recorda-se de um amigo político da Assembleia Legislativa, e para ele telefona em tom de urgência: “Deputado, precisamos de ajuda! Estamos em apuros! A polícia nos quer enjaular, e nosso glorioso AerOnze está ameaçado por fogo ardente! Estamos entalados no túnel da Av. Nove de Julho! Venha com presteza!”.
Rapidamente, o Deputado larga seus afazeres e corre em direção aos franciscanos para socorrê-los. Encontra uma grande confusão armada e o circo (quase) pegando fogo. Olha para os policiais, e, em tom repreensivo, dá uma senhora bronca nas supostas autoridades. Ele afirma veementemente que os meninos da Velha Academia estavam fazendo não uma grande balbúrdia, mas sim um dever cívico à comunidade paulista. Deveriam, pois, os policiais auxiliá-los, e jamais ameaçá-los. Os oficiais, então, com a Força Pública, ajudam a desentalar o avião do túnel e levá-lo, danificado, até o Campo de Marte.
Por fim, ao chegar em seu destino, o AerOnze seria guardado em um hangar, onde permaneceria com suas asas avariadas até ser esquecido em virtude do encerramento do programa governamental que um dia lhe dera a chance de alçar voo. Com o passar do tempo, nossa aeronave jamais veria o azul do céu novamente, mas poderia orgulhar-se de ter sido o único avião da história a percorrer, guiada pelos meninos da Velha Academia, o túnel da Avenida Nove de Julho.
