
Ilustração Ana Julia Chubaci
Homens de Terno não cometem crimes. Ando como se nada houvesse pelas ruas e como se estivesse acostumado com a frieza orgânica do meu ser, fecho os olhos pra tudo, como se não visse nada. Como se não visse as batidas policiais. Como se não visse os pedidos por comida. Como se não visse os gritos de socorro. Como se não visse as pancadas violentas. Como se não visse o medo com que as mulheres andam. Como se não visse os assobios e cantadas que se destinam a elas. Como se não
visse o ser humano que há em cada um que passa por mim. Só vejo os ternos. Aliás, só vejo Homens de Terno. Sigo em paz, alheio de tudo que me passa pelos olhos, afinal, eu uso terno. Afinal sou um Homem de Terno. Ninguém precisa me parar. Eu que digo quem deve ser parado. Eu que digo quem representa perigo. Eu que separo o joio do trigo. Eu e todos os outros Homens de Terno. Levam meu
relógio. Levam minha aliança. Levam minha carteira. Levam meu celular. Como ousam atacar um Homem de Terno como eu? Será que não veem quem que mantém a ordem? Será que não conhecem em suas vidas medíocres um pouco de gratidão? Os desgraçados não deixaram nada. Sigo pra delegacia. Sou atendido bem e rapidamente. O escrivão se compadece de mim e amaldiçoa os ladrões, o tipo de compaixão que um Homem de Terno tem por outro Homem de Terno. Sigo pra casa. Mas agora não cometo o mesmo erro e sigo atento, afinal é muito perigoso nem todos são Homens de Terno. Só Homens de Terno não cometem crimes.