Quem será esta massa que vos fala? Sabeis mais do que sou do que propriamente poderia eu saber? Eu, insuperável questão. Quem conheceis? Do tufo de cabelo às unhas dos pés, sou alguém entre tantos. Há de haver alma, como tanto me ensinaram? Controvérsias imperscrutáveis que ardem como um adeus infindável.
que despedaça
como algo frágil
do luar
mar
espelho de lágrimas
para voltar
e dizer
que é
E que não há o que haver. Fora das incertezas, mais dúvidas. Inclusive aquele que não considera certo aquilo que não pode concluir. Tiro de um rifle que acerta em cheio e grita: “CERTEZA”. Doa o que doer, e o desperdício vira uma formação delicada.
Balé meticulosamente ensaiado. Poder-se-ia dizer, até, incansável. Folia carnavalesca que se mescla ao ideal. Harmonia sonora de tambores que rufam a anunciar a vinda de Orfeu, um tipo brasileiro que apazigua com suas palavras escritas em sangue.
Sonhei com Eurídice, esta noite. Marabá virou Mira e Aristeu também se foi. Edgar, fidelidade inabalável que assustou Edmundo – inconformado e pérfido irmão. Pobres almas que, da noite para o dia, passaram a habitar este mundo.
Alguéns que existem, só por não desejarem ser ninguém. E importa se existem aprioristicamente nas folhas? Levados a jornadas mais belas do que seus autores poderiam imaginar, logram em existir. Pensais ser tarefa fácil a de existir?
Não. Uma crônica é uma crônica. Se não a fosse, seria outra coisa. Pode virar poema? Não seria ainda uma crônica? Rimas, métricas e tudo mais desperdiçadas sob o falso pretexto de quem escreve para respirar. Alívio.
Caístes nos braços de Morfeu e acordastes para ver que o mundo todo é vosso. Sendo vosso, podeis criar as figuras mais medianas ou excêntricas. Ou mesmo, podeis decidir não criar. Enganam-se os que preferem essa via. Esquecem que não criar é uma invenção. E, como toda invenção, apodrece o inventor na mesma medida em que continua a existir.
Quero apenas em minhas criações o que restou de Kalle e Ziffel. Isto! Quero ver desenrolar a sede do bem mais valioso para os homens e mulheres com poder. Uma invenção tão bela e quebradiça que se esquece do que é para voltar e ser. Quero, para ser claro, despir o ser humano em toda sua mediocridade e mostrar ao mundo – com minha própria tez mediana – a beleza de ser e de ser o que não se é.
Plenamente ser. Sem escolha. Sem que se apregoem regras que não sejam as próprias da existência. Não falo do existencialismo – pobre invenção com seus alicerces numa política milenar de maniqueísmo infinitamente efêmero.
divide
conquista
divide
duvide
Pensam que são inocentes, puros e belos. Sonham em ser cidadãos. Alguns, até pegam em armas, togas ou batinas para carregar esta missão de cidadão inocente, vestido, amável, respeitoso, com família, carro, dinheiro, cachorro, televisão e algema.
Eurídice veio a mim. Não tinha face. Voz suave, disse-me que não ia se perder. Fez juras de amor. Da minha janela, um imenso oceano. Estava eu, lá, a nadar. Perdia-me por detrás de uma árvore.
Retifico tudo o que disse. E digo o contrário, que nada mais é do que o mesmo. O calor do fogo sobe como arte e consome o que não se pode escolher. Olhos me fitam. Vejo nela, ainda sem rosto, um duvidar sedutor. As mãos tremem e os dedos se entrelaçam para trazer alguma segurança.
Quero tocá-la. Passo entre homens engravatados. Gravatas douradas voam com um vento que anuncia uma tempestade apocalíptica. Seu semblante feliz parece vir ao meu encontro. Corro e percebo o quão longe ela está. Ofegante, prestes a encostar nela, tudo se dissolve. Acordo. Mais um espetáculo ordinário a ser aplaudido. Lede vós o que nos foi proibido.