Na tarde nublada e sem graça de uma quarentena sem fim, resolvi finalmente tirar o dia para desempoeirar os diversos livros que se encontravam acumulados no canto escuro da sala. Esse simples ato me trouxe de volta à minha infância. Num cerrar de olhos, minha mente foi levada a uma gostosa memória de quando eu era criança. A fim de estimular meu interesse na leitura, meus pais costumavam dizer que os livros podiam se comunicar com seus leitores. “Não importa qual for o for o problema, as páginas vão te mostrar a mensagem que você procura”, eles diziam. Então sempre que eu estava me sentindo triste ou perdida, simplesmente fechava meus olhos e pegava o primeiro livro que eu encontrasse, tentando, assim, achar conforto em suas palavras.
Eu sempre achei esse hábito um pouco bobo, mas gostava da sensação de exclusividade. Como se aquela parte fosse escrita justamente para mim naquele exato espaço de tempo. Na minha imaginação, era como se eu estivesse abrindo um portal e me comunicando com aquele vasto universo. Já que eu não tinha a mínima ideia do que escrever nesse texto, cruzei meus dedos e desejei com todas as minhas forças encontrar algum caminho que eu pudesse seguir. Enquanto minha mão passeava delicadamente naquela fileira imensa de livros velhos, impulsivamente agarrei um deles e o trouxe para perto de mim. Voilá! Ali estava a minha tão esperada resposta.
É claro que você pode pensar que estou mentindo, ou que independente do livro, eu arranjaria um jeito de fazer alguma analogia mesmo que grotesca para tentar encaixá-lo no tema da semana, que, caso você esteja se perguntando, era para ser sobre democracia. Mas eu prefiro acreditar na beleza das pequenas coincidências da vida.
Suponho que minha falta de objetividade seja um sério problema, mas acredito que seja necessária em alguns momentos para causar um certo suspense. Em minhas mãos se encontrava “A peste”, de Albert Camus.
Para quem não conhece, grosso modo, o livro conta a história de uma cidade que havia sido tomada por uma epidemia de peste, fazendo com que os habitantes, agora em quarentena, lutassem por suas vidas e sanidade. Entre todas as partes desse livro, acho válido citar uma que sempre me tocou: “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada”.
Da mesma forma que o bacilo não morre, o passado também não pode ser apagado, no máximo, pode ser aproveitado, estudado e servir de instrumento para impedir a repetição do mesmo. Porém, o que se nota no Brasil é um ciclo vicioso que põe a jovem democracia do país em perigo iminente.
Desde 07 de setembro de 1822, dia da Proclamação da Independência, o Brasil passa por uma jornada turbulenta a fim de se tornar um país mais igualitário e democrático. Porém, decorrente do seu processo de consolidação e das fortes cicatrizes deixadas pela colonização, a democracia encontra-se constantemente ameaçada. Tal fato é ainda mais evidente se analisados os recentes eventos de censura e o constante desrespeito à população por parte de inúmeros políticos e autoridades, principalmente, durante esse momento de crise.
Achei que seria fácil escrever sobre uma coisa que faz parte da minha vida, um aspecto tão fundamental que eu nunca tinha parado para pensar em como seria viver sem. Mas eu estava terrivelmente enganada! É engraçado como o privilégio nos cega e traz uma falsa sensação de conhecimento e segurança. Fico pensando em quantas vezes eu não me deixei levar por discursos prontos e meias verdades. Imersa em tantas indagações, não pude evitar imaginar uma vida sem esses bacilos.
