Veja bem, eu te amarei e te odiarei enquanto estiver sob a sua guarda. Sinto muito, mas não posso idealizar minha mãe para sempre, portanto, sejamos realistas, é o melhor a se fazer. Você, que nasceu da folha do acanto, que atravessou oceanos, que me carregou no ventre e me fez nascer rodeada de presentes: você me deu a vida, a liberdade, a cidadania. Sua pele pálida e seus longos cabelos pretos com cheiro de louro me encantaram tanto na infância, mas, a inocência infantil sempre morre ao meio dia ao ligar a televisão e escutar a contabilidade da morte. Você não me contou que sou fruto do sangue de muitos pais, mães e filhos que se esvaneceram sob a própria tinta rubra. O mata-borrão não é do céu, é seu! Mesmo assistindo a tanta torpeza e a tanta tortura, enquanto isso lá, do outro lado do mundo, muitos morreram cercados de ouro preto enquanto escutavam seu nome. E o que dizer dos meus vizinhos de oceano? Já estão na meia idade e ainda não conseguiram desenhar seu rosto. Viveram e vivem uma ilusão. Eles levantam o punho e gritam o seu nome antes de serem massacrados por seus opositores vorazes. Você não grita, você não chora. E apesar do seu rosto frio e inexpressivo, o que mais amo é o seu abraço, é saber que, se nasci, foi resultado da sua carne, porém, para te amar sem sentir culpar, para me utilizar dos seus braços e pernas nos manifestos e nas manifestações, para gritar com a sua laringe e dizer o que penso, para olhar para a tela resplandecente e me mostrar ao mundo utilizando dos seus olhos e dedos, precisei fechar os olhos por alguns instantes e esquecer do seu lado homicida. No fim das contas, quando estiver enterrada, embebida dos seus risos e das suas lágrimas, você permanecerá até que meus irmãos te coloquem no asilo da história e criem do barro os seus próprios pais. Até lá, não nos abandone. Com muito carinho e com muita raiva lhe digo que eu te amo e te odeio.
