O mês de junho é marcado por várias datas que nos fazem refletir sobre a vida em sociedade, tolerância e diversidade – temos o dia da criança africana (16), dia do refugiado (20), dia do orgulho LGBTQ+ (28). Cada um desses dias carrega seu peso e importância, mas este artigo vem para homenagear o dia 25 de junho, o Dia do Imigrante.
De acordo com o dicionário (um Houaiss que está aqui em casa há pelo menos 22 anos), imigrante é a “pessoa que imigra ou imigrou; que ou quem se estabeleceu em país estrangeiro”. Um “país estrangeiro”, por sua vez, é definido por suas fronteiras que são “o marco, a raia, a linha divisória entre duas áreas, regiões, estados, países etc”.
Veja que a divisão nunca foi entre pessoas, mesmo assim, surgiu a xenofobia – “desconfiança, temor ou antipatia por pessoas estranhas ao meio daquele que as ajuíza, ou pelo que é incomum ou vem de fora do país (ver sinonímia de preconceito)”.
Tirei tudo isso do dicionário, não preciso tecer argumentos mirabolantes para falar do que está mais do que claro: não há fundamento algum para excluirmos as pessoas que vêm para nossos países. Pelo contrário, deveríamos todos exercitar a empatia e tornar mais fácil uma mudança que pode ser tão dura para tantas pessoas.
Por isso, hoje eu proponho que nós conheçamos algumas histórias. Digo nós, pois também tirarei muito aprendizado daqui, ironicamente, justo eu que escolhi falar sobre o tema, vivo no mesmo país, cidade e apartamento há quase 22 anos.
Então, hoje quem escreve esse artigo são imigrantes que aceitaram o convite para contar suas histórias e dividir conosco uma outra perspectiva desse fenômeno sociocultural que ocorre de maneira diferente para cada indivíduo:
Hans
“Meu nome é Hans Remberto Quelca Yanique tenho 29 anos, sou Boliviano descendente do povo aymara, estou no Brasil na cidade de São Paulo a 7 anos vim com o intuito de estudar música é trabalhar. Foi meu primo que me ofereceu para vir até o Brasil ele arcou com as despesas da viagem para ajudar ele na costura, o mesmo voltou para Bolívia pois a mãe de ele faleceu.
Já na Bolívia eu trabalhava de segunda a sábado como mecânico automotivo sou formado em isso é de sexta a domingo no período da noite trabalhava como músico por mês ganhava 1500 bolivianos equivalentes a 500 reais. Enfim consegui tirar minha documentação que demorou 8 meses em sair o temporário e o permanente demorou 6 meses enquanto isso a gente tem que andar com um protocolo o meu documento saiu através do acordo da Mercosul onde permite a entrada é saída de pessoas com o RG para os países que fazem parte de esse acordo só em documentação gastei uns 2000 reais acho incluindo todo.
Chegando no Brasil estudei música é no segundo ano percebi que gostava muito mais de políticas públicas y na intervenção das mesmas com a sociedade, muito mais vendo a grande diferença social que existe no Brasil, me formei em Serviço Social em 2019 na PUC-SP e estou me preparando para fazer o mestrado. Trabalho com População em Situação de Rua no extremo leste onde aprendo todo dia com eles o simples fato de viver simplesmente além das consequências da busca pelo poder e como ela destrói a nossa sociedade.
Quando cheguei no Brasil não sabia o que me esperava aprendi o idioma escutando música é lendo livros, até por que tem muitas palavras iguais, me estranhei muito andar de metrô e ver quanto às pessoas embora compartilhem o mesmo local não se enxergam nem se complementam, as comidas são muito diferentes no modo de preparo e até no sabor de cada uma de elas, aprendi que não tem nada melhor que o calorzinho da periferia ante a frialdade dos monstros de concreto do centro e da zona sul, aprendi também que todo dia tenho que me reafirmar como descendente dos povos originários, aymara na minha essência”.
Laura
“Nasci em SP, cresci lá até os 6 anos de idade. Meu pai já trabalhava em uma empresa e já tinha vindo pra Alemanha de delegação umas 2 ou 3 vezes, sempre por pouco tempo. Aí recebeu um convite para ficar 3 anos, e nós mudamos para Erlangen. Depois dos 3 anos (2004-2007) ele foi convidado para ir pra Abu Dhabi, onde moramos por 2 anos (-2009). Aí a Alemanha ofereceu um contrato local e ele aceitou, então voltamos para Erlangen em 2009.
Sobre Erlangen: para padrão alemão é uma cidade grande, tem 150mil habitantes hoje em dia, acho que na época era por volta dos 100mil, então para nós era uma cidade pequena.
Primeiros anos na Alemanha: como eu não falava NADA de alemão, as primeiras semanas de escola (primeira classe) foram bem estranhas. As únicas coisas que eu sabia falar eram meu nome, que sou Brasileira, não falo alemão e perguntar se eu posso brincar 😀 isso funcionou até que bem para mim, e eu fiz amigos rápido. O que também ajudou, é que no Brasil eu já tinha aprendido a ler no pré-primário, e as crianças alemãs só estavam aprendendo agora, então eu podia me concentrar em aprender as palavras sem ter que aprender a ler. O único problema que isso deu foi que minha professora achava que eu estava fingindo não falar alemão e vivia chamando minha mãe pra perguntar como que eu consigo ler sem saber o significado. Na época a empresa dava aula particular de alemão, então em 3 meses eu estava falando e entendendo tudo.
Para minha irmã foi bem mais difícil, porque ela já estava na 4ª classe, e as meninas já queriam conversar em vez de brincar. Como ela não sabia falar nada também elas meio que ignoraram ela pelos primeiros meses - isso é uma coisa bem alemã, eles não são muito inclusivos com pessoas que não tentam ativamente se incluir…
Bem, então minha irmã também aprendeu alemão super rápido e fez amigos, e aí meus pais descobriram que aqui depois do primário tem 3 níveis de escola, e minha irmã teve que se esforçar muito mas ela conseguiu entrar no nível mais alto, que você precisa para ir pra faculdade.
Durante estes 3 anos teve uma coisa que sempre acontecia quando eu falava para outras crianças que sou Brasileira: “mas porque é que você é tão branca?” Eles todos achavam que no Brasil só tinha negro, e a maioria nem sabia direito onde o Brasil ficava, ao menos qual é a capital (alguns achavam que era São Paulo). Isso de me perguntar porque eu sou branca continuou até a 6ª ou 7ª classe, e até mais tarde tinha alguém que fazia este comentário. O que acontece até hoje é das pessoas assumirem que eu danço samba e gosto de futebol na época não tinha muito estrangeiro na minha escola (e em Erlangen no geral) então eles realmente não sabiam, mas a maioria aceitava quando eu dizia que não sei nem dançar samba nem jogar futebol. Eles também viviam me perguntando se eu falo espanhol, até que eu comecei a ficar brava por volta da puberdade e o pessoal da minha classe aprendeu que falamos português”.
Mariana
“A minha mãe é brasileira, a família dela é brasileira, do Rio de Janeiro e meu pai é venezuelano e a família dele é venezuelana. Minha mãe foi para a Venezuela e morou lá por muitos anos a trabalho, conheceu meu pai, eles se casaram e me tiveram em 1999. Então minha mãe recebeu uma proposta de trabalho aqui no Brasil, quando eu tinha menos de um ano. Ela decidiu aceitar e eu vim com ela. Meu pai ficou na Venezuela, por causa do trabalho e por não falar português, então precisava de uma transição para ele conseguir vir. Eu e minha mãe moramos aqui por um ano até meu pai conseguir vir fixamente. Eu tenho 21 anos e moro no Brasil há 20, então eu me sinto muito como brasileira, eu nem sou estrangeira realmente, porque tenho dupla nacionalidade, por causa da minha mãe. Até fazer 18 anos, meus documentos diziam que eu era tanto brasileira como venezuelana, mas que a nacionalidade brasileira era opcional quando eu atingisse a maioridade. Quando fiz 18 anos tive que ir a um cartório para tirar outra certidão de nascimento oficializando minha nacionalidade brasileira. Agora tenho a documentação dos dois países, além dos dois idiomas e duas culturas, porque minha mãe sempre falou comigo em português e meu pai em espanhol. Pelo fato de ter morado no Brasil a vida inteira, acabo me sentindo muito mais brasileira do que venezuelana. Em razão de toda a crise que a Venezuela tem passado há muitos anos, não vou para lá faz muito tempo. Eu costumava ir na época do Natal para visitar meus parentes, mas já faz quase 10 anos que não vou, desde que a situação ficou mais crítica. A minha família lá tem uma situação financeira melhor do que a maioria da população, mesmo assim eles vivem coisas que para a gente são surreais, eles passam dias sem energia elétrica e água, desabastecimento dos mercados por conta da evasão das empresas. Decidimos que não fazia sentido mais irmos para lá, preferimos trazer nossos parentes uma vez por ano para nos visitar. Eu dou muito valor para o fato de ter sido criada numa família multicultural e meus pais sempre terem dado muita importância para isso. Eu estudei numa escola bilíngue e multicultural que tem tanto o currículo brasileiro quanto o espanhol, tendo dupla formação. Isso facilitou até mesmo o contato com a minha família, pois consegui ter domínio do idioma”.
