Querida Mirtes,
Acredito que chegou a hora de fazermos nosso acerto de contas, afinal, você se virou contra mim depois de eu ter me tatuado com o seu sangue em nome da nossa liberdade. Lembro de você pequena, chegando aqui em casa, depois de ter perdido toda a família para o Atlântico. Você fez uma viagem tão longa e tão dolorida e eu sinto muito por isso, querida, mas não poderíamos lhe deixar aqui sem trabalhar, afinal, alimento e roupa custam dinheiro. Éramos pobres, mas fizemos de tudo para crescer e conseguimos, também não posso negar sua contribuição para a construção dessa grande casa e os cuidados com a nossa família, com a lavoura e com a vendinha. Eu lhe tratei como se fosse da família e, hoje, ao ouvir suas reclamações fico consternada. Nós tínhamos um projeto, nós duas, de liberdade e igualdade. Lembra quando nos demos as mãos depois que você colocou meu filho para dormir? Foi o momento que criei coragem e fui para as ruas. Pedi pelo voto feminino, pedi pela igualdade salarial, pedi por direitos trabalhistas para as mães. Eu estava nas ruas e entendo você não poder ter ido, afinal, você precisava enterrar seu segundo filho, mas, passadas as dores, eu esperava por você e você, Inara, não apareceu, abandonou todas as suas companheiras. Quando me casei e lhe trouxe para a minha casa era porque confiava em você e no seu trabalho e, como prova, eu até paguei aquelas horas extras e lhe ajudei dando metade do seu pagamento quando quebrou o pé e não pôde vir trabalhar. Nada disso lhe impediu de se voltar contra mim e contra a minha família quando acusou meu esposo de assédio sexual. Não consigo colocar em palavras quantas feridas foram abertas a cada olho roxo que eu via em seu rosto quando chegava para faxinar a casa e, ainda assim, nenhuma dessas feridas será maior do que a sua ingratidão. Não sei o que pretende com tantos disparates e tantas acusações infundadas. Assim, termino por dizer que começamos irmãs e acabamos por revelar o pecado original.
Espero sua resposta
Atenciosamente,
Sari
