Não é ficção, juro que não é um daqueles filmes ruins da Netflix que a gente acaba assistindo quando desiste (depois de umas duas horas de insistência) de procurar algo de qualidade. O enredo seria um pouco forçado, eu admito, mas até que bem criativo: tem o chefe de Estado fascista que aparenta (física e mentalmente) estado de decomposição, tem incêndios devastadores, vulcão em erupção, um vírus de alto contágio matando a população, protestos por todo o mundo, tem até a aparição de ovni e vespas assassinas (é sério), e tudo isso durante uma pandemia.
Mas, por mais que eu reconheça uma merecida indicação ao Framboesa de Ouro (50 tons de cinza e Crepúsculo são obras cinematográficas em comparação), é necessário ressaltar que isso se trata da realidade, ainda que admita a forte presença do meu juízo de valor satírico (de seriedade já estamos saturados). Acontece que o privilégio tem um papel cômico nisso tudo, é o segregado, limitado, restrito (e quantos outros adjetivos vocês acharem coerente encaixar aqui) papel de poder. O poder se isolar socialmente e ainda ter a geladeira de casa cheia, o poder colocar em primeiro plano a própria saúde sem ter de si tirado a única fonte de renda, o poder acessar informações a todo minuto do dia, o poder ler um livro, o poder assistir um filme e até o poder encher a cara e jogar gartic com os amigos. Eu estou aqui falando sobre exercer direitos sociais básicos dos quais não é necessária a vivência franciscana para conhecer, é sobre a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia e o lazer não irem além do artigo 6° da Constituição Federal para muitos que compartilham a mesma nacionalidade que nós, os privilegiados.
Ainda que em uma bolha social quentinha e acolhedora, encontramos espaços (nos melhores amigos do Instagram) para nossos “white girl problems” diários. A monotonia caseira tem como resultado uma inquietação evidente quando imposta para uma geração que assiste videoaulas na velocidade 2x, digita textos “militantes” na velocidade de 3 respirações, fofoca em áudios e prints no grupo de amigos no whatsapp umas 50 vezes por dia e abre 10 páginas da web sobre assuntos sem nenhum nexo entre si, pressionando alt tab a cada 2 linhas lidas. Não esperem de mim uma culpabilização subjetiva, não nos irei comparar aos acorrentados diante das sombras no Centro e nem ao menos cometer o atrevimento de relacionar a nossa extraordinária contemporaneidade aos acometidos pela cegueira branca isolados no antigo manicômio, seguramente não tenho o currículo de Saramago para tal. Assim, somos sujeitos, mas não estamos sujeitos ao que não nos sujeitamos (a linguagem atrevida faz parte do contexto).
Em uma tentativa (talvez inútil) de esclarecer os meus embaraços mentais, resumo que, o isolamento que vivemos hoje nos angustia porque é físico e material, mas a ironia mora no fato de que o topo da pirâmide sempre foi um local de distanciamento. O conteúdo que consumimos não é a realidade, é editado em todos os sentidos que podem ser atribuídos a essa palavra, me arrisco em dizer que até mesmo um testemunho de um fato não é a realidade, pois os preceitos que carregamos conosco, fruto de vidas isoladas e privilegiadas, atribuem juízos de valor imediatos a tudo que ocorre a nossa volta. Analogamente, ao discutir o isolamento, entra em cena a “camarotização” que, para além da redação do vestibular, é pouco observada como fenômeno recorrente. A tragédia acontece a todo tempo e nós assistimos (claramente não abrangendo toda a semântica da palavra) em um processo passivo, sem muito envolvimento que ultrapasse a publicação de uma tela preta no Instagram.
